12 de abril de 2.001
Sexta-Feira Santa. É Páscoa. Feriadão. Se bem que decretei a quinta-feira como sendo parte do meu feriado. É que minha profissão é bastante cansativa. Adoro ser dentista, mas tenho alguns princípios profissionais dos quais não consigo abrir mão. Um deles é tentar atender a todos os meus pacientes nos horários certos. Geralmente consigo, a menos que, durante alguma consulta surjam dificuldades imprevistas e a consulta acabe demorando mais que o previsto. Mas isto é bastante cansativo. É como se uma pessoa tivesse um emprego por hora, tendo de chegar na hora certinha a cada um deles. E eu tenho, no mínimo, uns 10 "empregos" destes por dia.
Além disso, como dentista tenho de conviver com um outro fato que desgasta muito (ao mesmo tempo em que é muito gratificante): tentar fazer o máximo possível para que cada paciente sinta o mínimo possível de dor e desconforto. Para isto, cada movimento meu tem de ter uma força muito bem dosada, uma velocidade extremamente correta, uma precisão de movimentos o mais perfeita possível. Como dentista, sei exatamente o momento em que um paciente provavelmente pode vir a sentir dor. E neste momento dou o máximo de mim, para que ele não sinta nada. Geralmente consigo. E isto me deixa muito feliz. Me trás realização profissional.
Mas, por trás de um dente, existe uma pessoa. E cada ser humano é particular. Cada um tem seus medos, seus anseios, suas esperanças, suas pequenas manias. E desta individualidade nasce outra parte deliciosa de minha profissão: lidar com o ser humano. Tentar entendê-lo, tentar ajudá-lo, mas sem nunca pretender julgá-lo. Aceitá-lo como é e tentar transformar um momento de sua vida (que poderia ser ruim) em algo que possa ser visto por ele de uma forma construtiva. Fazê-lo entender que estou a seu lado para ajudá-lo a viver bem. Se possível, a viver melhor.
Mas tudo isto, apesar de extremamente gratificante, cansa. Por este motivo, achei que merecia uma "quinta-feira santa". E tentei fazer apenas coisas que gosto. A primeira foi dormir. Depois fui até o centro da cidade - já eram anos que não fazia isso. E fui de metrô (outra coisa que não fazia há anos). E, para minha surpresa, encontrei um metrô extremamente bem conservado, limpo e bonito. De todos os que conheci, no mundo, posso afirmar com muito orgulho que o metrô de São Paulo é o melhor. É claro que a rede é muito pequena, mas com o tempo, ela vai crescer. Porém o que me chama a atenção é a conservação das instalações. Nota 10.
Assim, cheguei à Rua Conselheiro Crispiniano - tradicional reduto de todos aqueles que lidam com fotografia em São Paulo. E fui à procura do filme mais sensível que eu pudesse encontrar. O resultado foi um filme de 3200 ASA em branco-e-preto ( filme a cores mais sensível era de apenas ASA 1600). A última vez que fotografei em branco-e-preto foi na minha adolescência, pois um dos meus passatempos favoritos sempre foi a fotografia.
Naquele tempo, eu morava na casa de minha mãe, no bairro do Sumaré. Era uma casa relativamente grande e tinha, ao lado da garage, um banheirinho que media mais ou menos 1m x 1m, sem janelas e com um teto inclinado, pois acima dele passava uma escada. Na verdade o banheiro não era usado por ninguém. Então transformei o banheiro em laboratório fotográfico. Aquele minúsculo espaço foi devidamente vedado contra qualquer raio de luz, com as paredes cheias de umidade, transformou-se em uma câmara-escura, onde eu passava horas a fio revelando as imagens que colhia pela cidade.
Não que eu seja um exímio fotografo, mas sempre gostei daquilo. Na verdade a coisa começou com um amigo, quando tínhamos uns 12 anos de idade. Montamos em sua casa um laboratório, num quarto situado no meio do jardim (acho que era um apartamento para eventuais hóspedes). Começamos com imagens diversas, como paisagens, plantas, insetos, etc. Depois, descobrimos a existência de uma revista chamada "Playboy". Nos escondíamos no telhado da casa (tínhamos de escalar uma parede para chegar lá) e estudávamos minuciosamente cada detalhe daquelas imagens. Devo dizer que os exemplares mais ousados da Playboy daquela época mostravam, no máximo, os seios daquelas lindas mulheres.
Mas nós tínhamos 12 anos... Então queríamos ver mais. Assim, fotografávamos as imagens menores da revista, revelávamos os filmes e ampliávamos as imagens ao máximo possível. Chegávamos ao delírio quando conseguíamos ver alguns pêlos púbicos que a imagem original não mostrava com clareza.
Ah, se pudéssemos imaginar que um dia surgiria uma trem chamado internet e que com seu auxílio poderíamos ver TUDO!!!!!
Bem, acho que o que aconteceria é que a coisa toda perderia seu encanto. Hoje é normal ver um seio ou mesmo os detalhes anatômicos mais profundos de uma relação sexual, na internet . O que tornava aquelas imagens mágicas era o fato de serem proibidas. E quando se falava em sexo, baixava um manto de mistério, de magia. Nenhum de nós sabia absolutamente nada sobre sexo. E quando algum amigo tinha alguma experiência sexual, ele dividia com o resto da turma cada detalhe. E essa era a nossa escola sexual, pois em casa jamais se falava sobre o assunto.
Mas eu falava do filme de 3200 ASA... Com este filme, eu teria de conseguir minhas imagens. Com 3200 ASA, eu teria as nebulosas, os enxames, as galáxias e todo o universo. Voltei para casa e fiquei pensando no meu diário. Um diário não tem nenhum sentido se não puder ser lido por outras pessoas. Então decidi que era hora de colocá-lo na internet. Levei horas até conseguir, pois a linha, como sempre, caia. Conexões difíceis. Acessos negados. Problemas no servidor... Mas consegui.
À noite fomos para o sítio. Chegamos lá de madrugada.
13 de abril de 2.001
O dia seguinte, sexta-feira santa, foi devidamente acompanhado de uma bacalhoada, como reza a tradição.
À noite, fui para a beira da piscina com minha luneta, e todos os acessórios possíveis e imagináveis. Mas havia alguma coisa estranha no ar... Não demorei a perceber o que era aquela coisa estranha: o vento. O sítio do meu sogro tem um probleminha: de abril a novembro, venta. Venta muito. E eu tinha me esquecido deste pequeno detalhe.
Mas, apesar do vento, comecei a procurar por Júpiter e Saturno que, como havia visto previamente no Sky Globe, estariam presentes somente no início da noite. E após encontrá-los, pus-me a fotografá-los. Tarefa difícil, com aquele vento. Amarrei na ponta da luneta, com fita adesiva, um contrapeso, na esperança de que a luneta balançasse menos.
Além da trepidação provocada pelo vento, o peso da máquina fotográfica, acoplada ao orifício da ocular, desequilibrava o conjunto. Fiquei com medo que a máquina se desprendesse da luneta e caísse no chão e, por isso, apertei com mais força os parafusos que prendiam o adaptador da máquina à luneta. E aí surgiu um probleminha que me fez amaldiçoar o pessoal da Tasco: os parafusos estão atarraxados em partes da luneta confeccionados em plástico. Se os parafusos forem apertados demais, a rosca espana. Dito e feito: espanei as duas roscas. A máquina se desprendeu da luneta e só não caiu no chão porque, pressentindo problemas, eu havia amarrado a alça da máquina no corpo da luneta. Mas mesmo assim, ela caiu no meu colo, desmontando meus óculos antes de chegar ao fim do seu vôo.
Fiz algumas fotografias antes de a Lua nascer no horizonte e clarear demais o céu. Mas foi uma noite estranha. O pessoal não ia dormir, de modo que as luzes da casa me incomodaram. Como que um presságio, um morcego fez um vôo rasante sobre minha cabeça. E, por fim, um sapo resolveu mergulhar na piscina, fazendo o maior estardalhaço. Melhor dormir...
14 de abril de 2.001
Ajudado pelo noivo de uma prima, que veio passar o feriado conosco,resolvemos o problema das roscas enfiando pequenos pedaços de canudinhos de refrigerante nos orifícios, de modo a criar novas roscas. Funcionou. O vento, nesta noite, estava mais calmo, e pude encontrar a M-42 (minha nebulosa favorita) sem problemas. Aí tirei a ocular da luneta e, em seu lugar, coloquei a máquina fotográfica.
E quem consegue ver uma nebulosa pelo visor da máquina? O problema é que a máquina possui, em seu interior uma lâmina plástica fosca destinada a fazer com que aquilo que se vê no visor seja mais parecido com uma imagem fotográfica. Em muitas máquinas, esta lâmina é colocada apenas sob pressão, de modo que, caso se deseje, a peça possa ser facilmente retirada. Mas, é claro: a minha máquina não permite a retirada da lâmina. Então só me sobrou um recurso: localizar a nebulosa com a ocular, retirá-la, adaptar a máquina fotográfica e dispará-la. Tudo isso precedido de uma oração para que a mira estivesse correta.
O resultado será visto quando o filme for revelado. Confesso que estou ansioso.