01de fevereiro de 2003

Esta página do meu diário foi feita com o intuito de registrar mais um fato histórico que ocorreu nesta data, relacionado à Astronomia: a explosão da nave Columbia. É claro que a maior parte das pessoas ouviu e viu nos meios de comunicação,  até a exaustão, tudo relacionado com o tema. Mas, acho que será interessante registrar o fato no diário pois, quem sabe, se o diário ainda existir dentro de alguns anos, poderá ser interessante ler sobre o fato.

Para mim, a coisa toda começo no sábado, quando abri meu e-mail: havia a seguinte mensagem enviada à lista de discussão sobre Astronomia do CASP, assinada por superbozo 182:

Vocês viram, agora são 12:44 e a NASA perdeu contato com
o Columbia desde o meio dia!! na CNN está passando umas
imagens estranhas, parece de quando a MIR entrou na
atmosfera....

Logo entrei no site da CNN (e em muitos outros) e lá estava a confirmação: a Columbia havia explodido. Tentei, nestes dias reunir algum material sobre o assunto e fazer o resumo que se segue:

O Ônibus Espacial Columbia, na missão denominada STS-107, foi lançado em 16 de janeiro às 10h39 locais (13h39 em Brasília). A missão deveria durar 15 dias, 22 horas e 17 minutos, tendo o pouso sido planejado para 1º de fevereiro às 9h16 locais (12h16 em Brasília) no Kennedy Space Center, Flórida.

Após 80 segundos do lançamento, alguns fragmentos, possivelmente da espuma isolante que revestia o tanque externo de combustível, se desprenderam e atingiram a asa esquerda, e podem ter danificado uma (ou mais) das 24.000 pastilhas de cerâmica que protegem sua "barriga" do calor incandescente no processo de reentrada na atmosfera. Foi a segunda vez que isto ocorreu: no último vôo do ônibus espacial Atlantis, em outubro de 2.002, um fragmento semelhante atingiu a "saia"de proteção dos foguetes da nave. O dano foi considerado superficial, mas era visível quando a Atlantis retornou à Terra.

Mas, astronautas convocados para estudar o incidente ressaltaram que a espuma que recobre o tanque externo é muito fofa e apenas causa um arranhão inofensivo, mesmo quando atinge uma das janelas do ônibus espacial. Esta afirmação foi desmentida no dia seguinte: parece que a tal espuma é dura como um tijolo.

Uma imagem do ocorrido (divulgada pela CNN) pode ser visualizada a seguir:

O primeiro vôo da Columbia ocorreu em 1981. Ele era o primeiro ônibus da frota da Nasa (que inclui o Discovery, O Atlantis e o Endeavour). O Columbia marcou o inicio da era de espaçonaves com asas. Era o seu 28º vôo e 113º do programa de ônibus espaciais como um todo. Alguns atribuíram o acidente ao longo uso da espaçonave. Porém, a NASA diz que a nave foi projetada para cem vôos.

O ônibus espacial media 17,27 m. de altura por 23,79 metros de envergadura - medidas parecidas com as de um Boeing 737. Sua velocidade orbital era de 28.325 Km/h, e a de pouso de 341 a 363 Km/h. Obviamente, era uma nave de uma complexidade absurda: além dos 24.000 blocos de cerâmica térmicos, havia uma rede de 1.600 válvulas hidráulicas, além de 30.000 metros de cabos condutores e fibras ópticas.

Fiquei imaginando que, diante de tamanha complexidade, as possibilidades matemáticas de algo sair errado, provavelmente não eram iguais a zero. E acho que os astronautas que a tripulavam estavam conscientes disso. Mas, movidos por algum impulso muito forte, aceitaram arriscar suas próprias vidas e realizar o vôo.Esta tripulação era composta por sete pessoas:

  Rick Husband,comandante da missão. Tinha 45 anos, participou em 1999 de um vôo espacial da nave Discovery, cuja tripulação fez o primeiro acoplamento com a Estação Espacial Internacional (ISS). Casado e pai de dois filhos, Husband era graduado em engenharia mecânica pela Universidade da Califórnia e havia sido selecionado pela Nasa em dezembro de 1994, após quatro tentativas. Também formavam a tripulação os americanos William McCool (41 anos), comandante da Marinha, em sua primeira missão espacial. Tinha grande experiência como piloto de aviões militares. Michael Anderson (43 anos), coronel da Força Aérea dos EUA, casado, foi escolhido entre uma série de astronautas negros.Quatro anos antes havia ido até a extinta estação MIR. Era responsável pelas experiências científicas da missão. McCool e Anderson eram o co-piloto e o comandante de carga, respectivamente. Dois dos especialistas em experimentos a bordo - os americanos David Brown, e Laurel Clark, eram médicos. Brown tinha 46 anos e, além de médico era piloto.Era solteiro. Laurel Clark tinha 41 anos e era Comandante da Marinha (oficial médica). Especialista em mergulho, havia participado em  várias atividades como treinamento de resgates em submarinos. Era casada e tinha um filho. Além da participação destes cinco americanos, a missão também contava com dois astronautas estrangeiros: o israelense Ilan Ramon e a americana de origem indiana Kalpana Chawla. Ramon, com 48 anos, era Coronel da Força Aérea em Israel - foi o primeiro astronauta israelense. Pilotou um dos oito caças F-16 responsáveis pelo devastador ataque ao reator atômico construído pelos franceses em Osirak, perto de Bagdá. O piloto mudou-se com a esposa e quatro filhos para o Texas em 1998. A presença de um israelense na missão, levou os americanos a cercarem o lançamento do Columbia de medidas inéditas de segurança. Levou no vôo uma simbólica cópia da "Torá", apesar de não ser um homem religioso. Levou, também, um pequeno desenho intitulado "Paisagem Lunar" feito por um garoto judeu de 14 anos, Peter Ginz, morto em Auschwitz. A primeira astronauta americano-indiana, Kalpana Chawla, 41 anos,  começou seus estudos em Karnal, na Índia, onde nasceu, e posteriormente estudou engenharia aeronáutica na Universidade do Punjab, antes de emigrar para os Estados Unidos, onde realizou mestrado na Universidade do Texas em 1984. Doutorou-se na Universidade do Colorado e começou a trabalhar no estudo da dinâmica dos fluidos no Ames Research Center da Nasa em 1988. Pilotou vôos comerciais. Em 1997, passou 376 horas no espaço. Na ocasião cometeu alguns erros que levaram o satélite Spartan a ficar fora de controle: o satélite foi liberado no espaço, mas deixou de emitir sinais que seus sistemas estavam funcionando. Kalpana tentou recuperar o Spartan com o braço mecânico da nave. Errou a manobra e o satélite ficou girando lentamente no espaço. Dois astronautas tiveram de deixar o Columbia para levar o equipamento de volta a bordo. O tempo perdido forçou os membros da missão a abandonarem diversos experimentos científicos importantes para orientar a construção da Estação Espacial Internacional.

Impossível, para mim, não pensar o que aquelas pessoas sentiram no momento da explosão. Imagino que tenha sido uma dor imensa, que atingia cada milímetro de seus corpos, cuja presença foi "entendida" por seus cérebros por uma pequena fração de segundo. Mas um segundo, às vezes, dura uma eternidade... Seus corpos simplesmente explodiram como as outras partes da nave, e espalhados entre os estados da Louisiana e do Texas, num raio de centenas de quilômetros.

Mas eles sabiam dos riscos que corriam. Entretanto decidiram aceitar estes riscos. E para quê?

Imagino que haja muitas respostas a esta questão. Ver a Terra do espaço, certamente é uma emoção indescritível. Deve ser belíssimo. Flutuar sem a força da gravidade, deve ser fantástico. E deve ser muito gratificante se ter a consciência de que se está fazendo parte de um momento importante da história da Terra.

Deve ser ótimo saber que as experiências levadas a cabo no interior daquela velha nave, ajudarão a salvar vidas, a diminuir a dor. Mas, que experiências eram estas? Havia testes sobre o aquecimento global, sobre as tempestades de pó na região do Mediterrâneo e sua influência no clima das regiões vizinhas. 

Um texto da internet dizia: "testes científicos sobre o funcionamento do coração e dos pulmões num ambiente de microgravidade, sobre a maneira como o câncer de próstata se estende às células ósseas e como estas células respondem nestas condições. Entre os experimentos, 12 tinham sido propostos por estudantes, um dos quais estudou o ciclo de vida dos vermes da seda durante um vôo espacial. Na última quinta-feira, as câmeras da nave captaram imagens sobre o Brasil, que comprovariam a hipótese de que os incêndios contribuem para a alteração do clima global. As imagens mostram uma esteira de fumaça que surge de um incêndio nas selvas amazônicas. Segundo o cientista israelense Joachim Joseph, que participa do controle dos experimentos, essas imagens mostram que a fumaça dissipa as nuvens e permite que o Sol ilumine a região com mais força. "Fizemos uma passada por essas selvas e, Eureka!, conseguimos a confirmação de uma hipótese", disse. De acordo com Joseph, as fotografias do incêndio florestal ajudarão tanto o Brasil quanto a Nasa a estudar com maior profundidade o efeito que esse tipo de acidente tem sobre a atmosfera. "Se isto ocorre no mundo todo, em todas as latitudes, se as nuvens fazem isto (se dissipar), então trata-se de um fator que é preciso levar em consideração, quando tivermos um modelo climático e estudarmos o efeito estufa", disse. Antes de iniciar as manobras de retorno à atmosfera, os astronautas tinham feito os últimos testes de seu sangue, urina e saliva para estudos da fisiologia humana".

A indústria farmacêutica de todo o mundo têm ensaiado a bordo dos ônibus espaciais o crescimento de cristais de proteínas diversas, que crescem com maior pureza no ambiente espacial, livres das microvibrações sísmicas e da pressão gravitacional. Também a separação integral das substâncias de caráter plasmático é realizada em pequenos laboratórios nas naves. O conhecimento desse mecanismo pode levar a um tratamento efetivo para doenças metabólicas. A terapia do diabetes é a mais provável beneficiada pelo novo conhecimento que permitiria sintetizar insulina de alta pureza. A nave Columbia levava um kit desse experimento.

Apenas parte dos experimentos foi perdida, pois muitas informações já haviam sido enviados a Terra.

Deve ser maravilhoso olhar pela escotilha e ver as estrelas que se destacam como faróis contra um fundo completamente escuro.

Mas, algo falhou. Até o momento, só existem hipóteses, que passam pela espuma do tanque atingindo a asa; a colisão com um meteorito ou outro pequeno objeto espacial; uma explosão de combustível ou oxidantes, que são mantidos sob alta pressão; um colapso na estrutura da nave (afinal ela tinha 22 anos); um erro de navegação no processo de reentrada, talvez causado pelo computador de bordo; ou a sabotagem por parte de um técnico de solo.

Um cronograma dos acontecimentos foi divulgado na internet:

Às 7h53 (10h53, na hora de Brasília), cerca de 15 minutos antes da hora de pouso programada, a temperatura dentro da roda esquerda do Columbia começou a crescer anormalmente.

Na mesma hora, os sinais dos 11 sensores de temperatura , cuja fiação atravessa a fuselagem em torno do trem de pouso, são perdidos.

A esta altura, a Columbia sobrevoava o oeste da Califórnia, e um cientista da CalTech diz ter visto uma nuvem de destroços cair do ônibus espacial.

A Nasa acredita que isso seja importante, o Columbia poderia estar soltando as placas de isolamento térmico.

Às 7h54, sensores apontam um aumento na temperatura na fuselagem do Columbia sob as placas de isolamento de calor acima da asa esquerda.

Às 7h58, o piloto automático da nave descobre um problema ao começar a compensar um ligeiro aumento na resistência ao ar do lado esquerdo do Columbia.

O maior arrasto indica que as placas de isolamento de calor estavam danificadas ou tinham se descolado.

A esta altura, o piloto do Columbia já teria se dado conta de que o piloto automático estava acertando a trajetória da nave. A Nasa diz que a tripulação não teria se preocupado à toa.

Enquanto o piloto automático corrigia a rota, outros sensores dentro da roda esquerda começam a falhar.

Um minuto depois, às 7h59, o problema do arrasto aumenta significativamente, forçando o piloto automático a aumentar o fator de correção, mais do que em qualquer outro momento durante o vôo da nave.

Passado outro minuto, às 8h, a comunicação de voz com o Columbia se perde. Segundos depois, a nave explode.

A explosão ocorreu a 220.000 pés de altitude (63.000 metros), enquanto a velocidade do Columbia era de 21.000 Km. por hora (várias vezes a velocidade do som). A temperatura da fuselagem chegava a 1600 graus, devido ao atrito entre a nave e a atmosfera. E esta explosão, como dissemos, espalhou uma quantidade imensa de destroços por uma área igualmente imensa.

Naturalmente, as autoridades americanas se apressaram em divulgar a informação que esta "sucata" representava enorme perigo para quem tivesse contato com suas partes. Falou-se em materiais tóxicos e cáusticos. Falou-se que a mistura do Oxigênio e do Nitrogênio líquidos presentes nos tanques da nave, ao reagirem, formariam Óxido Nitroso, que seria fatal, se inalado. 

Achei esta informação, no mínimo engraçada, pois eu estou sonhando em adquirir um equipamento para o meu consultório que produz a chamada "sedação consciente", que consiste num aparelho, com um preço estupidamente alto, dotado de uma máscara nasal que faz com que o paciente respire um gás que o deixa, digamos... "em alfa"... Isso permite que os pacientes que tem medo de tratamentos dentários possam enfrentá-los de maneira totalmente tranqüila. Não é um anestésico: o paciente continua acordado, mas com uma impressão de que o que está sendo feito em sua boca não é com ele. Este gás, também conhecido como gás hilariante, nada mais é que... Adivinhem: Óxido Nitroso...

É claro que as partes devam ser recuperadas para que se tente entender o que aconteceu, afinal não havia uma "caixa preta" no Columbia (estranho isso, não?). Mas meia hora após o acidente já havia, nos sites de leilões da internet, pedaços da nave à venda pela melhor oferta.

A transcrição do último contato que o Controle da Missão em Houston manteve com a tripulação da nave Columbia antes que a nave se desintegrasse é a seguinte:

Controle da Missão: "Columbia, (aqui) Houston. Vimos as mensagens sobre a pressão dos pneus e não recebemos a última". Columbia: "De acordo... eh"....(e neste momento a transmissão se corta depois que um dos astronautas começa a dizer algo ininteligível).

A imagem num radar, no momento da explosão, foi uma das imagens que chocaram a todos:

A mancha verde corresponde à explosão.

A imagem que se viu da terra foi captada por um fotógrafo amador, e amplamente divulgada:

O presidente norte-americano, George W. Bush, que tem em seus planos atacar o Iraque de Sadam Hussein, além da Coréia do Norte, e cuja popularidade fora dos EUA tem caído da mesma forma que caiu a Columbia, naturalmente apressou-se em fazer uma declaração lembrando o espírito cívico e afirmando que o programa espacial não iria parar, além de prometer investigações aprofundadas sobre as causas do acidente.

Enquanto isso, muçulmanos extremistas vêem "um sinal de Deus"no acidente do Columbia.

Nosso Presidente, Lula, recém-empossado, enviou mensagens aos governos dos EUA, Israel e Índia.

Alguns estudiosos do assunto defenderam suas teses de que tais vôos não deveriam transportar seres humanos: apenas máquinas que se encarregariam de todas as experiências científicas, o que seria, além de tudo, mais econômico (mas eu, pessoalmente, acho que sem os olhos de um ser humano para presenciarem tudo, a coisa perde todo o encanto). 

Entretanto, nós - os Astrônomos Amadores-, ficamos tristes pois, além das sete vidas que se perderam há,  em cada satélite, em cada estação espacial, em cada "Hubble", em cada escotilha de cada nave, um olhar nosso. Nós pertencemos à exploração do espaço, como ela nos pertence. Daí a importância deste registro em meu diário.

Entre os astronautas e os Astrônomos, há um quê de cumplicidade; de coleguismo, mesmo que a maior parte de nós jamais tenha conhecido um astronauta. É como se pertencêssemos ao mesmo time, pois como eles, muitos de nós, um dia, talvez no meio da infância, também  sonhamos em ser astronautas. Por isso, estamos tristes e solidários com cada pessoa envolvida na missão.

Todos sabemos que para explorar o universo, será necessário correr riscos. Mais vidas se perderão. Certamente haverá mais dor. Mas entendemos que o progresso tem um preço. E, como os sete colegas, estamos dispostos a correr os riscos e, se for necessário, a pagar o preço.