04 de setembro de 2002

 

Bem, acho que estou sobrevivendo ao Théo. E ele a mim. Eu cuido da minha vida. Ele não cuida da dele. Mas o que eu podia esperar de um salsicha de 2 meses... Ele faz o que tem de fazer: xixi, cocô, e muita bagunça.

Vou levando. Ele também.

Ontem à noite, fomos, minha esposa, o Luiz e eu até Jundiaí. Fazia um frio absurdo. Mas resolvemos ir, devidamente acompanhados de uma garrafa de Chianti. Minha mulher se ateve à novela "Esperança". Não colocou o nariz para fora da casa, pois o frio, devo reconhecer, não era convidativo.

O Luiz e eu ficamos muito chateados pois o poste de iluminação da rua vizinha à sua casa (que havia tido sua lâmpada misteriosamente "fuzilada" por alguém) foi reparado. Agora temos uma luz amarela que inunda nossas retinas e nos impede de observar o céu como gostaríamos.

Numa tentativa de nos escondermos da luz, penduramos sobre uma estrutura de madeira destinada a sustentar uma parreira (que um dia será plantada), uma rede, formando como que uma parede improvisada. No outro extremo da estrutura, ainda, penduramos uma guarda-chuva aberto.

Tentamos começar nossas observações pelo Meade, mas o alinhamento inicial falhou duas vezes seguidas. Desistimos dele, provavelmente pelo frio que congelava nossos pobres ossos. Passamos ao Newtoniano de 180 mm. 

Com ele pudemos observar a constelação do Escorpião atraídos, inicialmente pelo brilho alaranjado de Antares. Depois encontramos a M-7. Foi o primeiro objeto do catálogo Messier que o Luiz encontrou. A M-7 é um enxame aberto. Parece, quando vista a olho nu,  uma manchinha, como uma estrelinha borrada. Aprendemos a localizá-la com o auxílio de um binóculo, o que facilitou bastante nossa tarefa.

O M-7 é o objeto Messier localizado mais ao Sul, segundo lemos no "Observar o Céu Profundo" do Pedro Ré e Guilherme de Almeida. Segundo os autores, os árabes que observavam os céus transparentes dos desertos, M-& (junto ao ferrão do Escorpião, marcado pela estrela Lambda Scorpii) era o veneno deste animal. Vista do telescópio, é um amontoado de centenas de estrelas umas ao lado das outras, e lembra Ômega Centaurii, só que muito menos brilhante e com muito menos estrelas.

Assim, na página anterior deste diário, observei a parte anterior do bicho. Desta vez, observamos a parte de trás. Com direito à gota de veneno.

Conseguimos, inda ver a M-6, que é um enxame aberto situado ao lado da M-7. Este enxame não é circular, mas sim alongado. Mostrava menos estrelas que o M-7.

Durante o dia, comprei um filme de 12 poses, 400 ASA, na loja da Fotoptica, na esquina do consultório. A gerente da loja insistia para que eu levasse um pacote de 3 rolos de 24 poses, por um preço bem mais conveniente. Mas eu fiquei pensando nas pobres funcionárias que iriam revelar minhas fotografias: geralmente eu dou muito trabalho a elas, pois quando vou retirar as fotografias, invariavelmente, elas me entregam um negativo em branco. Depois, seguindo o ritual habitual, ligamos o negatoscópio da loja e eu mostro "aquele pontinho lá", e peço que ele seja ampliado novamente.

Para isso, a máquina que amplia os negativos deve sofrer um ajuste especial, pois o negativo é muito escuro, mas sei que as funcionárias fazem tudo com muita boa vontade... Qualquer dia vou ser proibido de entrar na Fotóptica. Da última vez a funcionária disse que teve de "escurecer 9 pontos" para que fosse possível ver as imagens do Escorpião.

Assim, coloquei o filme na máquina e esta apoiada sobre um tripé e passei a fazer as 12 fotografias da cauda do escorpião. Os tempos de exposição variaram entre 20 e 60 segundos. O resultado melhor foi o de 60 segundos, com toda a objetiva aberta e sem zoom, com foco no infinito:

No canto direito superior pode-se observar a ponta do guarda-chuva. No inferior uma parte da rede. Fiz, novamente, o trabalho de identificar os principais objetos visíveis na foto:

Consegui identificar, na fotografia, a M-7, a cauda do Escorpião e uma parte de Sagitário. A ampliação da região da M-7 é a imagem que se segue:

É gostosa a sensação de começar a identificar as constelações e os objetos do céu. Difícil é guardar todos os nomes na cabeça.

Cansados e gelados, partimos para pizza de praxe: meia quatro queijos e meia calabresa moída. Esta pizza anda no lombo de uma motocicleta, nada menos que uns 10 Km pela Via Anhanguera, para chegar até nós. É claro que chega morna, mas isso já faz parte da rotina... Já nos habituamos. Minha mulher não pareceu entender muito bem nosso prazer em devorar aquela pizza morna. Mas foi muito gentil e até mesmo elogiou seu sabor. Só os astrônomos podem entender tal prazer...