1 de novembro de 2002

 

Sexta-feira, quatro horas da tarde chegamos à chácara. O céu me lembrava um "tórax". Isto quer dizer que havia faixas de nuvens brancas, umas paralelas às outras (como costelas), sob um lindíssimo céu azul. Havia chovido na quarta-feira, e esta chuva lavou as árvores, a grama, os bosques e os pastos, deixando tudo cheio de cores muito vivas tornando aquele cantinho do  mundo mais belo.

O Flamboyant defronte à piscina (que, por sinal, estava com a água rigorosamente cristalina), repleto de flores de um vermelho surreal, contra o pasto verde da fazenda vizinha e o céu azul com as nuvens brancas, compunham um quadro de uma beleza extraordinária que logo nos fez esquecer que São Paulo existe.

Não: não era uma paisagem surrealista: era um quadro impressionista, como aqueles de Manet ou de Renoir.

À noite ventava. Levei Mr. Magoo para fora. Fazia muito tempo que não nos encontrávamos mas, como sempre, nos entendemos bem: eu não pedi demais da parte dele e ele, submisso, ia me lembrando que o universo é muito mais que a realidade quotidiana. Quem não colaborava era o vento. Olhei o céu a esmo, sem tentar encontrar nada além da paz. Mas após uma horinha de céu e vento veio o frio. E eu resolvi que era hora de irmos para casa.

O dia seguinte, inspirado pelas lembrança do vento da noite anterior, me fez planejar, junto ao meu sogro, a construção de um observatório. Fazer planos é uma das nossas especialidades. A maior parte deles se perde no tempo e nas palavras mas, de vez em quando, algum plano mirabolante acaba por ser levado até o fim. Assim foi com a oficina: projeto meu, levado a cabo pelo nosso bom caseiro Mauro (que, quando necessário, é promovido à categoria de pedreiro, ou eletricista, ou encanador, ou arquiteto, engenheiro, amigo, mecânico, padre, veterinário...) e seus ajudantes.

Ficou linda a oficina. Passei muitas horas nela fabricando pequenos móveis, realizando consertos e, até mesmo, construindo o bom Mr. Magoo. Mas atualmente ela anda abandonada. As ferramentas foram, aos poucos, sendo levadas para outros lugares mas, em sua maior parte, foram perdidas ou emprestadas a algum vizinho que não se preocupou em devolvê-las.

Assim, a idéia de transformar a oficina em observatório não nos pareceu tão absurda. Bastaria que pudessemos conferir mobilidade ao telhado, possivelmente através de trilhos, sobre os quais se apoiaria o telhado. Consideramos também a hipótese de construir um observatório independente, em outro local da chácara. Pensamos até mesmo em fazer um observatório subterrâneo (desistimos pela possibilidade de inundações...). São planos. Apenas planos. Quem sabe, um dia...

No sábado, recebemos a visita de meu irmão e sua esposa, que vieram passar o resto do final-de-semana conosco. Segundo minha cunhada, meu irmão seria um excelente "chef" de cozinha, pois ele gosta muito de cozinhar. Mas teria de ser um "chef", pois ele adora dar ordens...

À noite, as nuvens desapareceram de vez. Não havia mais costelas. Havia, sim, um forno de barro cheio de brasas vermelhas, de onde saíram algumas pizzas muito saborosas.

Mas, antes do por-do- Sol, antevendo que minha esposa e minha cunhada se empenhariam numa interminável partida de "tranca", eu já havia montado o computador ao lado do Mr. Magoo e levado livros e cartas celestes para o meu observatório "ao ar livre".

O software Sky Globe foi testado com rigor. Uma bússola ajudou. E cheguei à conclusão que havia algumas leves diferenças entre o que eu via na tela do computador e a real posição dos astros. Talvez esta diferença se devesse ao fato que o software estava programado para observar o céu a partir da cidade de São Paulo e não das proximidades da cidade de Itú, que dista, em linha reta, uns 60 Km. de São Paulo. E, além disso, ele não leva em conta a altitude do local de observação.

Para ajustar o programa, foi necessário adiantar a hora do computador em uns 15 minutos. Desta forma a posição dos astros ficou bem parecida com a real.

Observei, novamente a M-6 e a M-7, na constelação de Escorpião. Depois, passei a procurar algo novo. A M-57 seria meu alvo se ela já não estivesse abaixo do horizonte. E porque a M-57? Acho que a foto abaixo explica porque eu queria observar esta belezinha:

Passei a procurar, então, a M-15, que é um enxame globular, cuja posição pode ser observada a seguir:

 

Segundo o livro de Guilherme de Almeida e Pedro Ré, a M-15, também conhecida como NGC 7078, possui uma magnitude 6,4, dimensões de 12,3'  e 120 anos-luz de diâmetro, e uma distância da Terra de 35.000 anos-luz da Terra. Ou seja aquela manchinha que parecia uma bolinha de algodão que eu observava em pleno 2002, na verdade era a imagem do que foi aquele aglomerado no ano 32.998 antes de Cristo.

Sabe Deus o que terá acontecido com a M-15 nesse tempo todo? Será que ele ainda existe? O que acontecia naquele pedaço de terra, hoje transformado em observatório de um astrônomo amador, no ano 32.998 a.C. ? Talvez algum animal extinto pastando ou caçando? Ou, talvez, um homenzinho pré-histórico tenha se deitado exatamente naquele lugar, olhando para um céu estrelado, ao lado da sua mulher de uma era pré-silicone que, cheia de boas intenções, planejava um final-de-noite especial, ao lado da fogueira que afastava os animais e aquecia-os do vento frio de uma Itú pré-histórica... 

Bem, seja lá o que tiver acontecido, eu posso dizer que foi bastante trabalhoso perseguir esta manchinha anuviada pelo céu, mais especificamente na constelação de Pegasus (Peg). Mas foi muito gostoso encontrá-la e comparar a imagem que eu via pelo meu telescópio com aquela do livro. 

Encontrei, no site da NASA, algumas imagens da dita-cuja:

 

A imagem que eu via era bem mais "nebulosa", mas bem concentrada e delimitada que a da primeira fotografia. Já a segunda fotografia, feita pelo telescópio espacial Hubble,  mostra pelas suas cores, as diferenças de temperatura entre os astros centrais do aglomerado - as estrelas mais quentes em azul e as mais frias em vermelho ou laranja. Ao que parece, no centro da M-15 pode haver um buraco negro ou algum objeto com muita massa.

M-15. - Isto quer dizer que estamos tratando do objeto numero 15 do catálogo Messier. Este catálogo, possui 110 objetos, numerados de 1 a 110, e foi elaborado por um sujeito chamado... Adivinhe: Messier. Mais exatamente Charles Messier, que criou uma lista de objetos brilhantes e interessantes do céu profundo. 

Charles Messier    

Messier nasceu em 26 de junho de 1730 na cidade de Badonville, na região de Lorrainne, na França. Foi o décimo de doze filhos (naquele tempo, as coisas eram diferentes, pois a televisão ainda não havia sido inventada...). Existem registros de suas primeiras observações aos 14 anos de idade. Suas observações incluíram o cometa Halley, diversos outros cometas (tendo inclusive descoberto alguns deles), planetas, eclipses e objetos do céu profundo. Acredita-se que a origem do famoso catálogo tenha sido em 3 de maio de 1764, com a observação do enxame globular hoje conhecido por M-3. A primeira versão do seu catálogo foi publicada em 1769. Uma segunda versão de seu catálogo foi publicada em 1783. Descreveu e localizou com exatidão centenas de objetos do céu profundo.Faleceu aos 87 anos de idade, em 11 (ou 12 ?) de abril de 1817.

Hoje o catálogo Messier, que é reproduzido abaixo, orienta os passos iniciais da maior parte dos Astrônomos Amadores, como eu. Existem as chamadas "Maratonas Messier", nas quais os participantes devem localizar o maior numero possível de objetos do catálogo num determinado espaço de tempo.

Na reprodução abaixo, o primeiro objeto, no alto, à esquerda é o M1, o vizinho do lado direito, o M2 e assim por diante. Cada linha possui 10 objetos, de forma que o ultimo objeto á direita da primeira linha é o M-10 e o primeiro objeto da segunda linha o M11.

É claro que existem milhares de outros objetos a serem observados, mas este é sempre um bom começo.

Durante minha observação da M15, enquanto tentava entender qual constelação era a que eu observava num determinado momento, não pude deixar de lembrar minhas primeiras observações a olho  nu dos céus de Itú. A única constelação da qual eu sabia o nome era o nosso Cruzeiro do Sul. Nem mesmo as chamadas "Três Marias" eu sabia onde ficavam (hoje sei que estão na região central da constelação de Órion). Assim, naquela época, após várias noites de contemplação, eu comecei a "batizar" as constelações com os nomes das imagens que meu cérebro formava ao ver os agrupamentos de estrelas.

Desta forma, as minhas três primeiras constelações foram: 

 A "Foice" -  na verdade era uma parte de Órion  - eu enxergava nitidamente uma foice .

A "Pipinha" -  eram as Plêiades, pois me lembravam uma pequena pipa.

O "Azão" - que seria uma enorme letra "A" - que, na verdade, é parte da constelação de Touro.

Soube que cada civilização adotou seus esquemas para "ler"o céu. Os antigos chineses, por exemplo, possuíam um mapa do céu com um numero incrível de constelações, algumas delas em vigor até hoje, mas que são estranhas à civilização ocidental. E eu, para dizer a verdade, acho que para se enxergar um Touro, por exemplo, alguém devia estar no mínimo totalmente bêbado. Creio ser impossível a uma pessoa sóbria ver Deuses gregos, dragões cães e outros bichos mais no céu. Haja imaginação...

Mas o céu é democrático: cada um vê o que quer. Apenas, por uma questão de organização e para facilitar a comunicação entre as pessoas, talvez seja realmente melhor deixarmos as coisas como estão. Apesar de eu não concordar totalmente com todas elas. Continuo acreditando que a Foice e o Azão eram bem melhores que Órion ou um touro...