13de junho de 2003
Estou na chácara desde ontem à noite: 13 de junho, sexta-feira - lua cheia... Sei que isso não é científico, mas eu odeio sexta-feira 13. Certamente porque minha mãe morreu numa sexta-feira 13 de agosto. É claro que eu evito falar isso por aqui, pois meu sogro faz aniversário em 13 de agosto. Situação complexa...
Mas hei-nos aqui no meio mato que, lentamente vai sendo invadido pelas luzes da civilização: aos poucos vão surgindo no horizonte lâmpadas brancas e amarelas. São novas casas que vão sendo construídas na redondeza. Certamente em cinco anos haverá uma poluição luminosa tão forte que não conseguirei mais ver o céu decentemente.
O meu Newtoniano, finalmente ficou pronto. Falta-lhe um nome apropriado. Mas sei que não devo ter pressa em batizá-lo, Quando for a hora, vai surgir um nome.
Sua estréia foi no terraço acima do 11º andar do prédio onde moro. Uma tragédia chegar até este terraço: dizem que o construtor do prédio era inexperiente quando começo a obra. Assim, os andares mais baixos são super-resistentes, pois não foi feita nenhuma economia de material. As paredes são instransponíveis para qualquer furadeira. Bater um prego na parede é uma tarefa da qual os moradores procuram fugir, pois certamente o prego vai entortar. E o segundo prego também. O mesmo ocorrerá com o terceiro, o quarto...
Mas, conforme o prédio foi subindo, parece que os fundos foram acabando. A solução foi fazer apartamentos menores. Assim, as áreas dos apartamentos do primeiro andar são pelo menos 20% maior que as do 11º andar. A economia chegou a extremos quando fizeram a casa de máquinas dos elevadores: existe, acima do 11º andar, um terraço. Mas para chegar a ele há um corredor, sobre o qual estão os motores dos elevadores. Mas, a altura deste corredor, por economia, certamente, é de, no máximo, 1,20 m.
Portanto, chegar ao terraço é uma manobra complicada. Exige preparo físico, e elasticidade muscular.
Mas, chegar ao terraço carregando um telescópio cujo tubo mede 1,30 m. é uma verdadeira proeza. Porém, eu estava ansioso para testar o bicho. Assim, enfrentei a manobra estoicamente, resignado.
O céu de São Paulo chega a dar raiva: há uma luz alaranjada de fundo, além da luz da Lua crescente, que impedem qualquer observação razoável. E além disso, as pessoas dos prédios vizinhos ficam achando que o principal motivo de eu estar no terraço é a observação das suas intimidades. Como se isso pudesse me interessar... Aquele homem com a barba por fazer e o cabelo desalinhado, que vê televisão, parou para me olhar um tempão. E aquela senhora que não para de escovar os cabelos... Mais um pouco e ela fica careca.
Isso não me interessa. Eu vim aqui para ver estrelas.
Ok, aquela loirona que acabava de sair do banho... Uma verdadeira estrela!
Mas eu tinha de testar meu telescópio. E assim fui observando as estrelas. Não consegui separar bem a Alpha Crux. Mas também o telescópio não está colimado. E eu começo a ajustar os parafusos, tentando obter imagens mais nítidas. E consigo. Cheguei a observar Júpiter e suas quatro luas. Mas não consegui ver as faixas do planeta. Saio do terraço meio frustrado, com o corpo dolorido em conseqüência das manobras de entrada e saída...
Dias atrás fui até Araraquara com meu amigo Luiz Renato. Fomos retirar uma montagem motorizada que o Sr, Dario Pires construiu para o Luiz. Tivemos oportunidade de ver imagens da Lua e de Júpiter num de seus telescópios de 200 mm. Júpiter aparecia com 3 faixas. Podia-se notar até mesmo alguma coloração castanha nas faixas. Lindo! A Lua, vista durante o dia era um show. Realmente fantástica. Podia-se perceber o clima extremamente seco do nosso satélite. Parecia feito de pedra-pomes. Vi os Apeninos da Lua. Fantástico.
Mas hoje estou estreando o Newtoniano num local apropriado. A luz da Lua cheia, é claro, é um transtorno. Mas estas são as condições: isso ou nada.
Faço uns ajustes colimatórios iniciais, pois a viajem pela estrada de terra desalinhou totalmente o telescópio. E começo a ver algumas estrelas. Vou ajustando o foco e os parafusos dos espelhos. Aos poucos, as imagens vão se tornando bem mais definidas.
Por fim, às 11:20, inicio as observações de verdade. Escolho a caixa de Jóias, por saber mais ou menos sua localização, só para testar o telescópio no céu profundo. E lá está ela. Pelo novo telescópio, as estrelas da Caixa de Jóias têm mais cores. O formato do objeto não é mais o de uma seta triangular: lembra mais um losango, com formações alinhadas de estrelas em forma de vírgula. Em relação ao Cassegrain, a coisa melhorou muitíssimo, e eu fiquei muito animado.
Às 11:40 o telescópio estava dirigido para um planeta, do lado Leste, que era um círculo branco. Pensei tratar-se de Vênus. Só fiquei sabendo no dia seguinte, que era Marte, ao ligar o micro e ver num software astronômico, o céu da noite anterior.
Mas o que vi era apenas um círculo levemente mais avermelhado que a Lua. Parecia apresentar o inicio de uma fase crescente ou minguante.
Às 11:55 consegui, com o auxílio do livro do Guilherme de Almeida e do Pedro Ré, localizar a ngc 5139, ou seja, a Ômega Centauro. Encontrei-a previamente com o auxilio do binóculo. Depois, focalizei o telescópio na estrela norte do Cruzeiro do Sul e fui seguindo um caminho imaginário, saltando de estrela em estrela, até chegar em Ômega Centauro.
Sua imagem parecia uma enorme nuvem branca circular, bem fraquinha., que ocupava todo o terço central da minha ocular (que deve ser de uns 20 mm. - confesso que não sei o valor correto: ela me foi vendida como sendo de 25 mm, mas sei que não é).
Às 00:30 passei a observar a Lua cheia. Sua luminosidade era fortíssima. Chegava a cegar. Era bela, mas não tão bela como a que vi de dia na casa do Sr. Dario Paires.
Às 00:40 voltei a observar Marte (ainda pensando tratar-se de Vênus), com uma objetiva de 12 mm. e filtro lunar. Realmente parecia o inicio de uma Lua minguante.
Fazia muito frio, mas não havia vento, o que, para esta época do ano, é um verdadeiro milagre.
14de junho de 2003
Durante o dia, vieram alguns casais de pretendentes a caseiros. O Oswaldo e a sua esposa foram demitidos: estão cumprindo aviso prévio. Por conta disso, temos um clima meio pesado na chácara. Tudo está meio abandonado, como costuma acontecer nas épocas de troca de caseiros.
À noite, ventava bastante. Mas montei o telescópio no meu posto de observação. Planejamos construir um observatório. É um sonho. Mais um sonho.
Dei umas olhadas na Lua e na Caixa de Jóias. Depois observei Júpiter e suas luas. E aí a grande surpresa: já não eram mais quatro luas - passaram a ser SEIS!
Somente dias depois, pesquisando o assunto, percebi que as minhas novas duas luas eram estrelas com magnitudes entre 9 e 9.21, na direção de Júpiter (dados fornecidos por Fernando, da cidade de Vinhedo SP, pela lista Urânia).
Ora, ora! Progressos na minha ótica. Apesar de não serem mais duas luas, estas duas novas e minúsculas estrelinhas me deixaram muito contente. Mais ainda pois sei que estamos em plena Lua cheia e o telescópio não está bem colimado. Uma sensação de vitória tomou conta de mim. Tinha dado mais uma passo.