27 de julho de 2.004
Ser um profissional autônomo é uma benção. Mas também é uma desgraça. Vejam meu caso: não tenho patrão para ficar me aporrinhando a paciência com pequenos detalhes irritantes. Mas, por outro lado, como meu próprio patrão, exijo o máximo de mim mesmo e daqueles que trabalham comigo. Me cobro (e cobro deles) cada ínfimo detalhe, como a verificação metódica da higiene do consultório.
Sim, isso é óbvio. Um consultório sem higiene é um crime. Um absurdo! Mas eu chego a verificar uma por uma todas aquelas plaquinhas de cada uma das dez persianas horizontais do consultório para verificar a presença de poeira.
Não vou falar em esterilização do instrumental, nem do processo todo que implantei em meu consultório para evitar a famosa "infecção cruzada" (que seria a transmissão de microorganismos entre pacientes). Mas eu verifico pessoalmente o filtro do ar-condicionado. E vejo se o reservatório do aspirador-de-pó está bem limpo.
As canetas tem que escrever. Caneta sem tinta é irritante. O papel da impressora que foi usado de um lado só, deve ser recortado em quadradinhos para servir de rascunho (o motivo não é econômico, mas sim ligado à ecologia: cada folha de papel representa um pedaço de uma árvore que teve de ser derrubada).
A contabilidade é feita por mim mesmo: nunca consegui que um contador tivesse anotações tão precisas e organizadas como eu desejo. Portanto, assumi a tarefa. O mesmo se aplica à minha declaração de renda.
Os controles bancários beiram a insanidade: minha conta-corrente é rigorosamente planilhada. Esta planilha tem mais de dez mil linhas. Cada centavo que gastei desde 1994 está registrado nela. Cada centavo que entrou ou saiu da minha conta foi conferido e reconferido. Tudo traduzido em gráficos, no final.
Tento controlar todos os detalhes, como o estoque de material (inadmissível faltar um material que seja num consultório), a atualização constante destes materiais (a cada dia surgem marcas novas, materiais novos, técnicas novas - muitos dos quais simplesmente são um engodo comercial). Verifico se não há lâmpadas queimadas, se a pintura das paredes está em dia, se os manômetros de ar comprimido mostram as pressões corretas... Nossa... são tantos detalhes... E o meu patrão é tão chato! Tão exigente!
Daí que tirar férias é um parto. Sempre tem um paciente cujo tratamento não pode ser interrompido naquele momento. Sempre tem um curso, um congresso... Nunca é o momento certo para se tirar férias.
Então quem decide é a minha secretária: ela comunica que marcou uma viajem para tal dia. Eu respiro fundo. Tento manter a calma. Aí penso que devo uns quinhentos dias de férias a ela. Depois penso que afinal, eu também preciso de férias. Minha família precisa mudar de ares.
E assim, tirei férias. Mas férias de verdade. Férias longas. Para esquecer da vida.
Dez dias seguidos!
Mas tem um problema: viajar com um bebê de quatro meses é... indescritível! Considerei a hipótese de vender meu carro e comprar um caminhão. Desisti ao ser informado que minha carteira de motorista não me permite dirigir um caminhão.
Mas um caminhão seria o veículo adequado para se ir viajar com uma criança pequena e seus pertences. Ou melhor, com seu mundo. Mundo este que inclui uma quantidade insana de fraldas, roupinhas que vão por baixo, pelo meio e por cima. Mamadeiras, latas de leite (mesmo a mãe produzindo mais leite que uma vaca leiteira da fazenda Limoeiro), talquinho, pomadinha, chupeta, mordedor, brinquedinho, e tantos "inhos" que meu provedor não permitiria um elenco completo, por falta de espaço.
E assim, lá fomos nós para o sítio. Sim: o sítio é o local mais adequado, pois já levei para lá uma boa parte dos itens necessários ao baby, numa viajem anterior. E além disso é o lugar "conhecido".
Engraçado este fenômeno que nos atinge com o passar dos anos: passamos, lentamente, e sem que possamos perceber, a nos sentir incomodados com o desconhecido.
Evitamos dirigir em bairros desconhecidos. Evitamos ir a lugares onde só haja pessoas desconhecidas. Nada de países de língua desconhecida. Nada de restaurantes desconhecidos. E assim, passamos a perder uma das coisas mais maravilhosas da vida: a descoberta. A exploração do mundo.
Acho que é por isso que a gente acaba sendo amigo do garçom: afinal acaba-se indo sempre ao mesmo restaurante...
Mas, seja lá por quais motivos, a escolha recaiu sobre o sítio. A viajem foi boa. Os preparativos levaram muitas horas. Colocar tudo dentro do carro foi uma tarefa digna de engenheiro da FIAT (vocês já repararam como os modelos da FIAT aproveitam cada centímetro de carro disponível?). Tudo super planejado. Cada detalhe pensado e discutido à exaustão. Afinal, uma coisa é um casal viajar sozinho, e outra bem diferente é se viajar com um bebê. Tudo deve ser estudado e previsto.
O dia começou cedo. Mas só conseguimos chegar ao sítio pouco antes do pôr-do-sol. E aí, finalmente eu pude dar aquele suspiro aliviado do viajante que chega ao seu destino, após uma longa jornada. E eu realmente estava aliviado: tudo fora perfeitamente planejado.
Anoiteceu. O Baby dormiu facilmente. Talvez o frio. Talvez o silêncio. Mas foi muito fácil. Então pensei no que fazer a seguir para passar o tempo numa noite cheia de estrelas. O telescópio era a resposta.
Eu realmente sou um sujeito muito organizado: todas as minhas oculares, as Barlows (que eu não uso), a pequena lanterna para ver as cartas celestes e outros pequenos acessórios ficam cuidadosamente guardados numa caixa. Cadê a caixa?
Em São Paulo!
Esqueci de pegar a bendita caixa! Como pude? Logo eu, um cara tão organizado, que fica vendo os detalhes da poeira das lâminas da cortina...
Bem, deve haver alguma outra coisa para se fazer à noite num sítio. Ah! Um livro!
Esqueci de trazer um livro.
Mas tudo foi facilmente resolvido: mais dez quilômetros de estrada de terra, mais setenta de asfalto, mais uns não sei quantos de marginal e, umas duas horas depois lá estava eu, novamente, em casa, onde recuperei a caixa das oculares.
De casa fui até o shopping, numa livraria, onde comprei meu "livro de férias". E de lá, só mais alguns quilômetros de marginal, depois a Castelo Branco, depois a estrada de terra e, enfim, o sítio.
Mas estava tão cansado, após os 250 Km dirigidos naquele dia, percorridos em cinco horas, que acabei concluindo que a melhor coisa, realmente, era ir dormir.
O dia seguinte foi passado num ritmo realmente de férias: não fiz nada. Andei por aí. Fui mostrar ao Baby o pé de Pau-Brasil que plantei anos atrás, quando a muda não tinha mais de 20 cm de altura: hoje ele já tem mais de dois metros e sobreviveu às saúvas que tentaram acabar com ele. A tática foi amarrar uma tira de plástico perto da base do tronco e lambuzá-la de graxa. Expliquei ao garotão que as saúvas simplesmente não conseguem transpor a barreira de graxa. O Baby olhava tudo, através dos seus imensos olhos azuis, com extremo interesse. Mas não falou muito. Talvez porque ainda não tenha aprendido a falar o português, ainda...
Durante o dia comecei a ler meu "livro de férias": "O Mistério de Marte - A conexão secreta entre a Terra e o Planeta Vermelho". Os autores são Graham Hancock, Robert Bauval e John Grisby.
Na noite anterior, percorrendo as estantes da livraria do shopping, fiquei indeciso entre um romance sobre Tróia e este livro sobre Marte. Acho que devia ter ficado com Tróia.
O livro é uma bagunça. Ele pressupõe que eu saiba muito sobre Marte. Não há, nele, um mapa do planeta. Não há uma descrição de Marte, como eu esperava que houvesse. As fotografias estão todas agrupadas na parte central do livro. Se estivessem colocadas no meio dos assuntos específicos, sua leitura seria muito mais agradável e fácil.
Mas, a verdade é que fizeram uma economia de fotografias e ilustrações que simplesmente é inadmissível num livro que se propõe a tratar de algum aspecto da astronomia. Mas, o pior de tudo é uma certa teoria conspiratória; uma certa mania de perseguição, que os autores deixam claramente transparecer com relação ao tema do livro e a NASA. Segundo eles, a NASA boicota e manipula as informações. E, para convencer o leitor disso, usam e abusam de argumentos infindáveis, que chegam a ser mais irritantes que procurar poeira nas lâminas da persiana do consultório.
Sim, não duvido que a NASA manipule as informações. Mas a forma pela qual isso é colocado, é insistente demais. Os argumentos, em certos casos beiram o ridículo.
O tema central é uma formação geológica de Marte, denominada de "a Face" que, segundo os autores não é uma simples formação geológica, mas sim algo construído por alguma forma inteligente de vida. Abaixo algumas imagens da dita-cuja:
Este é o fotograma 35 A 72 original enviado pela Viking em 1972, onde
aparece a formação denominada "A Face"
Sim, devo concordar que a estrutura realmente parece com uma face humana. Esta fotografia sofreu inúmeros tratamentos por computador e deste processo surgiram outras imagens:
Outras estruturas são analisadas, como a "Pirâmide D & M" que tem uma altura de, aproximadamente, 1,250 metros:
Trata-se de uma pirâmide de cinco lados que os autores do livro garantem ser uma construção levada a cabo por seres inteligentes e não mera formação geológica decorrente de processos naturais.
O Livro é de 1988. A versão brasileira é de 2.004.
No site da NASA, a imagem mais recente que pude encontrar da Face é de 1988 e foi registrada pelo projeto "Mars Global Surveyor" :

Não quero apresentar minhas conclusões pois, certamente, não possuo preparo técnico suficiente para analisar o assunto. Deixo aos interessados a missão de pesquisar e chegar às suas próprias conclusões. Minha pergunta, entretanto, refere-se ao nosso bom e velho Telescópio Hubble: Será que ninguém lembrou de virar o bichinho para Marte e fazer umas fotos com um pouco mais de resolução? Eu não encontrei nada no site da NASA.
Mas, como conclusão, posso dizer que não recomendo o livro. Talvez a histórica Tróia tivesse sido mais divertida...