15 de fevereiro de 2003

Recebi um e-mail do Sebastião S. Filho, que fabricou os espelhos do Mr. Magoo, no qual dizia que como eu não estava me dando bem com a ótica que adquiri, e ele, como bom profissional que é, estava chateado por eu não ter conseguido resultados satisfatórios, me propunha que eu devolvesse os espelhos, e estes seriam trocados por um conjunto de espelhos para um Newtoniano de 180mm. Além disso, como a ótica do Mr. Magoo custa um pouco mais que a do Newtoniano, ele se dispôs a me devolver a diferença em dinheiro ou em equipamentos.

Fiquei muito admirado com a honestidade e o caráter do Sebastião. Se as pessoas se portassem sempre desta forma, certamente, o mundo seria melhor.

Aceitei a oferta, e a diferença será transformada numa ocular. Fiquei de levar os espelhos até a casa dele no domingo e receberei a ótica do Newtoniano em 30 dias, aproximadamente.

Assim, esta noite foi dedicada à minha última observação com o Mr. Magoo. A Lua estava enorme, e fiquei olhando, com uma pontinha de tristeza, as crateras, vales, platôs e mares do nosso satélite, como quem, da murada de um navio, olha pela última vez para a terra da qual está definitivamente emigrando.

Nem fiz uma última tentativa de colimação. Aceitei o velho Magoo do jeito que ele era: a imagem meio embaçada, fora de foco. A cada movimento do tubo, pequenos saltos causados pela minha inexperiência em construir um telescópio. Para o próximo, certamente farei melhorias que resultarão em movimentos mais suaves. O foco, por falta de um focalizador de cremalheira, também era feito aos solavancos. E isso sempre me irritou.

Assim, o Mr Magoo eu eu fizemos nossa última viajem juntos. Olhamos, além da Lua, Órion, Saturno, Júpiter e depois nos perdemos por um mar de pequenos pontos brilhantes que, além de belos, possivelmente, escondem mistérios  sobre os quais eu jamais terei conhecimento.

Depois de algum tempo, acendi o holofote que ilumina a piscina e fiquei olhando para o tubo azul. Lembrei como foi emocionante a compra daquele pedaço de cano de esgoto que, depois, seria pintado com uma grande dose de carinho e dedicação. Olhei para a montagem pintada de preto, à qual dediquei tantas horas na tentativa de deixá-la o mais lisa possível com lixas de infinitas granulações. Lembrei do momento em que colei os espelhos no suporte (que pânico eu senti naquela hora...).

Depois raciocinei que não era razoável este sentimento de separação. Afinal eu estava falando de um objeto. Assim, o meu sentimentalismo não tinha razão de ser: eu estava lidando com pedaços de cano, vidro e madeira. Então, o melhor a fazer seria ir dormir.

Na manhã seguinte, apressei-me em desmontar os espelhos do interior do tubo. É absurdo, mas me senti como um cirurgião que inicia uma cirurgia tendo a certeza de que o paciente não sobreviverá. Por um momento, tive vontade de parar de soltar todos aqueles parafusos e guardar o meu Magoo, nem que fosse de lembrança.

Mas a parte fria de minha personalidade venceu: retirei o espelho primário e depois o secundário que, aliás, me pareceu bastante oxidado - seria esta a causa da "miopia do Mr. Magoo? Será que aquela ótica, na verdade era perfeita e o secundário é que estava oxidado? Mas agora era tarde: a decisão já estava tomada. Embrulhei cuidadosamente os espelhos e voltei a São Paulo.

Fui até a casa do Sebastião e lhe entreguei o coração, digo, os espelhos do meu amigo Mr. Magoo.

Esforcei-me para pensar que agora estaria entrando numa nova fase: iria começar tudo de novo, mas desta vez já tendo alguma experiência do assunto. Tentaria não cometer certos erros que cometi.

É estranho como a gente se apega a certos objetos, não? Fiquei pensando nisso e cheguei à conclusão que, no fundo, não há nada de errado nisso, pois atrás do objeto existe uma história. E essa história envolveu sentimentos de alegria e frustração. O Mr. Magoo foi minha criação. Me dediquei à sua construção com amor. Adorei fazer aquilo tudo: desde ir à procura de um pedaço de cano junto com meu filho, comprar parafusos dos tamanhos mais variados (ainda tenho parafusos para os próximos cem anos), as infinitas demãos de tinta... Foi divertido. Me senti orgulhoso por ter conseguido terminar sua construção.

Guardei o esqueleto sem coração do primeiro telescópio que construí, pois não tenho coragem de jogar fora. Está lá no quarto do fundo, ocupando um espaço incrível. Fiquei indiferente aos protestos da Silvia: o máximo que ela conseguiu foi que eu prometesse levar o que sobrou do meu amigo para o sítio e deixasse ele por lá.

Adeus, Mr. Magoo. Foi legal. Você me trouxe muitos momentos bons. Foi parte da minha história como Astrônomo Amador. Aprendi muito com você. Obrigado. Valeu !