27 de julho de 2003

Devo dizer que estou furioso. Para não usar expressões menos delicadas.

Ocorre que escrevi uma nova página lá no sítio. Que se dane a modéstia, mas era bonito o que eu escrevi. Pelo menos eu achei. E gravei tudo num disquete e trouxe para casa. E o arquivo tinha um vírus.

E o meu anti-vírus não conhece uma solução para este vírus. Assim, ele houve por bem apagar o meu texto. Segundo ele, o texto não foi apagado, mas colocado  em "quarentena". Assim, meu pobre texto está internado num hospital digital, em quarentena, e os médicos (eles também devem ser digitais, imagino...) certamente estão tentando manobras heróicas para salvar sua vida, enquanto ele permanece lá, calado, deprimido e, acima de tudo, isolado: ninguém pode vê-lo. Lê-lo é proibido: ordens médicas...

Bem, não vou escrever tudo de novo, mesmo porque, acho que um texto carrega uma emoção. E o que eu sentia naquele momento ficou atrelado àquilo que escrevi, e seria perda de tempo tentar ressuscitar aquelas emoções.

Mas vou resumir: levamos o Théo definitivamente para o sítio. Ele passou a morar lá. No meu texto eu falava do que sentia a respeito disso. Falava que estava muito triste, pois o Théo acabou por se transformar num grande companheiro: ele me fazia companhia enquanto eu almoçava, e me arrastava pelas ruas, à noite, enquanto íamos conhecendo todos os postes do bairro.

E eu dava a maior força quando ele encontrava algum "parente" igualmente ligado a um dono que segurava um cachorrinho branco (porque será que a maior parte dos cachorros do bairro é branca?) que dava voltas pelas ruas escuras. Me fazia companhia quando eu tentava achar alguma coisa que prestasse na televisão (sim: ele assistia à televisão, tendo um notável interesse pelos programas da Discovery, do tipo "mundo animal" - que eu detesto, mas que ele olhava com uma atenção que me fazia assistir a estes programas apenas para observar suas reações).

A ida do Théo se deveu ao fato que a família está crescendo: sim, aos 46 anos, serei papai outra vez. E isto foi motivo de muita alegria. Mas minha mulher não tem os anticorpos da Toxoplasmose. Desta forma, orientados pelo médico, achamos mais seguro levar o meu bom amigo para outro lugar. Assim, teremos, em alguns meses, quem sabe, um(a) futuro(a) "Astrônomo(a) Mirim".

Em resumo, é isso. Lamento: o texto original era muito melhor...

26 de julho de 2003

A Voltando um pouco, mais precisamente à noite de sábado, 26 de julho, apesar da feroz ventania que afugentou todos os animais (inclusive o Théo) para lugares menos inóspitos, eu resolvi me aventurar com o Newtoniano (quando será que vou encontrar um nome para ele?) até o meu velho posto de observação. Havia umas nuvens que iam e vinham. Além de lufadas de vento que só não derrubaram o telescópio pois eu estava ao seu lado e consegui segurá-lo a tempo.

As folhas soltas que estavam dentro do meu livro Eram mapas e páginas produzidas pela impressora) saíram voando pasto a fora, me obrigando a uma ridícula corrida no meio do mato. Mas, de vez em quando, havia uma conjunção ideal: o vento amainava e as nuvens savam uma trégua. Então eu me coloquei a observar o céu.

Iniciei pela "Caixa de Jóias", só para ajustar a buscadora. Mas logo notei que minha ultima sessão de colimação produziu resultados surpreendentes. As imagens estavam ótimas. Depois passei ao Escorpião, onde ví, novamente a M-6 e a M-7.

Por fim, resolvi encarar o desafio de entender Sagitário, pois ainda não consegui visualizar bem esta constelação. Iniciei a viajem, partindo da ponta da cauda do Escorpião, passando à "Corona Australis". Nesta posição eu ainda me sentia "protegido", pois sei voltar para lá. A Corona é fácil de se achar. Comparo-a a uma vírgula, com um lado mais aberto e outro mais fechado.

Deste ponto, eu seguiria minha viajem até Zeta Sagitário que, junto a Fi, Sigma e Tau Sgr, formam uma figura trapezoidal. No caminho tentei encontrar a M-54, que deveria estar próxima a Zeta Sagitário. Mas não encontrei. Provavelmente (além da minha inexperiência), as nuvens que iam e vinham, tornaram a tarefa mais difícil.

Parado em Fí Sgr, e sem coragem de sair de lá, eu tentava, com a ajuda do binóculo, visualizar o sagitário. Sagitário animal, quero dizer. Com suas patas e outras partes anatômicas, mas não consegui. O medo de me perder nesta  bagunça, me fez voltar à Corona Australis onde dei minha viajem por perdida: eu simplesmente não tinha coragem de sair de lá e me perder pelo espaço.

Mas, perdido por perdido, decidi dar um passo mais audacioso: saltar da ponta da Corona Australis para Delta Sgr. Cheguei! Cheguei e o que vi foi só mais uma estrela. Coisinha sem graça... Era preciso ter peito para encarar estas emoções. Então, num acesso repentino de ousadia, comecei a girar a rodelinha que fazia o tubo subir. E ele foi subindo para o Zênite. Cada vez mais alto. E eu ia olhando pela ocular, e me sentindo cada vez mais perdido em meio a tantas estrelinha minúsculas, no meio daquele céu escuro, quando vi uma nuvenzinha. Olhando bem, notei que não era uma nuvenzinha, mas sim eram duas nuvenzinhas colocadas lado a lado, como duas páginas de um livro aberto, separadas por uma faixa escura.

Liguei a lanterna e tentei descobrir onde estava. E lá estava a imagem que eu via na ocular de 25 mm: a M-8. Só hoje fui reparar no detalhe que esta nebulosa é a tão falada Nebulosa da Lagoa (também chamada de Nebulosa da Laguna).

Este é o caminho que percorri durante a minha "viajem".

Numa das pontas de uma das "páginas", havia um enxame aberto, cheio de estrelas. E, como fiquei sabendo ao ler o texto do "Observar o Céu Profundo", à gloriosa distância de 6000 anos-luz, o que é fichinha, se considerarmos que Ômega Centauro está a 16.000 anos-luz da Terra.

Estes números, quando vi as fotografias que tirei junto com o Luiz, me fizeram pensar, algumas semanas atrás, que estava diante de uma "máquina do tempo". Teórica, é claro, mas viável (em termos teóricos). Imagine que alguém, há 6.000 anos, que é o tempo que a luz da M-8 leva para chegar a nós,  (portanto mais ou menos em 4.000 a.C.) , quando a escrita ainda não havia sido inventada; a construção das pirâmides do Egito ainda não tinha sido iniciada; Daví, Sansão e Golias só pensariam em nascer 3.000 anos depois; Jerusalém não era a capital de Israel; Roma só seria fundada dentro de 3.250 anos (mais exatamente em 753 a.C.); Buda ainda não tinha nascido (o que ocorreu no século 5ºa.C.); o calendário solar ainda não havia sido criado pelos chineses (aproximadamente 440 a.C); Sócrates ainda não tinha nascido (isto só aconteceu em 440 a.C); Hipócrates, pai da Medicina ainda não existia; a Grande Muralha, na China não possuía uma pedra sequer (sua construção foi iniciada em 210 a.C); o nome de Jesus não era sequer citado; o Coliseu não estava construído, o Vesúvio não havia erupcionado, soterrando Pompéia e Herculano (79 d.C); Átila ainda não era o Rei dos Hunos (o que ocorreu só em 434 d.C.); Maomé não tinha nascido - o que só acorreu em 570 d.C); os Vikings ainda não haviam chegado à Groelândia (986 d.C); ainda não se tinha idéia de quem seriam Genghis Khan, Marco Polo, Dante Alighieri, Joana D'Arc, Gutenberg e Cristóvão Colombo; o Brasil não havia sido descoberto; Leonardo da Vinci, Michelangelo e Copérnico ainda estavam sob a cadeira de Deus; Galileu ainda não tinha colocado seus olhos na ocular do telescópio com o qual descobriu quatro da luas de Júpiter (1609); Newton ainda não sabia que seria considerado o pai da física moderna (ele viveu entre 1642-1727); Bach, Celcius, Voltaire, Rousseau, Mozart, Kant, Lavoisier, Napoleão, Goya, Darwin, Lincoln, Graham Bell, Edison, Rodin, Pemberton (inventor da Coca-Cola em 1806), Roentgen (o dos Raios-X), e tantos outros, fariam a história do mundo. 

Então imagine que alguém que não tinha nada para fazer (afinal a televisão, a internet e o shopping center ainda não tinham sido inventados) resolveu colocar um enorme espelho numa daquelas estrelinhas que fazem parte da M-8 (que, lembrando, está a 6.000 anos-luz da Terra). E imagine que o Adriano que está tremendo de frio, todo encapuzado, na beira da piscina, lutando para ver alguma imagem decente pela ocular do telescópio sem-nome, consegue encontrar aquela estrela (estrela, não: digamos planeta), que está a 6.00 anos-luz e que tem este imenso espelho, perfeitamente perpendicular à boca do telescópio sem-nome.

Então o Adriano coloca sua ocular mais possante (12,5 mm da Tasco....) e observa no seu telescópio perfeitamente colimado, a imagem refletida pelo espelho situado na M-8. O que ele vê?

Ele vê a imagem do sítio em Itú, de 12.000 anos atrás (que é o tempo que a luz levou para ir da Terra ao planeta da M-8 e voltar novamente à Terra). Pronto: está inventada a máquina do tempo. Basta distribuir n espelhos por n planetas situados nas mais variadas distâncias, que teremos as imagens das mais variadas épocas. 

Conclusão: nossa história está escrita nas estrelas.

Mas, voltemos à M-8 (também conhecida por NGC 6523): confesso que não consegui encontrar o espelho. Mas tive uma imagem emocionante destas duas nuvenzinhas.É claro: as nuvens tinham cor de nuvens branquinhas. Mas, já que tudo é permitido (na nossa imaginação, é claro), apresento as imagens que gostaria de ter observado (NASA):

Uma imagem um pouco mais próxima da que realmente pude observar (a que vi não era tão boa), é reproduzida abaixo, do livro "Observar o Céu Profundo"de Guilherme de Almeida e Pedro Ré (que inclui também a M-20):

 

Minha viajem seguiu da M-8 para a M-20. Esta é também chamada de "Nebulosa Trífida"

As faixas escuras não eram tão nítidas, mas eram observáveis. Por coincidência, esta nebulosa também está a 6.000 anos-luz de nós. 

Passando às fotos da NASA (por favor, não babem no teclado...)

Uma visão geral da M-20

Detalhe de um pilar de gás

Detalhes da M-20

O frio era terrível, e o jantar estava sendo servido. Jantar feito pela nossa nova caseira (ah, essa história estava gravada no tal disquete): simplesmente divino (ao chegar a São Paulo constatei horrorizado que entre as 16:00 de sexta-feira e as 18:00 do domingo eu engordei 1,600Kg.). Assim, guardei o sem-nome e fui jantar. Mas, após uma lauta refeição, dei uma saidinha. E vi Marte que brilhava de uma forma surpreendente. Não resisti e fui buscar o telescópio outra vez. Pesado o bichinho...

Marte está se aproximando da Terra. O ponto mais próximo deverá ocorrer em agosto. Mas a imagem começa a melhorar: pude observar áreas escuras em seu centro, apesar da ventania que castigava o sítio e que fazia o telescópio saltar que nem cabrito. Uma área circular, com três prolongamentos mais escuros. Os pólos, eu não pude ver. Mas Marte promete...