26 de dezembro de 2.003
Mulher grávida é um problema... Vomita, dói aqui, dói ali, fica inchada, chora o tempo todo, tem medo, fica ansiosa, tem umas vontades estranhas nos horários mais improváveis...
Mas a minha mulher grávida é diferente: seu único sintoma é um apetite de leão que já lhe rendeu bem uns 10 kg. a mais...Tirando isso, e uma barriga imensa, é como se nada tivesse acontecido.
Mas deixamos de ir ao sítio. Em parte pela estrada de terra totalmente esburacada que poderia trazer problemas à futura mamãe e ao bebê, e em parte, por medo das doenças trazidas por todos os animais que a povoam. E, ainda, segundo os relatos do meu sogro (que esteve por lá recentemente), para não ter de enfrentar os problemas com a caseira que, num primeiro momento prometia a paz celestial. Mas de uns tempos para cá parece ter mudado de rumo e começado a criar problemas. E se tem uma coisa da qual estou fugindo nestes meus quinze dias de férias de final de ano, esta coisa se chama "problema". Assim, cá estamos passando as festas em São Paulo.
O céu anda nublado a tanto tempo que a astronomia deve ter deixado de existir. Pelo menos a Astronomia prática.
Mas esta minha temporada caseira (que deveria ser destinada apenas ao ócio), se transformou numa infinidade de compromissos: formaturas, festas, compras, médicos, exames pré-natais, e - o mais trabalhoso de todos os compromissos - a montagem de um quarto de bebê.
Que tragédia! Que coisa mais trabalhosa! Quantos detalhes! Levei minha primeira semana de férias inteirinha sendo obrigado a trabalhos forçados, sob o jugo feroz de uma mulher grávida. Ah, um conselho aos leitores do sexo masculino: nunca, mas NUNCA mesmo, contrariem uma mulher grávida! A relação custo-benefício não vale à pena.
Mas ontem à noite, bem tarde, após uma jornada exaustiva de reformas domésticas, me dei ao luxo de sentar no sofá e ligar a televisão. Como de hábito, comecei a surfar por todos os canais que os cabos da TV Net conseguem suportar. E fui parar na RAI (o canal italiano), onde havia um programa interessantíssimo (Voyager), cujo tema da noite eram as pirâmides do Egito.
Já que não tenho assuntos práticos par discorrer, dado este exílio doméstico a que me submeti, apelo para a teoria, inspirado pelo Voyager (que, por sinal, tem um site: www.voyager.rai.it ). Portanto falemos de pirâmides. E de estrelas, é claro.
As pirâmides a que se referiu o programa situam-se no Egito. Isso me lembra das aulas de história que tive no ginásio. Era um sistema de ensino realmente absurdo (e eu espero que tenha mudado): o professor de história tinha um carinho todo especial por mim - tanto que já no primeiro dia de aula de cada semestre, já se sabia que eu iria passar pela recuperação, pelo conselho de classe e pela segunda época antes de ser liberado a cursar o semestre seguinte.
Seu nome era Thomé. Foi Pracinha da FEB - lutou em Monte Cassino, na Italia. E trazia suas cicatrizes internas destas batalhas. O fato, enfim, é que o prof. Thomé, por quem eu nutria uma "simpatia" toda especial, tinha um sistema didático muito peculiar: entrava na sala de aula - sempre com um cigarro aceso na boca, e as pontas dos dedos amarelos por causa do tabaco - sentava-se e começava a ditar uma longa pergunta. Nós, os alunos, escrevíamos furiosamente o tempo todo. Ditada a pergunta, meu amigo Thomé passava a ditar a resposta. Uma longa resposta, numa linguagem incompreensível. E assim passavam-se os 50 minutos de aula: pergunta, resposta. Nova pergunta. Nova resposta.
A idéia era que assim que chegássemos em casa, passássemos a limpo aquele imenso ditado num caderno de capa-dura de 200 folhas. Cada pergunta era numerada. O semestre iniciava-se na pergunta número 1 e terminava lá pela 600. E aí era só decorar. Pois, nas provas, a resposta deveria ser idêntica à do caderno.
Mencionei o Prof. Thomé pois lembei-me, ao assistir ao "Voyager", de uma pergunta cuja resposta mencionava as pirâmides de Queops, Quéfrem e Miquerino. Mas, naquele contexto, o que importava era saber a resposta à pergunta da prova. O entendimento do assunto, era mero detalhe.
Mas creio que este era um sistema considerado válido pelos educadores daquele tempo, pois havia um outro professor, de matemática, cujo nome era Vicente, que também era adepto do sistema de caderno de perguntas e respostas. A única diferença é que a solução dos problemas propostos era escrita na lousa. Aqui, também, ao final do semestre o caderno "pergunta-resposta" deveria ser entregue ao professor para a devida avaliação.
Serei sincero: eu nunca passei a limpo os problemas do dia no caderno de capa-dura: esta tarefa sempre foi feita no último dia, assim... digamos... "em lote". E, naquele ano não foi diferente: comecei cedo o longo exercício de cópia. E terminei tarde da noite.
Ao terminar, deixei o caderno sobre a mesa e fui dormir. Mas no meio da noite...
Tínhamos uma cadela chamada "Samba". Uma pequinesa. Creio que em Pequim (os pequineses vem de Pequim, não?), os cães tenham um profundo interesse pela matemática, pois durante a noite, a Samba resolveu estudar matemática.
Na manhã seguinte, ao acordar vi, horrorizado, meu caderno de 200 páginas todo rasgado e babado: o raio do cachorro tinha resolvido se deliciar com minhas equações do segundo grau e estraçalhou o tal caderno.
Que fazer? Ah, sim: a honestidade. Esta seria a minha defesa frente ao professor Vicente. E assim, coloquei, segurando pelas pontas dos dedos, os restos babados do caderno num saco plástico, e fechei-o com todo o cuidado.
No caminho da escola, fui me convencendo que o professor iria entender minha triste situação e que, na pior das hipóteses, me daria um prazo extra para apresentar um novo caderno. Havia a prova material da minha defesa. E ela estava dentro daquele saco plástico.
O procedimento era sempre o mesmo, a cada semestre: o professor entrava, pegava a lista de presença e falava o nome de cada aluno. Este, por sua vez levantava-se e levava o caderno até a mesa do professor e lá mesmo, naquela mesma hora, o professor folheava o caderno e deva a nota.
Nos anos de sorte eu era o número 2. Mas nos outros, eu era o numero 1. Como naquele malfadado ano.
"Numero 1. Adriano Caló" disse o professor com cara de tédio. Minhas pernas tremiam. Meu coração batia uns 500 batimentos por minuto. Um enfarto seria ótimo para mim, naquele momento. Levantei e tentei lembrar da minha infalível defesa.
Levei o saco plástico (já bastante embaçado - acho que a saliva do cachorro começou a evaporar dentro do saco e a se condensar em suas paredes) até a mesa. Estiquei o braço, segurando o saco. O olhar do professor não prenunciava um final feliz. Expliquei o que acontecera. Me prontifiquei a fazer um novo caderno num prazo record.
O professor olhou bem fundo nos meus olhos e disse apenas: "zero". Neste dia aprendi o significado da palavra ódio.
Mas eu estava falando do programa Voyager, que se referia à pirâmide de Gizé.
Perdoem-me aqueles que dominam a geografia terrestre, mas acho que vale lembrar que Gizé é o nome de uma cidade do Egito. O Egito, como sabemos está situado no nordeste do continente Africano:

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Mapa com a divisão política do território Africano. O Egito está assinalado em vermelho. Aqui cabe um parêntesis: Notem que mais ao sul do Egito, encontra-se um país chamado Etiópia, cuja capital é Adis-Abeba. Este era o local do emprego do meu avô materno: ele era representante do governo Italiano naquele país que, naqueles tempos (pouco antes da segunda guerra mundial) era uma possessão italiana. Grandes histórias sobre sua estada naquela região - que incluíram casos interessantes como o daquele revolver com o qual ele fez toda a guerra, e que era a sua garantia de vida. Não fosse o pequeno detalhe do meu avô ter percebido, ao término da guerra, que a arma estava sem balas durante todos aqueles anos... |
O Egito, visto do espaço possui uma característica inconfundível, seja de dia que de noite: o Rio Nilo. De dia aparece como uma linha verde que corre pelo sentido norte-sul. Mas, mesmo à noite, ele é facilmente visível pois as luzes das cidades que o margeiam fazem-nos perceber como a presença deste rio é fundamental para a vida humana na região. É fácil notar que só existem cidades mais iluminadas - portanto maiores - apenas ao longo do Nilo, naquela região
.
Fotografia de satélite, mostrando o Rio Nilo de dia, que deságua no mar -ao norte - num "delta" (assim chamado pois a foz deste rio é triangular - o que lembra a letra grega Delta que se assemelha a um triângulo-)

Fotografia de satélite mostrando o norte da África, onde pode-se notar as luzes das cidades que margeiam o rio Nilo. No canto superior esquerdo pode-se visualizar a Espanha e, um pouco mais à direita, a Itália - com sua característica forma de bota
A capital do Egito é a cidade do Cairo mas, o que nos interessa, no momento, é a cidade de Gizé ou, como ela é conhecida por aquelas bandas, Giza, que é bem próxima da capital egípcia:

Um pouco mais ao sudoeste de Gizé, estão localizadas as suas famosas pirâmides.
E aqui termina minha aulinha de Geografia.
Mas o que toda esta geografia tem a ver com a Astronomia? Bem a resposta nasceu mais ou menos há 4.600 anos, ou seja lá pelos idos de 2.600 a.C.
No 26º século a.C., quando a civilização egípcia estava alcançando
seu apogeu, três reis Khufu, o seu filho Khafre, e o seu neto Menkure,
ordenaram a construção de três pirâmides enormes que serviriam como tumbas.
Os três reis são mais conhecidos pelos seus nomes gregos: Quéops (Khufu), Quéfren
(Khafre) e Miquerinos (Menkure).
Daí os nomes das três pirâmides situadas em Gizé: Quéops, Quéfren e Miquerinos. A de Queops é a mais antiga, construída por volta de 2.600 a.C. Originalmente tinha as paredes feitas de pedras lisas e polidas. Este revestimento externo foi retirado e usado na construção da cidade do Cairo, o que deixou à mostra a estrutura subjacente, construída com 2.500.000 blocos de calcáreo. As pirâmides situam-se ao longo de um eixo na direção sudoeste, em ordem descendente de idade e tamanho. Todos eles estão orientados para 8,5 graus a oeste do pólo magnético norte. Assim como a pirâmide de Quéops, as de Quéfren e Miquerinos foram erigidas para alojar os corpos dos faraós que as construíram. E, também como a pirâmide de Quéops, foram totalmente saqueadas por ladrões de túmulos há milhares de anos.
Como todas as pirâmides, cada uma das pirâmides de Gizé faz parte de um
importante complexo que compreende um templo no vale, uma rampa, um templo funerário
e as pirâmides mais pequenas das rainhas, todo cercado de túmulos (mastabas)
dos sacerdotes e pessoas do governo, uma cidade para os mortos desenhada em
ordem. As valas aos pés das pirâmides continham botes desmontados: parte
integral da vida no Nilo sendo considerados fundamentais na vida após a morte,
porque os egípcios acreditavam que o defunto rei navegaria pelo céu junto ao
venerado Rei Sol. Apesar das complicadas medidas de segurança, como sistemas de
bloqueio com pedregulhos e grades de granito, todas as pirâmides do Antigo Império
foram profanadas e roubadas possivelmente antes de 2000 a.C.
Alguns dados sobre a grande pirâmide:
| Altura: 145, 75 m | |
| Lado Norte: 230, 25 m | |
| Lado Oeste: 230,35 m | |
| Lado Leste: 230,39 m | |
| Lado Sul: 230,45 m |
ângulos:
| Sul-Leste: 89º56' | |
| Norte-Leste: 90º03' | |
| Sul-Oeste: 90º | |
| Norte-Oeste: 89º59' | |
| As quatro faces da pirâmide defasam dos quatro pontos cardeais com um erro de apenas 3 minutos de grau. |
Estes dados mostram a perfeição desta construção. Mais ainda se pensarmos que esta exatidão no ano 2.600 a.C. não podia ser alcançada com o uso da informática e de aparelhos de raios laser (recursos usados pela engenharia atual).
Mas, algumas "coincidências", chamam à atenção:
| A altura original da pirâmide multiplicada por um milhão é praticamente igual à distância da Terra ao Sol. | |
| O seu peso de 5.273.000 toneladas, multiplicado por um bilhão é praticamente igual ao peso da Terra. | |
| O seu perímetro dividido pela metade de sua altura resulta em 3,14 ou seja, o famoso número Pí. | |
| A sua altura coincide com a altura média dos continentes sobre o nível do mar. | |
| Sua temperatura média interna coincide exatamente com a temperatura média da Terra, variando, inclusive, com o passar do tempo. | |
| As paredes internas não são perfeitamente planas, mas sim ligeiramente convexas.: esta curvatura corresponde ao valor em graus da curvatura terrestre. | |
| Existem muitas outras "coincidências"no interior da pirâmide. O sarcófago de granito vermelho (que deveria conter a múmia do faraó) é muito maior que a porta de entrada. Portanto ele foi colocado lá antes das paredes, o que é, no mínimo, intrigante. O engenheiro Christopher Dunn, especialista no tratamento de granitos, sustenta que para realizar este trabalho, num bloco maciço de granito escavado no seu interior, sem que as suas finas paredes sofressem fraturas, seria necessária uma broca 500 vezes mais veloz que as atualmente utilizadas. |
Mas a coincidência que intriga muitas pessoas, é justamente o elo com a Astronomia. Abaixo temos uma reprodução das três pirâmides feitas por computador:

A seguir, temos uma reprodução que fiz pessoalmente (sim: eu quis comprovar pessoalmente a teoria) da constelação de Órion (copiada do Livro "Observar o Céu Profundo" de Guilherme de Almeida e Pedro Ré) sobreposta à imagem anterior:

Note que a imagem das três pirâmides, quando sobrepostas às estrelas centrais de Órion (as chamadas "Três Marias" - Mintaka, Alnilam e Anitak), ocupam com um grau impressionante de exatidão, as mesmas posições destas. Talvez seja apenas mais uma "coincidência". Mas, para tornar a coisa um pouco mais interessante, pode-se notar que da sala do Rei, sai um estreito ducto de ventilação, largo não mais que 20 cm., que se dirige para cima, por dezenas de metros. Usou-se um software astronômico há alguns anos para confirmar o fato: na noite do solstício de inverno, de 2.600 anos antes da era Cristã, se se olhasse pelo ducto de ventilação se veria...
o centro da constelação de Órion. Mais precisamente as três estrelas que compõe o "cinturão de Órion": Mintaka, Alnilam e Alnitak.
Coincidências? Talvez sim. Eu, particularmente, creio que não.
Como também não tenho explicações para o fato de uma tecnologia tão sofisticada e precisa ter existido há mais de 4.000 anos e depois ter sido simplesmente "esquecida", para ser "reaprendida" somente milhares de anos depois.
Bem, caros professores: acho que eu teria me interessado muito mais pela história e pela matemática se, naquele tempo os senhores tivessem sabido despertar meu interesse com fatos como este. Mas eram outros tempos... E, com toda a minha sinceridade, o que realmente importava era sobreviver. E sobreviver, significava passar de ano. Mas devo dizer que sou grato a vocês, pois souberam despertar em mim um tipo de sentimento que me fez estudar, após mais de 30 anos, um pouco de história e um pouquinho de matemática e conseguir achar estas matérias interessantíssimas. Acho que desta vez vou passar de ano sem segunda época.
Lembranças do aluno que jamais conseguiu esquecê-los.