22 de março de 2.001

Comprei um tripé para a máquina fotográfica. Tenho uma Pentax Reflex. Meu desejo secreto é poder fotografar todas aquelas coisas lindas que eu vejo no céu e poder mostrar às pessoas. Pensei em montar uma câmara CCD desmontando uma WEB Cam, mas para usá-la, eu vou precisar ter um microcomputador ao lado da luneta, para armazenar as imagens. Já pensou? Eu lá no meio do mato, com a luneta, os livros de astronomia, o secador de cabelos e ainda um microcomputador?

Então, antes de embarcar nessa empresa, vou tentar fotografar pelos meios convencionais. Imagino que se montar a câmara fotográfica logo atrás da ocular da luneta vou poder captar as imagens que passam por ela.

23 de março de 2.001

É noite. Eu olho pela janela de casa e fico frustrado. Nuvens. Luzes da cidade. Muitas luzes. Vou contar um pequeno sonho meu: é noite e acontece em São Paulo um Blackout. Mas um blecautezão daqueles que nunca aconteceu, que dura horas e apaga as luzes de todos os 19 municípios da Grande São Paulo.

Sei que é um sonho meio egoísta. Certa vez, estava passando pela Av. 23 de maio, lá pelas 7 horas da noite, bem embaixo do Hospital da Beneficência Portuguesa. Trânsito parado, como sempre. Exatamente neste momento apagam-se todas as luzes. As ruas ficaram escura, os prédios também.

O prédio da Beneficência também apagou inteirinho. Meu coração deu um pulo, pois imediatamente lembrei que alguns anos antes, minha mãe tivera implantadas em seu coração algumas ponte de safena, exatamente naquele hospital. Na época, esta cirurgia estava em seus primórdios aqui no Brasil. O médico responsável foi o Dr. Adib Jatene. Grande Médico. Grande ser humano.

A cirurgia durou algo como oito ou nove horas. A internação durou nada menos que 45 dias. Mas minha mãe saiu viva de lá.

Então, voltando à Av. 23 de maio, eu imediatamente olhei para o andar onde eu sabia situar-se o centro cirúrgico: tudo escuro! Imaginei um cirurgião que, exatamente naquele segundo, estivesse suturando um vaso com uma agulha quase microscópica, com um fio mais fino que um fio de cabelo e, de repente... escuro. Escuridão total. Não se enxerga nada. E o paciente ali deitado, de peito aberto.

As máquinas que controlam a circulação extra-corpórea param. Todos aqueles monitores cheios de luzinhas e "bips" apagam e ficam mudos. O equipamento de anestesia fica incontrolável, pois não se podem enxergar os manômetros. Alguém, pede um isqueiro. Médico não fuma. Pelo menos não dentro do centro cirúrgico...

O trânsito continuava parado e eu, gelado, só olhando para as janelas do andar. Os segundo vão passando. Parece uma eternidade. Cada segundo parece durar o infinito. Imagino uma gota de suor escorrendo pela fronte do cirurgião. O anestesista se desespera: será que o suprimento de anestésico está nos limites? Será que está chegando Oxigênio suficiente para manter a vida daquela pobre pessoa?

Mas, de repente, as luzes do andar do centro cirúrgico se acendem. Só as daquele andar... Evidentemente entrou em ação o gerador de eletricidade do Hospital. Estou certo que muita gente nunca mais vai se esquecer daquela cirurgia...

Então, deixo de ser egoísta e fico olhando pela janela. Duas estrelas é tudo o que posso ver.

Mas afinal, para testar meu conjunto luneta-máquina fotográfica, eu não preciso mais que isso. Coloco a luneta na janela e direciono-a para a estrela mais brilhante. Com a objetiva de 4 mm posso ver que que, na realidade, trata-se de uma estrela dupla. Um prato cheio para um teste.

 Fico horas tentando alinhar uma com a outra. É difícil. E quando se consegue é preciso ser muito rápido, pois os corpos celestes atravessam a área da ocular com uma rapidez incrível.

Aí começam os teste: o problema é determinar os tempos de exposição. Usei um filme GC-Kodak Ultra, de 400ASA/27º . A máquina fotográfica tem uma objetiva 1:4-5.6 (com zoom variável de 35 a 80).

Vou tirando as fotos. Os tempos de exposição variaram de 5 a 60 segundos. A distância da lente da máquina à ocular da luneta ficou em torno de 1 a 3 mm, mas as distâncias testadas no ajuste da objetiva da máquina foram de 0,4 m. ao infinito. O fator de zoom variou de 55 a 80. As oculares usadas foram de 4, 12.5 e 25 mm. A cada fotografia, eu ia anotando os dados usados naquela exposição.

Na manhã seguinte, assim que percebo que um paciente vai chegar atrasado, corro até a Fotoptica da Av. Angélica e peço para revelarem e ampliarem as fotografias. Todas, sem exceção.

Volto ao consultório e trabalho até a hora do almoço, muito curioso e ansioso com os resultados das minhas fotografias. Ao chegar na loja, a funcionária, muito solícita, me entrega o pacote de fotografias. Eu abro. Tem umas vinte e poucas fotografias tiradas numa viajem que fizemos a Águas de Lindóia e algumas da chácara. Da fotografia 23 em diante, não houve ampliação. A funcionária me explica que não era possível visualizar nenhuma imagem, por este motivo, as fotografias não foram ampliadas. Fico inconformado e peço para examinar os negativos no negatoscópio.

E lá estavam minhas imagens. Na realidade estas imagens resumiam-se a uma série de pequenos risquinhos. Então eu explico à funcionária que eram exatamente aqueles risquinhos que eu queria que fossem ampliados. E ela me responde: "Mas quem é que vai querer ver esse monte de risquinhos?" . Então, eu respiro bem fundo, tento me agarrar aos meus princípios de "não violência" pregados pelo Mahatma Gandhi, e explico-lhe o que eram aqueles risquinhos. Tento explicar, com muita calma e paciência que se trata das imagens das estrelas. Aquilo que estávamos vendo era o caminho da estrelas. E era só o que eu queria ver.

Muito solícita, a funcionária então entende a idéia e promete ampliar as fotos o mais rápido possível. E, ainda, como eram imagens muito semelhantes, se compromete a anotar no verso de cada fotografia, o número da exposição, para que possa identificar corretamente cada uma delas.

Meia hora mais tarde lá estava o meu trabalho. Se você quer ver minhas primeiras fotografias, clique no ícone abaixo.

  Clique na foto para ver minhas primeiras imagens.

Clique aquí para ir à Próxima Página=>

Adriano Caló - R. Maranhão, 598 cj. 11 - 01240-000 - S.Paulo SP

a.calo@globo.com