27 de junho de 2003
Desde a última página deste diário, consegui arrastar o Luiz até a chácara, em Itú. Foi uma noitada incrível, pois o céu estava limpo e pudemos ver uma infinidade de objetos do céu profundo, com a ajuda do Meade de 60mm do Luiz e do meu novo (e ainda sem nome) telescópio.
O Meade tem um programinha que é algo do tipo "o que há de interessante no céu de hoje". E ele vai virando na direção de cada objeto, enquanto os nomes vão aparecendo no visor. Vimos M-6, M7, Ômega Centauro, As Grande e Pequena Núvens de Magalhães, a Nebulosa da Lagoa, e uma infinidade de Ngc's, cujo nomes e números eu não lembro mais.
Mas ver e escrever uma página no diário dizendo simplesmente "eu ví", não me parece ter muita graça. Por este motivo não me dei ao trabalho. O que eu teria gostado realmente teria sido dizer "eu ví a imagem abaixo". Mas nós não fotografamos nada, portanto não tinha nada para mostrar.
Minha mulher nos preparou pizzas no forno de barro, que foram devidamente devoradas por nós três.
Sexta-feira, 27 de junho, que marca o final de uma semana de muito trabalho e o Luiz me convida a ir até Jundiaí para fazermos a estréia da sua motorização construída por Dario Pires. Sinto-me cansado, mas este é o momento que deveria ser o inicio verdadeiro da nossa carreira de "astrofotógrafos".
O equipamento, além de pesadíssimo, é bastante complexo. Estamos cientes que nossas primeiras tentativas provavelmente não terão resultados muito satisfatórios, pois não sabemos bem como operar a motorização ( carinhosamente apelidada de "geringonça").
Ao chegarmos lá - já tendo devorado alguns salgadinhos no posto de gasolina da Rodovia dos Bandeirantes - montamos o tubo do telescópio do Luiz, que é um Newtoniano de 170mm, sobre a motorização e levamos para o jardim.
As luzes amarelas da rua nos atrapalhavam, mas o céu estava tão bonito que pudemos ver um braço da Via Láctea. Fazia frio.
O primeiro passo, depois de ter inclinado o eixo da motorização em 23,5º (que é a latitude aproximada do local), foi alinhar o telescópio com o Sul celeste. Tarefa árdua. Mas desenvolvemos um método particular para tentarmos obter o alinhamento: levamos para fora a televisão e a câmera Meade que é ligada a ela e ao telescópio.
Direcionamos inicialmente o conjunto para uma direção próxima ao Sul celeste. Isso foi feito calculando-se, com nosso mais precioso instrumento (o olhômetro), a localização de um ponto no céu que deveria ser o equivalente a 4 vezes e meia o prolongamento imaginário do Cruzeiro do Sul.
Colamos, com fita adesiva, um saco plástico incolor sobre a tela do televisor e, com o telescópio voltado para aquele ponto, a quatro vezes e meia o Cruzeiro, encontramos uma estrela razoavelmente brilhante, que serviria de teste para o nosso ajuste final.
Este seguiria o método "drift", adequado ao nosso televisor. Ou seja, quando a imagem da estrela subia, diminuíamos a velocidade de deslocamento do motor. Marcávamos com uma caneta a posição da estrela sobre o saco plástico, fazendo uma pequena cruz sobre ela. Aguardávamos alguns minutos e víamos para onde tinha ido a estrela. Se ia para cima, deslocávamos a base do conjunto um pouco para esquerda.
Esta operação levou quase três horas, e deixou nosso saco cheio de cruzinhas (o saco plástico colado ao televisor, bem entendido). Até que a estrelinha ficava praticamente fixa sobre o centro da última cruzinha desenhada.
A técnica oficial ensina a usar uma ocular reticulada para esta operação, mas achamos que o resultado do televisor, por ser muito maior, foi mais exato, além de confortável, pois assistíamos a tudo sentados sob o teto da varanda da casa, ao abrigo do sereno. Íamos nos revezando nas marcações, enquanto comíamos mais salgadinhos e bolachas "casadinho".
Quando julgamos o resultado satisfatório, colocamos a máquina fotográfica na porta-oculares (com uma ocular de 25 mm.) e começamos a fotografar a Caixa de Jóias, com tempos variando entre 30 segundos e 4 minutos. Um de nós ficava próximo ao telescópio e o outro controlava o relógio.
Depois perseguimos Ômega Centauro e a M-7.
Quando fomos dominados pela completa exaustão, voltamos a São Paulo, sob uma neblina fortíssima. Eu via, na estrada, as faixas brancas contra o asfalto preto, que se alternavam como luzes que piscavam e insistiam em me hipnotizar. O Luiz cantava, para afastar o sono. Eu só não dormi graças ao canto do meu amigo. Puxa, como ele canta mal...
30 de junho de 2003
Antes de chegar ao consultório, deixo o meu filme na Fotoptica. A funcionária já sabe que são estrelas e marca no envelope: "estrelas - ampliar tudo". No consultório muito trabalho à minha espera, de forma que só consegui ir buscar as fotografias lá pela uma da tarde. Mas, ao entrar na loja, percebo um olhar diferente da funcionária. Estará ela apaixonada por mim? Não, creio que não... Na verdade ela se tornou minha amiga e torce para que eu consiga imagens bonitas do céu.
Logo ela me entrega o envelope, e já vai abrindo, sem cerimônia. Enquanto ela abre eu pergunto: "saiu?". Ela não responde. Tira as fotos do envelope e as entrega a mim.
Eu começo a ver uma fotografia que mostra apenas 2 estrelinhas. Mas a seguinte já tem mais de uma meia dúzia. Até que me aparece uma com a M-7, inconfundível, com muitas estrelas. Depois vem a Ômega Centauro. Linda!
Doze fotografias ao todo. Delas, escaneei as duas melhores. Pena que no processo de escaneamento, a imagem tenha perdido muito. Mas, (realizando um sonho meu), "VEJA AS IMAGENS ABAIXO":

Esta, meus amigos, é a imagem da M-7. Também conhecida por NGC 6475. O tempo de exposição foi de 3 minutos. Possui magnitude 3,3 e dista 900 anos-luz da Terra. Trata-se de um enxame aberto. É o objeto Messier localizado mais ao Sul, na constelação de Escorpião. O Livro do Guilherme de Almeida e do Pedro Ré diz que, segundo os antigos árabes, seria o veneno do escorpião.
Para saber mais sobre a M-7, clique aqui

Já esta, é a imagem de Ômega Centauro. Também conhecida por Ngc 5139. O tempo de exposição foi de 4 minutos. Este enxame Globular está a 16.000 anos-luz do jardim da casa do Luiz. Portanto esta imagem é a de Ômega Centauro há 16.000 anos. É um enxame globular, de magnitude 4, e foi catalogado como estrela no atlas de Bayer, em 1603, antes de se ter descoberto, com a ajuda de telescópios, a sua natureza de enxame globular (sempre segundo o "Observar o Céu Profundo de Guilherme de Almeida e Pedro Ré).
Para saber mais sobre Ômega Centauro, clique aqui
Estas imagens são piores que as originais: a original de Ômega Centauro, parece uma cara com dois olhos - é impressionante!
Outras imagens tratadas por softwares de edição de imagens:
M-7
com exposição de 4 minutos
A
M-7 em negativo.
Um
desenho que eu havia feito há tempos, observada pelo Mr. Magoo
Ômega
Centauro com exposição de 1 minuto.
Bem, este foi nosso começo para valer. São as primeiras imagens de objetos do céu profundo. Sei que apresentam "trails", e que as imagens periféricas apresentam alguma distorção. Mas são as nossas imagens. E isso nos deixou muito felizes.