26de dezembro de 2002
Tenho andado meio sumido, bem sei. Justificativas não faltam: trabalho, cansaço, tempo ruim... O que tenho feito nestes quase dois meses? Para resumir, tenho levado a vida. Tudo normal. Coisas boas, coisas ruins. Suor. Suor de trabalho. Suor de verão. Chuva. Muita chuva. E o Sol, indiferente a mim, subiu e baixou muitas vezes.
Os planetas seguiram seu curso no céu, novas estrelas surgiram. E eu não testemunhei estes milagres da natureza (ou de Deus?). Estava ocupado com coisas importantes. E com coisas "importantes".
Mas, o que importa, senhoras e senhores, é que vos falo, novamente, diretamente de nossos "estúdios" do meio do mato. Do meio do nada e do tudo. Do meio da natureza que inspira e faz respirar, fazendo com que eu me sinta mais vivo. Uma vida onde o tempo segue aquelas teorias quânticas que admitem que o tempo vá e volte, sem se importar com a nossa lógica cartesiana (sou um fã ardoroso da mecânica quântica, pois ela admite imaginar o inimaginável).
Por estas bandas, a importância do tempo é relegada a um degrau bem baixo.
Voltando um pouco no tempo: o Luiz Renato e eu fomos algumas vezes à sua casa em Jundiaí. Os guardas da guarita do condomínio já deviam estar fazendo comentários maldosos a respeito "daqueles dois" que vem e, após algumas horas, pedem uma pizza meia calabresa e meia quatro queijos, e depois vão embora... Sempre à noite. Sempre indo embora com cara de quem andou se cansando muito nas últimas horas...
A verdade é que temos perseguido imagens de nebulosas e galáxias com uma teimosia digna de dois burros empacados. Mas ainda não conseguimos registrar a imagem dos nossos sonhos, apesar de termos queimado uma montanha de fotografias. Ainda não.
Descobrimos ruas escuras no condomínio, ideais para nossas observações. Estacionamos o carro e montamos toda a tralha. Um suplemento de castanhas de caju, amendoins e guaraná ajudam a enfrentar nossas frustradas buscas pelas imagens ideais.
Certa noite, lá pelas altas, chegaram os seguranças num carro dotado de incríveis faróis que nos cegavam. Após muitas explicações, o comentário de um dos seguranças, todo vestido de preto e, discretamente, armado até os dentes, ao observar Saturno e seus anéis, pela ocular do telescópio foi: "Mas é chique! Chique no úrtimo!"
Depois disso, acho que nosso conceito no condomínio mudou. Notei que nossa masculinidade não era mais colocada em dúvida. E que a equipe toda de segurança não via a hora de descobrir em que canto escuro do condomínio nos escondíamos para eles também darem uma "bicadinha" no céu.
Já na chácara, as coisas mudaram. O Mauro, inesperadamente se demitiu. Arrumou um emprego numa serraria próxima à Castelo Branco, com direito a assistência médica e um salário maior. Um lugar mais "civilizado". Ao lado da igreja evangélica (mas do outro lado tem um bar).
Na nossa última conversa, entendi que, na verdade, ele não queria ir embora. Mas sua esposa o obrigou a ir. Ir para um lugar com mais gente, com mais movimento. Mais central.
Cá entre nós, e que a Luciene não nos ouça, o Mauro estava revoltado por ter de fazer a vontade da esposa.
Ficamos sabendo que, passados 15 dias da mudança, as coisas não andam muito bem para eles: o bom Mauro (que também é meu afiliado) se entregou à cachaça. Tem passado algumas noites numa casa suspeita. Suspeita, não: é um prostíbulo mesmo. Parece, inclusive, que a veia empresarial do moço deu os ares da graça e ele quis tomar parte ativamente no empreendimento como sócio. Só lhe faltou o capital.
A Luciene tem sido vista chorando pelos cantos. Acho que fizeram uma escolha errada. Senti por eles. Mas a decisão foi deles e nós não tínhamos como segurá-los na chácara, apesar de todos sabermos que aqui eles eram felizes.
Seus substitutos são uma tranqüila família cujo chefe inconteste é a Fátima. Boa cozinheira e, segundo me disseram, especialista em preparar aperitivos exóticos. O marido, Osvaldo, e os filhos (dois garotos: um de 12 e outro de 17), pouco tem dado as caras. Mas à noite pudemos ouvir sons de violinos e da bombardina (acho que este é um tipo de trombone) vindos de sua casa. Eles, como o Mauro, são evangélicos e tocam na igreja. A Fátima canta o dia todo.
Assim, temos de enfrentar um novo período de adaptação à nova família. E eles a nós.
27de dezembro de 2002
Ontem à noite o céu ficou totalmente nublado. O dia de hoje foi passado entre a piscina, as caipirinhas, um almoço rural (arroz, feijão, bife à milanesa e purê de batatas), um livro daqueles sem importância, perfeito para uns dias de férias, a dormidinha de depois do almoço e uma volta em Itú.
Durante a manhã (na verdade eram quase duas da tarde - é que eu acordei às 11), tentei ver as manchas solares com o Mr. Magoo. Projetei a imagem sobre uma folha de papel branco e pude ver duas manchas solares: uma circular, bem forte e evidente e outra mais tênue, em forma de "8". Usei as oculares de 25 mm e a de 4 mm. Ao retirar as oculares notei um brilho oleoso na parte plástica que circunda as lentes. O brilho nada mais era que o plástico que havia derretido.
Assim, aprendi mais uma: além do perigo para os olhos, a observação do Sol, derrete as partes plásticas do telescópio, além de elevar incrivelmente a temperatura das partes de metal que transferem seu calor às partes de vidro, podendo estragar irremediavelmente todo o telescópio.

Interior da ocular derretida pelo Sol
À noite, não havia uma única nuvem no céu, que estava incrivelmente bonito. Mas o vento fazia com que os telescópios pulassem como cabritos (sim: desta vez resolvi usar o Tasco e o Mr. Magoo, além de um binóculo que ganhei no Natal).
O binóculo, apesar de ser de uma qualidade que não é das melhores, ajudou muitíssimo. Inicialmente eu localizava o que queria ver com o binóculo. Depois passava para o Tasco de 60 mm e, por fim, ao Mr. Magoo de 180 mm., vendo progressivamente imagens cada vez mais detalhadas. É um sistema muito bom. Mas o vento não permitiu que eu visse bem as imagens. Tudo pulava de um lado para o outro e eu cheguei a temer que os telescópios fossem derrubados pela ventania. Assim, desisti do céu e me abriguei no aconchegante calor da casa, ao som de um concerto de oboé .
28de dezembro de 2002
Durante a manhã peguei o livro "Manual do Astrônomo Amador" de Jean Nicolini. Tentei entender alguns fatos, principalmente no que se refere às montagens. Pois há a montagem equatorial, a azimutal, a standard, a germânica, a de berço, a inglesa, a de forca, a dobsoniana (que eu imagino ser a do Mr. Magoo), além de outras.
Na realidade o texto não é claro e eu fiquei na mesma, ou seja, não sei qual montagem é qual.
Já à noite, apesar de não ter observado nada de muito especial, consegui uma grande vitória: entendi como funciona a montagem do Tasco (que eu creio ser a equatorial germânica).
Não vou usar termos técnico como ascensão, eixo polar, meridianos celestes, etc. A coisa funciona assim: a montagem permite que o tubo do telescópio gire para todas as direções do céu. Mas, basicamente há três direções ou planos de movimentação importantes:
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O plano vertical. É aquele que, conforme definido pela minha santa ignorância, permite mover o tubo do telescópio para cima e para baixo. |
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O plano horizontal. permite mover o tubo para a direita e para a esquerda. |
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O plano da latitude. Aí complicou, né? |
Para entender este eixo, acredito ser mais fácil observar a figura abaixo (copiada do site de Sebastião Santiago Filho):
Note que este telescópio está apoiado sobre uma base inclinada e não horizontal (que seria mais lógica, à primeira vista). Qual a vantagem desta inclinação? A resposta é que se quisermos acompanhar o movimento de um astro qualquer, ajustando apenas o controle relativo ao plano vertical ( e não tendo de ajustar sempre os dois planos - vertical e horizontal - ), o tubo do telescópio deverá estar inclinado numa determinada angulação.
E que angulo é este? É o angulo relativo à latitude do local de onde se está fazendo a observação. No meu caso, a latitude da cidade de Itu é de, aproximadamente, 23 graus.
Mas o Tasco não é tão simples quanto o desenho acima. Aliás, nenhuma montagem germânica comercializada é tão simples. Nas imagens abaixo está mostrada a seqüência de passos que usei para alinhar o telescópio:
1. O Telescópio está com todos os seus ângulos zerados( está com zero graus no sentido vertical e zero graus no horizontal).

Mas para que direção ele está virado? Ele esta virado para o leste menos a declinação magnética.
Lembrando a tal declinação magnética: a bússola não aponta para o norte real (também chamado de norte geográfico): ela aponta para o norte magnético. Existe uma diferença de alguns graus entre o norte verdadeiro e o norte indicado pela bússola. Em cada local do planeta este valor é diferente. E a cada ano, ele vai se modificando lentamente.

Carta com as declinações magnéticas. Note que há locais em que a declinação chega a mais de 60º
Assim, para a cidade de São Paulo, no ano de 2.002, a declinação magnética é de algo em torno de 15 graus a menos. Portanto, em São Paulo, em 2.002, para se saber onde está o norte real, a bússola deverá apontar não para zero graus (ou 360º), mas para 360 - 15, ou seja 345º. É o que mostra a imagem a seguir, na qual o tubo do telescópio está voltado para o LESTE REAL.

2. Ajusta-se, agora, o ângulo relativo à latitude do local de onde se está fazendo a observação. A latitude da cidade de Itú, é de, aproximadamente 23 graus. Assim, solta-se o parafuso que prende "a latitude" do telescópio, inclina-se o tubo até 23 graus e aperta-se bem o parafuso. Todos os ângulos são aproximados, pois este equipamento tem um nível de exatidão relativamente baixo. Portanto, é impossível ajustar os ângulos com 100% de perfeição. As imagens a seguir mostram o ajuste da inclinação "da latitude" do tubo:


Pronto! O telescópio está alinhado.
Este procedimento foi deduzido após a leitura de um numero incrível de textos dos quais eu não entendi grande coisa. Assim, decidi testar a teoria "ao vivo". Fui virando o telescópio em várias direções até achar uma em que eu pudesse acompanhar o movimento de qualquer estrela ou planeta apenas ajustando a alavanca da altitude.
É claro que o resultado inicial não foi perfeito: após uns três ou quatro minutos acompanhando uma estrela, era sempre necessário um pequeno ajuste no sentido horizontal. Isto me fez concluir que havia um pequeníssimo erro nas angulações. O problema foi resolvido com um minúsculo empurrãozinho para a esquerda no tripé do telescópio, que colocou todo o conjunto na direção exata.
Com isso, pude acompanhar,por exemplo, a M-42 movendo apenas uma alavanca, até ficar cansado de olhar para ela.
O teste final foi feito com Júpiter. Após centralizar sua imagem, fui tomar uma café dentro de casa. Fiquei lá uns 15 minutos. Então voltei, olhei pela ocular e comecei a girar o controle da altitude lentamente, sem tocar no controle horizontal. Na mosca! Lá estava Júpiter (com quatro de suas luas visíveis) perfeitamente no centro da ocular.
A utilidade de tudo isso ficou bem evidente quando troquei a ocular de 25 mm (que fornece um grande campo de visão) pela de 4 mm. Normalmente, observar um planeta com a ocular de 4 mm é um trabalhinho bastante irritante, pois o planeta foge em poucos segundo e aí a gente fica mais tempo procurando o danado que observando o planeta propriamente dito. Com este alinhamento, ficou facílimo acompanhar Júpiter pois, se em algum momento eu o perdia de vista (por exemplo quando o Théo latia no escuro e eu queria ver o motivo de seus latidos), era fácil apenas girar o controle da inclinação vertical e reencontrar meu planetinha vagando pelo espaço.
Sei que este texto poderá levar os astrônomos mais experientes a um profundo estado de indignação, tal o nível de amadorismo e imprecisão técnica que adotei. Mas a idéia era exatamente esta: tornar a coisa simples, de modo que qualquer pessoa, seja ela uma dona de casa, um advogado, um contador, um caseiro ou um dentista, pudesse entender e usar, na prática, um princípio teórico que é descrito nos textos técnicos de uma forma muito complicada e incompreensível aos leigos como eu. Mesmo que o resultado não seja perfeito (mas seja aceitável). Portanto, peço humildes desculpas a quem se sentir ultrajado. Mas eu sempre defendi que o conhecimento científico deva ser democrático e acessível. A ciência deve ser de todos. Não de uns poucos privilegiados.
O Mr. Magoo passou por uma nova sessão de colimação. Impossível. As imagens não são nítidas. Parece que não consigo acertar o foco. Já tinha tentado, há uns tempos, usar um laser-point para m ajudar na colimação, mas não foi de grande ajuda. Agora encontrei uma página na internet muito interessante que descreve o processo de colimação com a ajuda do laser. O endereço é: http://planeta.terra.com.br/lazer/zeca/pratica/colimador-laser.htm Naturalmente ( e como sempre) a colimação se refere a NEWTONIANOS. Cassegrains nunca...
E por falar em Mr. Magoo, recebi um e-mail do conhecido construtor de telescópios Dario Pires, no qual ele pergunta se o meu telescópio é um Cassegrain, ou um Dall-Kirkham, que seria uma simplificação do Cassegrain. No e-mail há a explicação das diferenças entre um outro. São diferenças técnicas referentes à parte óptica, muito complexas para os meus limitadíssimos conhecimentos de óptica: "...o Dall-Kirkham é uma simplificação do projeto cassegrain clássico e que a óptica é muito mais simples de se confeccionar, mas se paga um preço altíssimo por isso, ( curvatura de campo, astigmatismo e coma 12 vezes mais... pois o espelho primário não é um parabolóide e sim um prolate ellipsoid, secundário convexo esférico...".Após estudar o assunto e trocar alguns e-mails, recebi a confirmação: tenho um Dall-Kirkham, e não um Cassegrain. Maiores explicações podem ser encontradas no site: www.atmpage.com/design/dall.html .
30 de dezembro de 2002
Planejei uma noitada astronômica, com direito a micro e música de fundo, pois estava calor e o vento havia se acalmado. Júpiter, Saturno e Órion presentes à minha festinha particular prometiam uma noite inesquecível.
No micro a web-cam pronta para gravar imagens fantásticas, pelo menos dos plantas que são mais luminosos.
Mas minha mulher, querendo ser gentil, convidou os filhos do caseiro para verem o céu junto comigo. Isso me lembrou um ditado que falava qualquer coisa a ver com fazer caridade com o bolso alheio... (no caso, telescópio alheio).
Para dizer a verdade, fiquei furioso: eu queria paz e um pouquinho de solidão para ver o céu. Mas lá estavam os dois garotos. E eu decidido a me livrar dos dois santinhos. Maquiavelicamente tracei um plano para me livrar dos convidados. Primeiro mostrei-lhes Júpiter e Saturno, com as respectivas explicações. Desculpei-me por não poder-lhes mostrar a Lua, pois estávamos em plena Lua nova. Comentei que já era tarde e que estava ficando com sono. Esperava que com esta frase, eles voltassem para sua casa e eu pudesse relaxar e fazer as coisas como eu havia planejado inicialmente.
Mas eles não estavam com sono. Continuaram olhando para minha cara com aquele jeito de "quero mais".
Mostrei a M-42. expliquei o que era aquela "nuvenzinha".
E eles continuavam sem sono. E esperando algo mais.
Então mostrei um enxame aberto. Depois um fechado.
O garoto menor pegou o binóculo e começou a encontrar coisas interessantes no céu. Aí ele pedia para vê-las no telescópio.
E assim o tempo foi passando e o feitiço virando contra o feiticeiro: eu REALMENTE estava ficando com sono.
Minha noite estava condenada a uma aula particular a dois alunos muito interessados.
Última tentativa: carreguei o "Sky Globe" no micro. A aula ia ser teórica (isso costuma dar sono).
E os santinhos adoraram o programa. Adoraram poder operar o micro com suas próprias mãozinhas...
A noite estava perdida. Meu cantinho mágico, ao lado da piscina foi transformado numa sala de aula.
Para terminar, minha querida esposa fez a gentileza de chamar o caseiro e sua digníssima consorte, para que eles também pudessem ter a oportunidade de ver as estrelas pelo telescópio
A santa mulher não parou de falar um minuto sobre as graças do criador que criou o céu e a Terra (e um monte de gente chata que não entende quando um homem quer um minutinho de paz consigo mesmo, um CD de musica tranqüila e um pedaço de céu para se olhar)...
A noite (para mim) estava perdida. Para eles, creio que não.
Fui dormir "bodeado", sabendo que amanhã à noite, o programa seria bem diferente de ver estrelas. Seria o fim de um novo ano. O começo de outro. Rojões, champagne, comida, abraços, beijos, promessas, planos...
A todos que me acompanharam até aqui, desejo um 2003 muito feliz. Que haja prosperidade com paz. Crescimento com harmonia. Alegria com felicidade. União com amor e fraternidade.
Que nós, habitantes deste pequeno planeta azul, possamos dar mais uma volta pelo espaço com a determinação de mudarmos tudo aquilo que houver de ruim e errado em nosso modo de viver. Espero que quando nosso planeta voltar a este mesmo ponto do espaço, só tenhamos coisas boas a lembrar.
Feliz ano novo!