24 de março de 2.001
Comprei um disparador de cabo para evitar a tremedeira nas fotos, e um filme de 800 ASA. E lá estou eu, novamente na beira da piscina, lutando com as nuvens que insistem em abrir o céu em flashes: ora aparece o Cruzeiro do Sul, ora aparece Órion. Mas eu sou teimoso e vou perseguindo aquelas "janelas"de céu onde se podem ver estrelas.
Vejo estrelas. Vejo nebulosas e enxames. Acho que aprendi um jeito fácil de encontrar estas formações: fico olhando para uma determinada região do céu a olho-nú. O que procuro não são estrelas, mas sim leves "borrões", como que minúsculas nuvens ou estrelas muito embaçadas. Quando encontro alguma, viro a luneta em sua direção. É infalível: sempre tem alguma coisa lá. Aí pego o atlas celeste e identifico o que encontrei. Vou fotografando tudo, desta vez com tripé e disparador. A cada fotografia, anoto todos os detalhes numa folha de papel que, com o passar das horas, vai ficando totalmente encharcada pelo sereno. Anoto o nome do objeto fotografado, o tempo de exposição, os fatores de zoom e distância. Os tempos, desta vez ficam entre 1 segundo e 15 segundos. Tiro, inclusive, uma fotografia sem a luneta: simplesmente viro a máquina para cima e aciono o disparador durante 1 minuto inteiro. Fico imaginando aquele monte de risquinhos que vão aparecer. Não vai haver erro. Serão fotografias incríveis.
Desta vez levei para a chácara um aparelho de som. Além de toda a "tralha" normalmente usada levei o som e alguns CD's. O porta-malas do carro está ficando pequeno... Coloco como música de fundo sons que julgo apropriados: Enya (Paint the sky with Stars), Loreena Mc'Kennitt, Sarah Brightman. Depois, quando cansei de fotografar, fiquei lá sentado, apenas olhando para o céu e coloquei Tchaikovsky (um concerto para violinos - D+ Op. 35).
A chácara está localizada numa das vertentes de um vale. No fundo do vale há um pequeno riacho que se origina nas nascentes da fazenda situada do outro lado do vale. De onde estou, pode-se ver o pasto da fazenda e, um pouco mais à esquerda, uma outra chácara que, infelizmente, possui um poste muito alto com uma potentíssima luz branca que me incomoda muito. Mas esta noite é mágica: deixaram a luz apagada. E eu, sentado lá olhando para o céu, começo a perceber uma lenta movimentação um pouco abaixo: primeiro chega um cachorro e se deita bem debaixo do tripé da luneta. Depois chega outro e, como quem não quer nada se deita a alguns metros do primeiro. A seguir um gato malhado se deita ao lado do aparelho de som.
Ao lado da piscina, num plano alguns metros abaixo, há uma cerca e, além dela, o nosso pasto. Noto que algo se move. Ligo a lanterna e dirijo o feixe de luz para o pasto: todas as vacas e bezerros estão lá, deitados, bem próximos à cerca, ouvindo Tchaicovsky. É mágico. Há uma paz indescritível. A brisa sopra morna pelo vale, ouve-se apenas a música suave saindo dos alto-falantes, fazendo o fundo musical para aquele céu imenso. Cria-se uma ligação entre a natureza, a Terra e o céu. Estamos em harmonia e em paz. Sinto-me bem. Feliz. Tranqüilo.
Realizo um sonho secreto: é madrugada. todos dormem. Aumento o volume no máximo e encho o vale com aqueles sons maravilhosos. A sensação é incrível. Os animais não se movem. Nenhuma luz se acende. O vale dorme e sonha. No dia seguinte o caseiro me conta que dormiu como uma criança e que aquela música era muito bonita e embalou seu sono.
26 de março de 2.001
Assim que consigo cinco minutos, entre um paciente e outro, corro até a ótica e mando revelar o filme. A balconista já me conhece e sabe que aquele rolo deve ter um monte de riquinhos apenas, e que ela deve ampliar tudo, mesmo que sejam apenas borrões, anotando no verso de cada fotografia seu número. Volto para o consultório e continuo atendendo meus pacientes. Feliz da vida, pois quando for a hora do almoço, irei buscar minhas fotografias com aquelas imagens maravilhosas de enxames abertos, fechados, nebulosas, planetas...
Meio dia e meia. Eu entro na loja e a balconista me entrega o envelope. Eu já começo a ficar preocupado: é muito fino. Pergunto quanto ficou. R$ 9,80. Aí eu não resisto: abro o envelope lá mesmo e vejo apenas umas cinco ou seis fotografias tiradas no final do filme, de pessoas. Mas, e as estrelas?
A balconista nem espera eu perguntar e já vai abrindo os negativos em cima do negatoscópio: não tem nada. ABSOLUTAMENTE NADA.
Fico olhando o negativo com toda a atenção: nada. Ou melhor, em dois negativos ha um pontinho insignificante, que correspondem exatamente às duas fotografias de estrelas que foram ampliadas.
Acredite, se quiser, mas estas
são as únicas duas fotografias que consegui: trata-se nada menos que
Júpiter...

Durante a semana, eu escaneio os negativos na esperança de encontrar algo. O máximo que consegui, foi encontrar vários grãos de poeira e, aqui e ali uma ou outra estrelinha perdida. Que decepção! E agora, como fotografar? Será impossível? Será que para obter imagens de céu serei obrigado a construir uma câmara CCD e levar para o meio do mato um microcomputador? Se for assim, vai ser impraticável.
31 de março de 2.001
Sou teimoso mesmo: comprei mais um filme de 800 ASA. E lá estou eu mais uma vez na beira da piscina. Na chácara em frente, resolveram manter as luzes apagadas. Esta noite há uma lua crescente. É uma meia lua. aponto a luneta para ela e vejo as crateras. Minha mulher hoje ficou ao meu lado e me ajudou a fotografar. Resolvemos fotografar a Lua. Quando alinho o tripé da máquina fotográfica com a luneta, fico animado: não só consigo ver as imagens da Lua pelo visor da máquina fotográfica, como percebo que, se uso a ocular de 25 mm. o fotômetro da máquina acusa que o tempo de exposição é de apenas 1 segundo.
Em poucos minutos acabamos com um filme de 36 exposições. A Lua foi fotografada em todos os detalhes, ou melhor, a "meia-lua" foi fotografada. Agora estou mais esperançoso. O fundo musical hoje inclui Vivaldi. E, novamente a bicharada veio dividir este momento conosco. Até mesmo a mais nova residente da chácara, Pedrita (uma Poodle insuportável), veio se deitar ao nosso lado.
Terminadas as fotografias, ficamos minha mulher e eu vendo a Lua se por no horizonte Oeste: a Lua foi ficando cada vez maior e começou a mudar de cor. Primeiro foi ficando amarela. Depois de um alaranjado profundo e, finalmente mergulhou no horizonte. Ficamos então vasculhando o céu escuro e encontramos uma infinidade de estrelas. São milhares. E contra o céu escuro fazem um efeito lindo. Vimos alguns meteoritos riscando o céu.
Na madrugada, com um céu imensamente lindo, a dois, com uma garrafa de vinho tinto, uma música suave, quando todos dormem, as coisas acabam ficando realmente inesquecíveis...
No fim de tudo, coloquei um CD de Canto Gregoriano e, mais uma vez, o Vale se encheu de paz. A harmonia tomou conta de nós e dos animais. Aquele cantinho da Terra se encheu de magia e as fadas e os anjos foram chegando e povoaram a natureza iluminada pelas estrelas com sua magia. No dia seguinte, eu saberia que os anjos tinham realmente estado lá, e que eles nos acompanhariam em nossa viajem até São Paulo.
1º de abril de 2.001
Fizemos, durante a manhã, uma caminhada pelo bosque da fazenda Limoeiro. Esta fazenda preservou uma parte da mata nativa e, passando por baixo de uma cerca, chegamos à floresta. Minha mulher, um pouco nervosa pela possibilidade de encontrarmos alguma cobra em nosso caminho, carregava nossa Poodle pela coleira. Por via das dúvidas levei um facão comigo. Não encontramos cobras, mas sim uma floresta maravilhosa, com centenas e centenas de espécies de plantas diferentes. Borboletas de cores incríveis. Aranhas que teciam teias enormes que iam de uma arvore a outra. Lindo. Espero que esta floresta seja preservada da ganância humana.
Antes do almoço me sentei sob o barracão, e fiquei olhando para o pasto. No aparelho de som, tocava Bach. E lá fiquei curtindo a paz. Então chega o Gustavo, filho do caseiro, sempre sorridente. Tem quatro anos de idade. Demorou a começar a falar.
"- O que ocê ta ouvindo?"
"-Bach." repondo eu, mas pronunciando apenas "Bá", só para não complicar muito a cabeça do garoto.
"Bá?"
"É, Bá."
O garoto ouve mais um pouco, coça a cabeça e diz:
"Bá, nada. Isso é BArrulho de casamento."

À tarde vi uma decepcionante corrida de fórmula I, onde nosso Rubinho Barrichello não teve grande sorte. Lá pelas seis fomos embora, seguindo nossos oito quilômetros e meio de estrada de terra, e envolvidos por uma forte ventania que prenunciava chuva. De fato, assim que saímos da estrada de terra, a chuva começou a cair. Não passamos dos 80 Km por hora. Vim bem lentamente, tomando todos os cuidados possíveis e, após uma viajem tensa, finalmente alcançamos a marginal do rio Tietê, em São Paulo. Continuava chovendo, mas bem menos.
Olhei para o rio e vi que seu nível subia perigosamente. Nestas condições, todo paulistano sabe que o lance seguinte é o rio transbordar e o trânsito parar. Portanto, e por medida de segurança, resolvi sair da pista expressa, onde os veículos trafegam a 90 Km/h e ir para pista local, onde a velocidade máxima permitida é de 70 Km/h. Estávamos a uns 40 ou 50 Km/h, no máximo, quando entrei no acesso que liga a pista expressa à pista local. Então, sem nenhum motivo, o carro começa a derrapar para a esquerda. Num impulso inconsciente, eu viro o volante para a direita. O carro roda. Roda intermináveis 360º. E eu nem percebo, pois estou preocupado que venha algum carro atrás de nós e nos atinja de lado. Tento recuperar o controle, mas o que vejo, naquela fração de segundo, é um guard-rail se aproximando à nossa frente. Eu freio. Viro a direção. Mas o carro adquiriu vida própria: ele agora faz o que quer e não toma conhecimento da minha presença e vai dar bem de frente com o guard-rail. Antes do impacto tenho tempo apenas de dizer "segura!".
Sinto o impacto. Seguro-me no volante. Ouço o som de vidros que se quebram. O carro, finalmente, para.
Meu sogro e minha mulher repetem "calma!, calma!". Mas eu estou calmo... Mas chove e o carro está bem no meio da pista. Vejo um carro sair da pista expressa e entrar pela ligação. Por um segundo acho que ele vai entrar pela porta do lado onde estão minha mulher e meu sogro, mas os anjos deram uma "mãozinha"e fizeram com que o carro conseguisse passar por trás de nós sem nos atingir.
Então, ligo o motor que havia se desligado , engato a marcha-ré, e atravesso a pista. Uma roda traseira bate na guia. E eles continuam dizendo "calma!, calma!". Ou melhor, dizendo, não: gritando. Mas eu estou calmo. Sei exatamente o que devo fazer: tirar o carro do meio da pista pois, em alguns segundos, certamente algum carro entrará pela ligação e nos atingirá em cheio. Finalmente consigo virar o carro e chegar na pista local.
Não posso parar, pois agora estou na pista da esquerda e os carros, caminhões e ônibus passam por nós a uma velocidade que me parece incrível. Uns duzentos metros à frente, consigo ir para a pista da direita e entro num posto de gasolina. Avalio os estragos. E o carro nem é meu: é da minha sogra...
Mas o carro ainda anda. Podemos prosseguir até nossa casa.
Passado o susto, vou até a janela de casa, olho para um buraquinho entre as nuvens e agradeço àquele anjo que nos protegeu. Até a próxima, amigo.
Clique aqui para ir à próxima página =>

Adriano Caló - R. Maranhão, 598 cj. 11 - 01240-000 - S.Paulo SP