01 de julho de 2002
Tenho recebido alguns e-mails reclamando que não atualizo meu diário. Confesso que isto me deixa feliz. É sinal que alguém lê o que escrevo.
Mas não tenho atualizado o diário por falta de assunto. Na área Astronômica da minha vida não têm acontecido grandes coisas. Falta tempo para me dedicar à Astronomia. Portanto não há muito o que contar.
A única novidade é que tenho me empenhado em levar adiante um pequeno projeto que foi batizado de "Astronomia na Escola". Este projeto nasceu na lista de discussão de Astronomia do Clube de Astronomia de São Paulo - CASP. Nasceu, também, da leitura diária o "Estadão" - o jornal que recebo em casa toas as manhãs.
A imprensa não consegue passar um dia sequer, sem contar os horrores produzidos pela violência em São Paulo, e em todo o País. Na maior parte os casos, esta violência está ligada às drogas, à miséria, à falta de perspectiva do nosso povo, à situação econômica...
O que fazer? O que pode uma pessoa comum, que não possui grandes recursos financeiros, para minimizar este estado de coisas? Confesso que não vi grandes soluções.
E acho que a resposta é exatamente esta: não são as grandes soluções que resolverão o problema, mas sim pequenas atitudes isoladas mas que, vistas no conjunto, podem fazer a diferença.
Então, pensei que, como dentista, já dou minha pequena ajuda ao participar do Projeto "Adotei um sorriso", idéia lançada pela Fundação ABRINQ.
Desta forma, comecei a pensar o que um Astrônomo Amador poderia fazer. E desta forma nasceu a semente do meu projeto. Na verdade, a idéia já existe e já foi colocada em prática diversas vezes. Mas creio que se poderia tentar fazer com que a idéia passasse a ser repetida infinitas vezes. Deste modo, surtiria efeitos mais significativos.
Em resumo, a idéia seria procurar uma escola pública da periferia. Daquelas bem carentes. Daquelas onde faltam professores, cadeiras e até mesmo giz. Imaginei que uma boa parte dos alunos desta escola hipotética passam boa parte o seu tempo sem ter muito o que fazer, pois a escola não deve (e nem pode) exigir grande coisa deste aluno.
Então como passa o tempo este garoto(a) imaginário de, digamos, 15 anos? Trabalha durante o dia e estuda à noite? Uma parte, talvez. Mas outra parte não consegue emprego. Então fiquei imaginando este garoto num bairro violento, com companhias que nem sempre podem ser as melhores, sem ter nada o que fazer o dia inteiro.
À noite ele vai para a escola e o que lhe é ensinado, é pouco. E ele tem total consciência disso. Ele sabe que o mercado de trabalho é exigente. Começa a desconfiar que seu futuro talvez não seja dos melhores.
Além desta preocupação, ele tem de enfrentar problemas com família, com dinheiro, com alimentação, com lazer... Em resumo: problema em cima de problema.
Alguns destes garotos, por força desta pressão, aliada a uma predisposição genética, mais a influência do meio e outros fatores, fatalmente acabarão por se envolver com as drogas e com a criminalidade.
Como posso intervir neste ciclo e alterar o rumo das coisas?
Sei que não é grande coisa, mas fiquei pensando que se houvesse um pequeno grupo, digamos, de umas três ou quatro pessoas, poderíamos, numa noites destas, levar um telescópio até aquela escola hipotética, fazer uma palestra básica sobre Astronomia, abordando temas bem elementares, numa linguagem acessível, seguida de uma observação, por exemplo da Lua ou de Saturno dentro da própria escola.
Imagino que uma grande parte dos alunos não seria afetada por este programa, mas se pelo menos uma destas pessoas se interessasse pela coisa, já seria uma pessoa a pensar em algo melhor do que as drogas.
Este programa seria repetido, digamos por um total de três noites naquela escola (uma vez por semana), sempre acompanhado e observações. Deveríamos ter o apoio de alguns professores e da direção da escola. Deveríamos, também, ser previamente treinados a como lidar com este tipo de público.
Ao final, doaríamos um conjunto de espelhos e o material necessário à construção de um telescópio, e forneceríamos o "know how" para a construção de um telescópio. Os fundos para isso, viriam de arrecadações junto às pessoas que conhecemos: amigos, pacientes, familiares, etc. Se conseguíssemos alguém que fabricasse os espelhos a um custo relativamente baixo, e alguma loja de materiais de construção que pudesse nos fornecer tubos de PVC, parafusos e um pouco de madeira a preços módicos, o custo deste telescópio poderia ficar em menos de Us$ 200 ou 250. Este valor poderia ser rateado por, digamos, dez pessoas, o que significaria uma doação de Us$ 20 a 25,00 por pessoa, o que não me parece exagerado.
Este telescópio ficaria em poder da escola, e administrado pelo professor de ciências, que poderia receber um treinamento de Astronomia, se isso fosse necessário. Este telescópio estaria à disposição dos alunos da escola para que organizassem suas próprias observações.
Com isso, estes adolescentes poderiam dedicar algum tempo a discutir e estudar um pouco de Astronomia. Em sala de Aula, da Astronomia, poderia-se passar facilmente para a Física, a Matemática, até mesmo à Filosofia.
Em horários vagos, os alunos poderiam realizar observações próprias. Um programa deles mesmos.
E poderiam ser apoiados a distância pela internet, por exemplo pelos membros do CASP, pois eu soube que um grande numero e escolas possuem computadores ligados à internet.
Terminada uma escola poderia-se começar tudo de novo noutra escola.
Sei que parece devaneio. Utopia. Sei preciso de qualquer ajuda para levar adiante esta idéia. Preciso de outras pessoas com uma boa dose de idealismo e coragem. Preciso da experiência de professores e educadores. Preciso da opinião dos próprios alunos. Preciso de dinheiro. Preciso de tantas coisas...Mas existe uma frase que eu gosto muito, e que guiou alguns passos importantes da minha vida:
"E, por não saber que era impossível, ele foi lá e fez".
Aceito ajuda.