10 de junho de 2.004

Nossa, quantas reclamações... Foi só eu dar uma paradinha e deixar de escrever um tempinho, que as pessoas caíram matando! Pôxa, gente... calma! Criança nova em casa, sabe como é...

Bom, o filhotinho é gente boa. De bem com a vida. Tanquilinho. Com ele não tem tempo ruim. É só mamar e nanar. E, é claro, xixí e cocô... Mas logo entendeu o poder de um sorriso. Para quem quiser ver, aí está a cara do nosso novo amiguinho:

É... o garoto gosta de um som... Ele gosta de cantar às três da manhã... Mas minha mulher tem sido compreensiva e eu fui dispensado dos meus deveres de pai durante a noite. Realmente não tenho do que reclamar.

Assistir ao nascimento de uma criança é uma das experiências mais belas que uma pessoa possa viver. Devido à minha profissão, os atos cirúrgicos dificilmente me incomodam. O sangue, os órgãos, os tecidos... tudo isso já não mexe muito comigo. Assim, durante o parto, eu pude curtir o nascimento do meu novo filhote, sem ser afetado pelo ambiente cirúrgico. Apesar de não ser uma experiência nova para mim, pois já passei por dois deles - e ambos foram altissimamente emocionantes - um nascimento é uma experiência mágica.

A gente sabe que o baby já está vivo há muito tempo, na barriga da mãe. A gente vê ele colocar o dedo na boca durante o ultra-som. Mas quando ele nasce e inspira o ar pela primeira vez... é esse o momento em que ocorre o milagre da vida. Digam o que quiserem mas, para mim, o momento é esse. É aqui que começa a vida em seu sentido mais estrito. No instante em que a criança chora e fica toda vermelha, como se estivesse zangada por termos interrompido sua tranqüilidade intra-uterina, a gente percebe que, naquele exato momento, passou a existir mais uma pessoa no nosso planeta.

No centro cirúrgico, olhando para aquele serzinho que lutava para viver até o minuto seguinte, eu me lembro de ter pensado que aquele era o inicio de uma história. Uma pessoa. Que iria crescer, deixar seus pais extasiados a cada sorriso, sujar um monte de fraldas, tirar o sono dos pais e vizinhos...Depois estudar, aprender a ler, entender o funcionamento das coisas, fazer amigos, se apaixonar, aprender a dirigir, tomar seu primeiro fora. Seu primeiro fogo. Aprender a lidar com as pessoas. Com a vida. E, quem sabe, perguntar "que estrela é aquela?" a um pai orgulhoso.

E eu, como pai, tenho o dever de estar ali, ao seu lado, tentando ajudar, mostrando os caminhos, dando conselhos, provendo o que for necessário. Que responsabilidade! É claro que não poderei fazer tudo. Mas tentarei. Como venho tentando fazer pelos dois outros filhotes.

Assim, tive de ficar longe do sítio por um longo período. E, é claro, longe do meu diário, pois não tinha nada para contar. Mas finalmente criamos coragem e fomos para o sítio. A viajem, devido ao volume de coisas a serem transportadas para lá (nossa, como um baby precisa de coisas!) foi meio que tumultuada. Mas chegamos bem.

Na primeira noite, nuvens. No dia seguinte, nuvens. Mas, apesar das nuvens, aproveitei o dia para colimar o telescópio. Desmontei o pobre coitado inteirinho. Sim, ele está parecendo um pobre coitado, pois a pintura arranhou toda. O espelho primário estava começando a criar uma manchinha de fungos. Então desmonte e coloquei no Sol. Limpei tudo, e aproveitei para alinhar os espelhos.

Como colimar meu telescópio? Não tinha nenhum texto por lá para me orientar. Mas criei coragem e comecei. Primeiro tirei o espelho primário fora, junto com todo o seu suporte. Depois, medi, com uma linha de pesca o diâmetro externo do tubo. E cortei a linha do tamanho exato deste diâmetro externo.

 Aí dobrei a linha em quatro partes exatamente iguais e peguei uma destas quatro partes para me servir de medida.

      

A seguir peguei um fio de lã (minha mulher está tricotando um casaquinho vermelho para o bebê) e fixei, com fita adesiva, num ponto qualquer da boca do tubo (em sua parte externa).

Aí peguei um segundo fio de lã e fixei em outro ponto do tubo. Que ponto é este? é um ponto distante exatamente 1/4 do diâmetro do tubo. Ou seja, exatamente à distância de um daqueles 4 fiozinhos de pesca.

   

Então medi mais 1/4 do tubo com o fio de pesca cortado em 4 e fixei a segunda ponta do primeiro fio de lã:

  

Medi, então, mais 1/4 de tubo com o fio de pesca e fixei a segunda ponta do segundo fio de lã vermelha:

  

Pronto: a boca do tubo (onde estava o suporte do espelho primário) estava dividida em 4 partes perfeitamente iguais.

A seguir, cortei um cano de PVC marrom (de água) com uns 60 cm. de comprimento e encaixei na porta-oculares. Colocando este "prolongamento" a área visível do espelho secundário fica bem menor, e é bem mais fácil verificar se as imagens estão centralizadas.

Pude observar pelo cano, a imagem dos fios vermelhos refletida no espelho secundário. Mas notei que o centro da cruz formada pela intersecção dos 2 fios vermelhos não estava exatamente no centro da imagem que eu observava pelo tubo de PVC.

Então soltei levemente os parafusos que prendem o espelho secundário e fui posicionando este espelho até que a cruz vermelha estivesse exatamente no centro da imagem que eu observava no tubo de PVC. Pronto: o espelho secundário estava alinhado.

Retirei todos os fios da boca do tubo e recoloquei o espelho primário. Aí notei, olhando pelo tubo de PVC, que eu via o reflexo do meu olho dentro de um círculo (o tubo de PVC).  Mas eu notava que se via uma parte preta numa das bordas: era uma parte do interior do tubo do telescópio. Então fui ajustando as 3 borboletas que regulam o espelho primário até que a imagem circular do tubo de PVC e do meu olho estivessem perfeitamente centralizadas. Pronto: o telescópio deveria estar colimado.

O teste foi feito ali, naquela mesma hora. Acontece que um amigo me arrumou um pedaço de filtro de Baader. Este filtro, destinado à observação do Sol, que eu saiba,  só é vendido no exterior. Nos Estados Unidos é relativamente fácil encontrar. Sei que se pode comprar pela internet. Basta procurar por "Baader" nos mecanismos de busca, como o Google ou o Yahoo e se encontra quem o venda pelo correio. Algumas informações podem ser obtidas em http://www.baader-planetarium.com/sofifolie/sofi_start_e.htm . Uma folha de 29x20cm custa Us$ 20,00.

Este filtro parece uma folha de plástico, bem fina, e metalizada dos dois lados. É muito sensível a arranhões. As impressões digitais também deixam suas marcas sobre a folha. Foi desenvolvido por Thomas Baader da Baader Planetarium (Alemanha) http://www.astro-physics.com/index.htm?products/accessories/baader/baader_history .

Esta folha pode ser recortada e adaptada tanto na frente do tubo (como eu fiz) como na própria ocular. Para fazer esta adaptação, qualquer caminho que sua imaginação consiga trilhar é válido. Porém, seja qual for seu projeto, lembre-se que ele deverá estar fixo sobre seu telescópio de maneira bem firme, pois se ele escapar (mesmo que por apenas um cursto instante) durante a observação solar, seja pela força do vento ou um esbarrão acidental, você corre o risco de ficar permanentemente cego. Da mesma forma, a buscadora não poderá ser usada em hipótese alguma. E é bom lembrar que a pessoa que disponibiliza um telescópio é responsável por ele e pelos danos que este venha a causar nos olhos de amigos, parentes, vizinhos, etc.

Eu não dispunha, no sítio, de muitos recursos para fazer um suporte para o Baader. Assim, antes de fazer um projeto, saí à procura de materiais que pudessem ser usados. E logo foi fácil perceber que a base de tudo seria uma caixa de papelão sapatos abandonada na oficina. Um pouco de cola e fita isolante ajudaram a viabilizar meu precário projeto de filtro solar.

O resultado pode ser observado abaixo:

 

Para localizar o Sol, visto que não se pode olhar diretamente pela buscadora (a menos que esta esteja revestida por um pedaço de filtro Baader), posiciona-se o tubo pela sombra que ele projeta no chão. Pode-se, inda, colocar a mão na frente da buscadora e mover o tubo lentamente até que a luz do Sol que atravesse a buscadora e apareça na palma da mão.

Observar o Sol, à primeira vista, pode parecer uma coisa meio sem graça. Mas se pensarmos que o Sol é uma estrela, igualzinha àquelas que vemos durante a noite como pequenos pontinhos azulados, a coisa pode ficar bem mais interessante.

Falemos um pouco sobre o Sol. Como dissemos, o Sol é uma estrela. Ela dista da Terra 149.000.000 Km, em média. Sua luz leva aproximadamente oito minutos para nos atingir.  Portanto o Sol está a oito minutos-luz da Terra. Já a estrela mais próxima (além do Sol, é claro), é a Próxima Centauri, que dista quatro anos-luz de nós.

Sua superfície assemelha-se a um fluido em ebulição. Com a diferença que as bolhas não são de água, mas sim de fogo. Cada bolha destas tem muitos quilômetros de altura. A temperatura da superfície gira em torno de 5.000 graus. Mas existem áreas menos quentes, que aparecem mais escuras: são as chamadas "manchas solares", que podem ser observadas até mesmo sem telescópios, apenas com o uso de filtros.

Estas manchas estão em regiões mais baixas (ou profundas) da atmosfera solar. Freqüentemente aparecem em duplas, com polaridades magnéticas opostas. Estas características magnéticas, que passam de um valor máximo para um valor mínimo, num período de aproximadamente onze anos. É um ciclo que se repete. Neste ciclo, observa-se que a latitude destas manchas vai se alterando. Bem como sua polaridade.

Não se sabe exatamente como estas manchas influenciam a vida na Terra, mas sabe-se, por exemplo, que nos períodos em que as manchas solares são mais numerosas e maiores, as recepções de rádio de longa distância são melhores na Terra.

O Sol emite para o espaço verdadeiras "linguas de fogo". São as chamadas protuberâncias, que podem chegar a medir 40.000 Km de altura.

Ao seu redor orbitam os nove planetas do sistema solar. Seu diâmetro é de 1.400.000 Km, enquanto que o da Terra é de 12.700 Km. Ou seja, uma enorme bola de fogo (se bem que o Sol é considerado como uma estrela pequena) composta de gases (basicamente Hidrogênio e Hélio - mas existem, em pequenas quantidades, inúmeros outros átomos de outras substâncias). Cada metro quadrado da superfície terrestre recebe uma quantidade de energia solar equivalente a 1.000 watts sob a forma de luz e calor.

Ele existe há uns 5 bilhões de anos. Mas, de onde vem o fogo? Acontece que, milhares de quilômetros abaixo de sua superfície, acontecem reações nucleares, a temperaturas de milhões de graus, que transformam Hidrogênio em Hélio, liberando imensas quantidades de energia. A cada segundo Sol perde 5 milhões de toneladas de sua massa, devido a estas reações nucleares.

Estas reações nucleares ocorrem no centro do Sol, onde a energia é liberada sob forma de raios Gama e Raios X. No seu percurso até a superfície solar, estes raios vão se transformando em luz e calor. Este percurso pode levar até 10 milhões de anos para ocorrer. E no fim, esta energia é expulsa para o espaço, sendo que uma pequena parte dela é emitida sob a forma de neutrinos e como energia cinética e térmica do vento solar. As bombas nucleares de Hidrogênio reproduzem este mecanismo.

Assim, um dia, o Hidrogênio vai acabar sendo todinho ele transformado em Hélio. E então, o que acontecerá? O Sol se apagará? Não! Neste ponto os núcleos do Hélio começarão a se fundir, liberando calor.

E quando o Hélio terminar? Bem, aí o Sol se transformará numa estrela variável (aquelas que ficam mudando seu brilho o tempo todo) e nunca encontrará uma situação de estabilidade. A vida na Terra, é claro, já terá deixado de existir há muito tempo.

Neste ponto o Sol terá atingido dimensões gigantescas e terá engolido a Terra e voltará a diminuir de tamanho e começará a pulsar. No fim, o Sol parecerá explodir, emitindo muita luz e lançará ao espaço uma parte da sua atmosfera. O restante da sua matéria, devido à sua gravidade, colapsará no seu centro, fazendo com que a estrela fique luminosíssima.

Neste ponto, seu volume será um milhão de vezes menor que seu volume atual. Mas não temos muito o que nos preocupar. Ao que parece, nossa estrela ainda tem combustível para mais uns cinco bilhões de anos.

A matéria do Sol está sob a forma de plasma. Assim, diversas partes do Sol giram a velocidades diferentes. Isto leva a alterações constantes do campo magnético do Sol. Ou seja, no Sol, uma bússola iria mudando rapidamente a direção do norte.

Mas, voltando ao meu Baader. Fiz umas poucas fotografias dele (tinha pouco filme na máquina: minha mulher tirou milhões de fotos do baby) . As fotos do Sol saíram péssimas. Mas pode-se ver uma manchinha solar: Na foto abaixo, o risco horizontal é apenas um defeito da fotografia. Mas, abaixo dele, aparece uma mancha solar.

Duas ampliações destas manchas:

                          

Pelo telescópio eu podia observar estas manchas com uma qualidade excelente. Pareciam círculos concêntricos pretos, sobre o fundo branco. Algumas destas manchas eram circulares, outras em forma de 8 deitado.

Assim foi meu regresso à Astronomia: iluminado. Ver o Sol é tão emocionante quanto ver uma nebulosa. E é muito mais fácil e cômodo. Não faz frio. Se estiver quente demais é só cair na piscina. Geralmente perto da hora do almoço não venta. É facílimo de achar. E fotografá-lo, é uma barbada. Ok: minhas fotos são bem pobrezinhas, mas digamos, em minha defesa, que foram as primeiras com um filtro Baader.

Informações colhidas nos sites http://www.astrofilitrentini.it/attiv/lavori/eclsol05.html , http://www.castfvg.it/sistsola/sole/ilsole.htm , http://www.astrosurf.com/cosmoweb/sistemasolare/sole.html

Especial agradecimento ao amigo Paulo por ter me presenteado com um pedaço de seu filtro.

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