8 de março de 2.001

Ganhei de minha esposa, há uns dias, o "Anuário de Astronomia de 2001" de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Trata-se de uma coleção de dados referentes, sobretudo, à Astronomia em 2001. Interessante. Com esta obra, posso procurar o dia de hoje, por exemplo, e saber o que vai acontecer de interessante no céu.

Nada! Nada pois o céu está nubladíssimo e não para de chover desde ontem à noite...

Mas, digamos que tivéssemos um "céu de brigadeiro" (esta expressão surgiu dentro da Aeronáutica: o Brigadeiro, "exímio" piloto só saia para voar se o céu estivesse perfeitamente azul, sem uma nuvem, sem turbulências, sem vento...).

Então, segundo o Mourão, teríamos:

marcador a Lua no perigeu: 359.779 Km (ou seja, a Lua está em seu ponto mais próximo da Terra durante este ciclo lunar)
marcador Júpiter e Saturno estão no céu, mais ou menos no mesmo lugar em que os deixei em minha última observação
marcador Para quem consegue acordar cedo (não é absolutamente o meu caso), pode-se observar Mercúrio e Marte.
marcador Neste mês estamos sendo visitados pelos cometas P/Hartley3, 1999Y1, P/Wilson-Harrington e P/Honda-Mrkos-Pajdusakova. Ah, que droga morar em São Paulo...
marcador Nos dias 16, 24 e 30 teremos chuva de meteoros (espero que sejam finais-de-semana).

O que o Mourão não disse, é que ontem surgiu mais uma estrela no céu: ela se chama Mário Covas. Estrela brilhante, mas que soube conservar sua humildade. Situada, provavelmente na mesma constelação onde se encontra outra estrelinha que brilha muito: Lydia. Estrela "dura na queda", que lutou como uma leoa por seus filhotes. Estrela amiga. Estrela mãe. Minha mãe.

O livro possui uma infinidade de dados sobre todos os planetas, estrelas, observatórios, sites da internet, acontecimentos espaciais, etc. No final há um glossário bem resumido, mas que traz uma definição interessante:

"Dia Internacional da Mulher (8 de março). Cronol. Dia instituído pelo Primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado em 1910, na Dinamarca, em homenagem à mulher. Em 8 de março de 1857, numa fábrica têxtil de Nova York, EUA, 129 operárias entraram em greve, reivindicando redução da jornada de trabalho e salário igual ao dos homens. Os patrões trancaram-nas no interior da fábrica, e depois incendiaram-nas. Todas as operárias morreram queimadas."

Parabéns, mulheres! Estou ao vosso lado.

 

10 de março de 2.001

 

Estamos, mais uma vez, na chácara. Chegamos ontem à noite, mas no céu só tinha nuvens. Me disseram que choveu a madrugada toda. Mas eu não ouvi nada. Dormi até as 11:30. Como é bom dormir... O dia nublado. De vez em quando, um pouco de chuva. Fazer o quê?

Molho de macarrão. No fogão a lenha. E a massa feita em casa.

Molho de macarrão é uma coisa que me lembra infância e tradição. Tradição da qual o meu sangue italiano está impregnado. Confesso que, na cozinha, sei pilotar mais ou menos o micro-ondas. Tudo o que se puder comprar no supermercado e puder ir direto ao micro-ondas, eu domino. Sai uma delícia... Mas fora isso, sei fazer café. E molho de macarrão. E só.

RECEITA DE MOLHO DE MACARRÃO

Ingredientes que foram necessários: tomates (bem vermelhos - eu usei 14 Kg), azeite de oliva (um tanto que cubra bem o fundo da panela - digamos um copo quase cheio), cebolas (umas 6 das grandes), alho esmagado (uma colher de sopa), folhas de louro (muitas: umas 27), sal (uma colher de sopa), 3 cubos de caldo de carne (ou um pedaço de carne de mais ou menos 1,5 Kg - pode ser, por exemplo músculo), salsinha (também chamada de cheiro verde: um maço), cebolinha (umas dez), açúcar (uma colher de café), extrato de tomate concentrado (aqueles de caixinha - duas caixinhas), um maracujá dos grandes, mais açúcar, um copo grande, gelo, Vodka (Smirnoff), lenha (umas 15 toras médias), fósforos, jornal, um bom livro, uma boa esposa, uma faca, um liquidificador, uma peneira, uma tábua, a mulher do caseiro, a filha do caseiro, uma panela enorme, uma colher de pau, cinzas, um sogro.

Na chácara, usamos o fogão a lenha. Comece acendendo o fogo. Ele sempre apaga depois de cinco minutos. Então é bom começar por ele. Use o jornal, os fósforos e a lenha. Lave a salsinha, e os tomates. Com a faca, pique (em cima da tábua) a salsinha e separe. Corte cada tomate em quatro partes, observando bem se não há a presença de nenhum ser estranho em seu interior. Se houver, não tente saber do que se trata. Apenas jogue-o fora. Peça para a sua esposa fazer o macarrão (deixo de citar os passos pormenorizados desta operação por uma questão de espaço). Chame a filha do caseiro e peça que ela traga o liquidificador, a peneira a colher de pau e a faca. Chame a mulher do caseiro e peça que ela passe os tomates no liquidificador. E quando ela acabar, peça-lhe que faça uma batida de maracujá com vodka e açúcar. Depois, sugira que seria bem legal se ela passasse o caldo de tomates que saiu do liquidificador pela peneira (ignore eventuais comentários maldosos de sua parte). Caso o fogo estiver aceso, coloque a panela numa das bocas do fogão, tendo previamente passado uma "massa" feita de cinzas e água em sua base (é para ficar mais fácil de lavar a panela depois). Se ainda não conseguiu acender o fogo, chame seu sogro. Coloque o azeite, e doure as cebolas previamente picadas por alguma alma caridosa que se disponha a realizar esta tarefa ingrata. Quando elas estiverem douradas, e só então, jogue o alho, também previamente esmagado por alguém que te ame muito ou que esteja com muita vontade de comer uma macarronada. Jogue o caldo de tomates, as folhas de louro (inteiras - sem picá-las), os cubos de caldo de carne (ou o pedaço de carne), o sal, o açúcar (só uma colherinha de café - o resto já foi usado no preparo da batida de maracujá), a salsinha (bem picadinha), a cebolinha (bem picadinha). Durante este processo vá tomando goles de sua batida. Isto é essencial. Quando acabar, peça à mulher do caseiro que faça outra. Despeje o conteúdo das duas caixas de extrato de tomate (jogue a embalagem no lixo). Tampe parcialmente a panela (deixe só uma frestinha aberta, senão pode entrar mosquito). E aí pegue o livro. Beba, leia, coma alguma coisa, dê uma voltinha, pois vai demorar. No meu caso levou 6 horas. Sempre mexendo tudo com a colher de pau (digamos, de 10 em 10 minutos).

O molho tem de ficar grosso. Bem grosso. Mas, cuidado: não se pode dormir durante o processo, caso contrário corre-se o risco de obter um molho queimado, escuro, com um sabor horrível.

É uma delícia, e pode ser congelado em potes plásticos quando você voltar para São Paulo. Depois de tudo, disfarce, tente levantar-se, e vá direto para a cama, pois você, provavelmente estará meio alto. E então, durma. Durma o sono dos justos.

A LUA

Chegada a noite, monto a luneta. Isto, agora, para um astrônomo "experiente" como eu, não leva mais que uns 15 minutos. O céu está chato: aparece um buraco cheio de estrelas e, no minuto seguinte, aparece uma nuvem que esconde tudo. Isto me permite observar um céu em "flashes", ou se quisermos um céu "vaga-lume".

Lua cheia. Diante destas condições meteorológicas, o melhor é tentar ver a Lua. Isso mesmo: vou dedicar a noite à Lua.

Coloco a luneta em cima de uma mesa (com as pernas do tripé recolhidas, pois desta forma não forço minha coluna, e posso trabalhar sentado) e miro para a Lua. Entre uma nuvem e outra, tenho visões maravilhosas. Com a ocular de menor potência tenho uma visão geral de todo o disco lunar. Se coloco a ocular de maior potência, aliada a uma "Barlow" de 3x, vejo as crateras e, em algumas delas, como que uma "pedrinha" colocada em seu centro (que eu imagino ser exatamente o meteorito que caiu na superfície do satélite, originando aquela cratera), os mares, as cordilheiras...

Se aponto a luneta para a borda da Lua, vejo uma montanha, vista de um ângulo como o em que está um observador ao pé de uma montanha, olhando-a para cima. É incrível. É emocionante. É lindo.

Coloco o "filtro lunar" que acompanha a luneta, rosqueando-o na parte interna da ocular. A imagem fica levemente esverdeada, mas adquire um contraste maior, pois a Lua, em noites de Lua cheia, emite tanta luz, quando vista pela luneta, que não se conseguem ver alguns detalhes.

 

Clique aqui para saber mais sobre a Lua

 

Na casa do caseiro, há uma certa movimentação: chegaram visitas de outras cidades para passar a noite. Tem um monte de gente e, quando o vento muda de direção, eu consigo ouvir o Mauro dizendo "... e eu vi Saturno e Júpiter... Discos.. porreta...". Depois é a vez da Luciene, sua esposa: "... a Lua... Planetas... dá pra ver tudinho... lindo...".

O que eu previa, em meus pensamentos, não demorou muito a acontecer: dois garotos, um com uns 5 e outro com uns 14 anos logo apareceram e pediram para que eu os deixasse ver a Lua. O menorzinho foi devidamente colocado em cima de uma cadeira, pois não alcançava a ocular. Poucos minutos depois foi a vez de seus pais.

Pessoas profundamente simples, educadas e religiosas ( são evangélicos),  puseram-se em fila para ver a Lua.

"- É linda!!!"

"- E cadê São Jorge? São Jorge e o Dragão?"

"Ô mulher, mas ocê num sabe que São Jorge num tá na Lua?"

"Mas olha lá!" E aponta para a Lua. "Num tá vendo o desenho? Tem o São Jorge em cima do cavalo e o Dragão".

Enquanto isto, a próxima da fila observa, pela luneta, com toda a calma a Lua, que estava entre duas nuvens. " - Dá pra ver tudinho! Dá pra ver o que mais? "

Explico que podem ser vistos alguns planetas como Marte, Júpiter e Saturno, além de enxames de estrelas e nebulosas. Explico que enxames de estrelas são um monte de estrelas bem juntinhas umas das outras. Explico que nebulosas são como nuvens gigantescas de gases que se podem observar em alguns cantos do céu.

Nisso uma nuvem sai de cima do Cruzeiro do Sul, mostrando-o com toda a nitidez. E eu mostro ao marido de uma das moças, que segurava um bebê lindo no colo, que aquela estrelinha que está no pé do Cruzeiro do Sul (e que aponta para o Sul), na realidade não é uma estrela: são duas estrelas que ficam girando sempre uma em volta da outra.

O homem, meio incrédulo diz "Ah, é?".

Então eu aponto a luneta em direção à estrela Alpha do Cruzeiro do Sul, e lá estão elas, as duas bem juntinhas. O homem vê aquilo e fica admirado.

Volto a direcionar a luneta para a Lua. E uma das moças fica olhando, olhando..

"- Puxa, dá pra ver tudinho... Só não dá pra ver é Deus. Deus a gente não pode ver de jeito nenhum. Nem com foguete, nem com televisão. Deus tá muito escondido no céu."

  Eu pensei em dizer que, talvez, Deus estivesse exatamente lá. Do mesmo modo que estava aqui. Que Deus estava em todas as partes, especialmente naquelas estrelas e planetas, afinal alguém tinha de ter criado tudo aquilo. Ou todo este espetáculo que o céu nos fornece saiu do nada? Não tenho provas, mas uma suspeita científica: alguém ou algo, criou as estrelas, a Lua, os planetas. E este alguém ou algo só pode ser Deus.

Não sei se Ele está olhando para mim neste exato momento. Dizem que Ele  olha para todos nós o tempo todo. Dizem que nada é por acaso. Sei lá... Eu sou apenas um ser humano, e tenho plena consciência de que meu cérebro é limitadíssimo, como o é o de qualquer ser humano. Acredito que estamos neste planeta azul apenas de passagem. Recuso-me a acreditar que a nossa viagem termine aqui.

Então se Deus existe, e Ele deve existir, porquê acontecem alguns fatos como as guerras, a violência, as separações, as doenças?  Provavelmente Deus nos coloca aqui para que possamos aprender algumas coisas. Mas Ele não fica nos seguindo o tempo todo. Ele nos manda para cá. Nós temos a oportunidade de aprender, de crescer, de melhorar. Depois, quando saímos daqui, se realmente tivermos conseguido aprender alguma coisa, passaremos para algum outro canto do Universo, onde teremos a oportunidade de continuar a crescer.

Mas, até quando? Até atingirmos um grau total de perfeição? E, para quê? E depois?

Mas eu não disse nada disso para aquelas pessoas, pois elas possuem uma fé muito forte e, com certeza, elas sabem muito mais sobre Deus que eu. E eu não quero misturar minhas teorias científicas sobre a existência de Deus com a fé destas pessoas, pois sua fé as ajuda a enfrentar a vida de uma forma muito mais serena. Então eu me calo. Gostaria de conversar sobre o assunto, mas não com eles. Tenho medo de colocar-lhes questões que possam abalar a sua fé em Deus. Desejo-lhes boa noite e continuo lá olhando para a Lua, pensando em São Jorge e seu dragão. Pensando em Deus e no Universo. O que haverá mais para lá?

Então uma nuvem enorme encobre todo o céu e eu não vejo mais nada. É melhor desmontar tudo e ir dormir, lembrando do dia em que o homem pisou na Lua pela primeira vez. 

Era o dia, ou melhor, a noite de 20 de julho de 1969. Exatamente às 23hs 56 min. e 31seg.( horário de Brasília). O primeiro passo foi dado pelo pé direito - se bem que algumas obras citem o pé esquerdo - (tamanho 41) de Neil Armstrong, da missão Apolo XI, que descia o último dos nove degraus da Eagle Landed - Águia- (porém carinhosamente batizada pelos astronautas de Snoopy - o cachorrinho criado pelo cartunista Charles Schultz), pousada no mar da Tranqüilidade. Estava meio nervoso: seu coração batia 156 vezes por minuto, o que, dadas as circunstâncias, era compreensível. 

Em nome do governo americano e da ONU, Armstrong decretou que a Lua não teria dono: seria patrimônio de toda a humanidade, e pronunciou sua famosa frase "Um pequeno passo para um homem, um salto enorme para a humanidade", se bem que ele erraria a última fala do script, tão minuciosamente ensaiada na Terra, ao dizer "One small step for man, one giant leap for mankid", esquecendo o "a" antes de man, fazendo com que ele pronunciasse duas sentenças que queriam dizer exatamente a mesma coisa. Mas a NASA segurou a barra e registrou para o filme da História a frase que Neil deveria ter dito.

Vinte minutos depois, o segundo homem pisava na Lua: Buzz Aldrin, enquanto no comando do módulo lunar permanecia Michael Collins.

Neil Armstrong deixou na Lua um disco de silicone de 5 cm. de diâmetro, contendo mensagens otimistas de todos os países da Terra. A nossa foi escrita pelo General Arthur Costa e Silva, presidente da junta militar que governava o Brasil em 1969. Ironicamente, a mensagem falava em paz e compreensão entre os povos, enquanto o Brasil vivia sob uma feroz ditadura.

Eu tinha completado 12 anos quatro dias antes. E a televisão ia mostrar, ao vivo (mas em branco e preto) a cena, que seria vista por um bilhão e 200 milhões de pessoas no mundo inteiro . Eu pude vê-la apenas no dia seguinte, num televisor a válvulas, em branco e preto (se bem que já existiam os coloridos), que vivia quebrando, com um pedaço de "Bombril" na ponta de cada antena (este era o meio encontrado pelo "jeitinho" brasileiro para melhorar a recepção da imagem), pois acabei dormindo antes da hora (sempre fui um dorminhoco...). Meu coração, mesmo assistindo a um reles video-tape, batia tanto quanto o de Neil Armstrong.

 Esta é a impressão da bota de Neil Armstrong deixada pela sua primeira pegada.

 

Tripulação da Apolo XI

Este era o emblema da Apolo XI

 

Informações e imagens obtidas dos seguintes sites:

http://www.nasa.org

http://membro.intermega/globo.com/GaboHP.htm

http://www.astronomy.com

http://space.jpl.nasa.gov

Novo Dicionário Aurélio de Aurélio Buarque de Holanda - 2a. edição - 1986

Odisséia Digital - Suplemento especial da Ed. Abril - 03/2001 - de Jack London e Max Gehringer

http://astro.if.ufrgs.br

http://flaudizio.bizland.com/lua.htm

http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Launchpad/8602/astro/astronomia.html

http://www.iis.com.br/~lgabriel/main.htm

http://www.kopernik.org

http://maykot.virtualave.net

http://netmogi.com.br

http://orbita.starmedia.com/~figueira/Apollo_11.html

http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Launchpad/8602

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