18 de março de 2.006
Faz mais de um ano que não escrevo nada neste diário. Dois motivos me levaram a esta situação de abandono: o filhote e o trabalho. Acho que ninguém se interessaria por certos fatos do tipo "para trocar uma fralda é preciso deitar a criança sobre o trocador ou sobre uma cama..." ou "Cocô tá mole: procure o pediatra. Cocô tá verde: procure o pediatra imediatamente!"...E tem as febres... Isso acaba com qualquer progenitor. Viramos escravos do termômetro. E o numero maldito é o 37. Dizem os pediatras que 37 não é febre: é "estado febril". Febre é só depois de 37,8.
Tá na cara que pediatras não têm filhos. Qualquer pai que esteja encarando a segunda febre do seu filho sabe muito bem que para que um termômetro passe de 37 para 39, o tempo segue aquelas leis de Einstein, nas quais ele encolhe. Ele passa mais rápido. O tempo voa.
Já para voltar dos 39 para os 36,9 leva uma eternidade. Tá na cara que Einstein tinha filhos. E ele tinha um termômetro. E foi numa madrugada de febre alta que ele matou a charada do tempo. O tempo pode encolher ou dilatar. É só dar o bendito analgésico que o tempo dilata: cada décimo de grau que a febre diminui leva um tempo incrivelmente grande. E as horas não passam ! Numa destas, o nosso bom gênio da física devia estar com seu rebento no colo e o termômetro enfiado na axila. E ele entendeu que o tempo dilata e encolhe. Daí a escrever a teoria da relatividade foi um pulo.
Quanto ao trabalho, meu consultório mais parece um daqueles aglomerados de estrelas, onde se observam milhares de pontinhos juntos. Cada pontinho é um paciente. Coisa de louco... Mas não posso reclamar, afinal eu vivo disso e gosto do que faço. Mas a Astronomia me fazia falta. Até que consegui combinar com o Luiz de irmos até Jundiaí fazer uma observação.
O Luiz gosta de equipamentos. Adaptadores, telescópios, livros... Ele é um consumista da Astronomia. Compra e vende. Faz rolos. Troca. Desta vez tinha um Cassegrain motorizado e computadorizado. Mas tinha seu bom e velho Newtoniano. Aos que estão começando, vou revelar um segredinho: para mexer num Cassegrain, o cara tem que ser muito bom. O bichinho é tinhoso! Sensível. Cheio de frescuras.
O que rolou mesmo foi o Newtoniano de 180 mm. Ah, e é claro: as câmeras digitais.
A história da câmera digital também está ligada ao meu filhote e à sina do Dr. Adriano. A coisa é assim: existe uma lei cósmica que diz que se eu apostar um Real na Bolsa de valores, a Bolsa despenca. Se eu comprar um dólar, o dólar cai para a menor cotação dos últimos 200 anos. E se eu disser que vou para uma determinada praia, vai surgir uma nuvem de chuva apenas sobre aquele ponto do litoral do Brasil e ela só sairá de lá quando eu estiver fazendo as malas para voltar para casa.
Então estávamos muito cansados. Criança dando trabalho, o trabalho dando mais trabalho e assim eu resolvi me conceder dez dias de férias no Guarujá. Primeiro dia: pegamos a estrada com um sol de rachar côco. Já na serra começou aquela neblina sem razão de ser. Na balsa chovia torrencialmente. E no apartamento havia uma garoa que durou dias seguidos sem trégua. Para o baby, ir para a praia, significa ficar fechado dentro de um apartamento vendo a chuva cair sobre o mar. Mar é um monte de água com mais água que cai do céu cinza.
Então, após uns três dias enclausurados, resolvemos ir passear em Santos. E descobrimos um enorme shopping muito bonito, onde pudemos nos refugiar e deixar o baby correr um pouco. E aí aparece esta vitrine com uma câmera digital.
Câmera digital é o fim da fotografia. A graça da fotografia está justamente em se fazer o clic e só ficar sabendo o que realmente se registrou alguns dias depois, na loja de revelação. Mas o que nós gastamos em fotografias do nenê, dava para ter comprado um container de máquinas digitais.
Assim, pensando no futuro das minhas economias, comprei a tal máquina. E foi uma das decisões mais certas que tomei na vida. Hoje não gasto nada com revelação: compro um CD por um Real, gravo as centenas de imagens que faço, e ainda coloco um fundo musical. Depois coloco o CD no aparelho de DVD da sala, sento o baby no sofá, e tenho alguns longos momentos de paz: ele adora ver estas fotos.
Já conhece o coteúdo de todos os CD´s de cor.
E assim, ao ir para Jundiaí, levei minha maquina. É uma Sony. E isso é muito importante, pois todo mundo tem uma Sony. E a vantagem é que todo mundo sabe mexer nelas, pois todas elas funcionam exatamente da mesma forma, independente do modelo escolhido.
Para minha surpresa, o Luiz também tem uma Sony. E ele me passou todas as dicas de como operar a tal máquina manualmente pois, até então, eu colocava no automático e a máquina fazia o resto. Acontece que o tempo passa também para mim. Uma conseqüência disso é que, pela primeira vez na vida, comprei um equipamento eletrônico e NÃO li o manual.
Além disso, o Luiz comprou um suporte que permite fotografar pela ocular do telescópio com qualquer máquina digital. A imagem do tal suporte está abaixo:
Como se pode notar, ele é fabricado pela ORION, e é um apetrecho bastante simples. Comprado pela internet ele custa por volta de R$ 150,00.
E assim, fazer fotografias com uma máquina digital, começa a ser uma tarefa bem mais simples do que possa parecer.
Nas imagens abaixo, o equipamento sendo operado por nós:
É muito cômodo: a gente não precisa ficar dobrado em posições esdrúxulas e comprometedoras: a imagem que vai sair na fotografia final está ali na telinha da máquina fotográfica e é só fazer clic.
Pelo que pude concluir da nossa primeira observação, este sistema não serve para fotografar imagens do céu profundo como aglomerados e nebulosas, mas cheguei a ver um dos satélites de Júpiter na telinha da máquina. Para planetas maiores e para a Lua, os resultados (do ponto de vista de um amador sem prática) são muito bons. A seguir as imagens de Saturno, em sua forma original (sem nenhum tipo de tratamento):
Com a ajuda do software AstroStack:
Imagens de Júpiter (sem tratamento):
A Lua que estava num começo de minguante também forneceu algumas imagens boas:
E assim foi meu retorno à Astronomia. Não sei quando será o próximo capítulo desta estória. Em princípio deveria ser no próximo final de semana, no sítio. Isso se não chover, se o Baby não ficar com febre, se o caseiro novo já tiver se instalado, se... Ah!, são tantos "ses" que acho melhor não ficar fazendo previsões. Um dia eu volto. Até lá!