21 de setembro de 2002

 

Sexta-feira no final da tarde, saímos para o sítio. Duas horas de marginal! 

Vou repetir: duas horas de marginal, respirando a fumaça dos caminhões, sob uma chuvinha fria. No carro, silêncio. Acho que todos estávamos meio estressados. O Théo tremia, não sei se de frio ou se de medo. Ele ainda não pode sair à rua, pois ainda não tomou todas as doses das vacinas. Assim, tudo, para ele, é novo. Tudo o faz tremer. Mas devo admitir que nosso relacionamento tem se tornado mais cordial: quando ele me vê, deita no chão, de barriga para cima e fica fazendo uma espécie de "dança do ventre". Encaro isso como uma tentativa de aproximação. Um sinal de que ele quer ser meu amigo. 

Da janela do carro, eu via ao meu lado as águas do rio Tietê, que passavam rápidas. O rio estava bastante cheio, devido às chuvas. Devo admitir que, visto à noite, com as gotas de chuva escorrendo pelos vidros, até o rio Tietê tem seu encanto. Não vou falar do cheiro, pois o bom Deus me deu uma benção: sinto pouquíssimos cheiros. Meu nariz funciona mal. O lado bom disso é que o hálito dos pacientes raramente é captado pelas terminações nervosas das minhas narinas. Acho que isso facilita as coisas.

Depois destas duas horas, paramos no posto do Gugú na Castelo Branco. Já disse antes que adoro postos de beira-de-estrada. Mas lá eles fazem um pão de semolina que, com manteiga e um café com leite bem quentinho, no café da manhã, é uma daquelas coisas que tornam a vida bela.

No sítio, não chovia mais, mas o frio era forte e o céu totalmente nublado. Assim, dedicamo-nos a instalar o novo televisor do meu sogro, pois o antigo parecia o céu de São Paulo: só se via um chuvisco constante.

Mas, logo meu pobre sogro ficou furioso: o problema não era o televisor. Era a antena parabólica. Ainda tentei sair lá fora e dar uma mexida nela. Talvez os ventos constantes da região a tivessem tirado do alinhamento com o satélite. Que nada: a única coisa que aconteceu foi que um morcego saiu indignado de dentro dela, sendo obrigado a procurar outro lugar para passar a noite.

No dia seguinte um técnico em parabólicas, politicamente convidado pela Luciene, a esposa do caseiro, através de sua ampla rede de amizades, detectou um grande ninho de marimbondos no interior da antena. Após substituir algumas peças, a imagem, finalmente voltou. Mas o horário político-eleitoral nos obrigou a assistir a um filme no DVD. Na verdade, tínhamos seis filmes para escolher, pois passamos na video-locadora antes de sair de São Paulo.

A manhã seguinte foi dedicada a uma ida à cidade de Itú: era o dia em que os Cirurgiões-Dentistas do estado de São Paulo deveriam tomar a segunda dose da vacina contra a Hepatite. Além desta, ainda a vacina "dupla", ou seja contra o Tétano e a difteria. Um verdadeiro massacre de agulhas perfurando meus braços. Mas será que conseguimos tantos progressos na medicina e ainda é preciso furar as pessoas para ministra-lhes um medicamento?

Ok: eu confesso: morro de medo de injeções... Aplico anestesias em meus pacientes sem o menor problema. Meu primeiro emprego foi num laboratório de análises clínicas, onde eu era encarregado de colher o sangue dos pacientes. Sem problemas. Mas quando a agulha está voltada para mim, devo me controlar para não dar vexame.

À noite, o céu abriu e mostrou uma Lua cheia para ninguém colocar defeito. O frio terrível que fazia não me impediu de pegar o Mr. Magoo e levá-lo até a beira da piscina. Mas fazia MUITO frio. Ventava horrivelmente. Assim, olhei para o céu e lá estava o Escorpião. Virei o telescópio para a M-7 e fiquei observando.

O telescópio dava pulos incríveis graças ao vento. Observar detalhes era uma verdadeira proeza. Mas pude perceber que havia um vazio na M-7. Ou melhor, a M-7 me pareceu como um aglomerado de estrelas encoberto por três áreas escuras. Três bolhas escuras que não permitiam a passagem da luz. Fiquei pensando se não haveria uma, ou melhor, três nebulosas escuras do mesmo tipo do "Saco de Carvão" do Cruzeiro do Sul.

Queria fotografar o que via, pois a imagem de um Cassegrain, quando comparada à de um Newtoniano do mesmo diâmetro (no caso, 180mm), é muito mais ampliada. Para se ter uma idéia, a M-7 para ser vista com a ocular de 25 mm, pelo Mr. Magoo, precisava ser dividida em três partes. Ou seja, só 1/3 da M-7 cabia na ocular.

Assim, fiz um desenho do que via. Ou melhor, tentei, pois sou muito ruim de desenho e o frio e o vento (que fez meus óculos voarem no chão) tornavam as coisas difíceis. Comecei desenhando "bolinhas". As maiores eram as estrelas de maior brilho. As menores as mais tênues. Depois, a paciência foi vencida pelo frio e passei a fazer traços relativos aos lugares onde se viam estrelas:

Os 3 semi-círculos (o de cima, o da direita e o da esquerda) eram regiões totalmente escuras. Talvez isso se devesse aos saltos do telescópio provocados pelo vento. O que eu via era como uma letra "H". A fotografia do livro do Pedro Ré (que já mostrei na página anterior), porém, mostra áreas cheias de estrelas. Assim, a conclusão a que cheguei é que a trepidação fazia com que as estrelas menos brilhantes não pudessem ser observadas.

Completamente gelado, "pedí arrego" e fui para dentro de casa.

Mais tarde, começamos, minha mulher e eu a assistir "As Brumas de Avalon". Logo chegou o sobrinho do caseiro, o Lucas que, sem a menor cerimônia se instalou ao meu lado no sofá. O filme era meio confuso: levei algum tempo até entender que aquela ruiva, na verdade eram duas ruivas muito parecidas. Depois o Lucas saiu com um comentário que me deixou confuso: Avalon é um lugar ou um Deus? 

Bem, eu entendia que era um lugar da Bretanha, na costa oeste da França. Mas, por via das dúvidas e sob um olhar estranho e ameaçador da minha esposa, recomeçamos o filme do inicio. Uma hora depois, os roncos do Lucas e os meus,  eram uma prova irrefutável que Avalon, fosse o que fosse, era excelente para embalar o sono...

Recebi, pela Internet, de um amigo astrônomo - o Augusto - a fotografia abaixo onde se pode ver a M-7. O site original da fotografia é : http://www.geocities.com/eboneastro/

 

Sem dúvida, uma bela imagem.Soube também, que a M-7 é também conhecida como "Aglomerado de Ptolomeu".