27 de julho a 13 de agosto
de 2002
Tenho abandonado meu diário, nos últimos tempos, o que resultou em alguns e-mail reclamando atualizações. Alguns deles (para meu grande prazer) exigiam que eu fizesse atualizações.
A verdade é que, como das outras vezes, a causas deste abandono estão relacionadas ao envolvimento excessivo com meu trabalho, à preguiça, às péssimas condições climáticas (apesar de estarmos tendo um dos melhores invernos dos últimos anos (em minha opinião): um calor danado, que lembra o pleno verão.
O Luiz e eu estivemos algumas vezes em sua casa de Jundiaí, mas parece que há um conluio celestial para impedir que façamos qualquer tipo de observação decente. Uma das tentativas era destinada a observar (e registrar) o possível impacto de meteoros na superfície lunar.
Estes meteoros são chamados de "Perseídeos" pois seriam provenientes da constelação de Perseu. A maior probabilidade de se observar o impacto de algum destes meteoros seria no dia 12 de agosto, uma segunda-feira.
Assim, em 6 de agosto (terça-feira), fomos, o Luiz e eu, para Jundiaí. O Luiz tem uma pequena câmara dotada de um CCD (Meade) em branco e preto, que pode ser acoplada diretamente na ocular do telescópio. Um cabo liga esta câmara diretamente a um televisor comum ou vídeo-cassete.
Fizemos todas as ligações necessárias entre a câmara e o televisor, e viramos o Newtoniano de 180 mm em direção à Lua. As imagens que apareciam no televisor eram nada menos que fantásticas. Viam-se perfeitamente as cordilheiras, os vales, as crateras e os meteoros que deram origem a algumas delas. Nitidez total. Fabuloso. Inesquecível.
Resolvemos, então, gravar, com a ajuda do vídeo-cassete, tais imagens. Logo começamos a discutir a possibilidade de transformar as imagens de uma fita VHS em imagens do tipo JPG, para serem colocadas na internet.
Assim, passamos a ligar os cabos da câmara no vídeo-cassete. Mas aí as coisas começaram a não dar certo: quando ligávamos o cabo no vídeo-cassete, a imagem simplesmente não podia ser gravada. Mudamos os cabos. Usamos toda a nossa criatividade mas, nada. Simplesmente o bicho não gravava. A causa, certamente era um defeito no mecanismo de gravação do vídeo-cassete.
Voltamos para São Paulo bastante decepcionados.
Mas a persistência e a lembrança das imagens da Lua, nos fez retornar a Jundiaí, não no dia 12, mas no dia 10, que era um sábado. Apesar de não ser o dia mais provável para se observar os "Perseídeos", havia algumas possibilidades de observarmos um eventual impacto.
Um impacto significaria que havia a possibilidade de observarmos a formação de uma nova cratera na superfície lunar. Ao Vivo! Assim, previdentes que somos, providenciamos outro vídeo-cassete, gentilmente emprestado pelo pai do Luiz. Na verdade era uma destas televisões que já tem embutidas um vídeo cassete.
Desta vez não haveria possibilidade de erro, pois a única ligação a ser efetuada era ligar um cabo entre a câmara e o televisor. Fácil. Simples. Impossível de errar.
E, de fato, ao ligarmos o cabo, lá estava a Lua, linda, cheia de detalhes. Só esperando ligarmos o vídeo-cassete para registrarmos para toda a humanidade a formação de uma nova cratera pelo impacto de um Perseídio. Com um pouco de sorte, haveria de ser uma cratera enorme. Fantástica.
A ciência, certamente nos brindaria com um pequeno "mimo": alguém haveria de sugerir que o nome da nova cratera haveria de ser "Cratera Luiz-Caló". Afinal, esta dupla de verdadeiros e dedicados cientistas seriam os primeiros a registrar a formação de uma cratera lunar. E nós, humildemente, aceitaríamos a homenagem.
Então o passo seguinte era colocar a fita no interior do vídeo-cassete, apertar o "REC" e esperar. Colocamos a fita (virgem, por sinal) e...
- "Ô Luiz, aonde tá o REC ?"
- "Sei lá. Liga a lanterna."
- "Aqui só tem STOP, FF e REW. Cadê o REC?"
- "Pega o controle Remoto. Deve estar lá".
- "O controle? Ahmm... Acho que ficou em São Paulo..."
Pois é... o tal vídeo só grava através do controle remoto. E este havia sido esquecido em São Paulo. Nada de Perseídeo. Nada de cratera. Nada de Prêmio Nobel...
Sim, realmente foi um período ruim para a Astronomia: Algum tempo antes, mais exatamente no dia 8 de julho, minha mulher e eu fomos para o sítio em Itú. Aliás, aqui cabe uma aparte: a expressão sítio é totalmente incorreta. A coisa começou quando fomos, há alguns anos, minha mulher, seus pais e eu, procurar umas terras para fazermos aquilo que chamávamos de sítio. Após uma breve procura encontramos a "terra prometida".
Para nós, que não entendíamos absolutamente nada do assunto, aquela "gleba" de terra sempre foi chamada de "sítio". Era uma terra herma, cheia de mato e plantas estranhas. Animais tremendamente assustadores, como lagartos, cobras, veados, capivaras, borboletas imensas, insetos estranhíssimos, morcegos, pássaros...
A primeira vez que vi um pássaro preto meio estranho, perguntei ao meu sogro (que deveria ser a pessoa mais entendida dos mistérios da terra) qual era o nome daquele pássaro. "Anú Preto", ele respondeu com firmeza.
Alguns dias depois, notei um grande pássaro branco. "Qual o nome?"
"Anú Branco".
Depois surgiu um pássaro malhado, branco e preto. "Anú Malhado", é claro!
Com o tempo, e já meio desconfiados da sabedoria do meu sogro, pudemos conhecer o Anú Marrom, o Anú cinza, o Anú Amarelo, Anú magro, Anú gordo, Anú Grande e até mesmo aquele que eu jurava ser um Urubú, se transformou em Anú Urubú... Hoje conheço todas as possíveis espécies de Anús que o Bom Deus criou. Sou um especialista em pássaros. Um verdadeiro Ornitólogo! Como meu sogro...
Mas eu falava do sítio. No início tudo nos asustava. Tudo parecia imenso. Os planos eram mirabolantes. Mas, na verdade, nós compramos um sítio que, na verdade era uma chácara. Chácara, não: uma chacrinha.
Ok: uma casa de campo.
Mas o nome sítio ficou. Tem um pasto que invadimos do terreno vizinho. É pequeno. Na verdade, se juntarmos tudo, não chegamos a 10.000 metros. Mas temos o pasto da Fazenda Limoeiro, logo à nossa frente. É imenso. Uma fazenda de verdade.
Assim, caro leitor, perdoe a inexatidão. Quando eu disser sítio, não fique imaginando um sítio, mas sim uma pequena casa perdida no meio do verde e do nada.
Mas eu falava do dia 8 de julho. Já contei, numa página anterior o que aconteceu nesta data. Só agora revelei as fotografias.
Após tantos revezes, certamente o prezado leitor haverá de entender porque este diário anda abandonado. Nada dá certo, Todas as tentativas acabaram em nada. Fiquei tão chateado que abandonei telescópio e computador definitivamente no sítio. Se algum inseto resolver entrar no interior do tubo do telescópio e construir seu ninho lá, eu não me importo, pois sei que ele vai morrer: vai morrer de susto quando olhar em direção ao espelho primário e ver sua cara horrível aumentada centenas de vezes.
Das 24 fotografias, apenas duas saíram quase razoáveis. E são praticamente idênticas. Os tempos de exposição delas eram de 35 e 40 segundo. Mas o zoom estava na metade do caminho (uns 75 mm), e a abertura era 4. As imagens de uma delas estão aí. A primeira é a fotografia original. A segunda mostra a identificação de cada um dos principais objetos. Trata-se da parte anterior da constelação de Escorpião (Scorpius, cuja abreviação é Sco). No canto inferior direito, aparece um pedacinho de Libra.

