15 de junho de 2002

Dia totalmente nublado. E isso significou uma boa dose de frustração, para mim, pois nesta noite estava programado um evento do CASP (Clube de Astronomia de São Paulo): o "Telescópios no Escuro", que é uma reunião de astrônomos para um observação conjunta do céu. Inicialmente o evento deveria ocorrer em Ibiúna, no sítio de um dos membros do CASP. Entretanto, ocorreram problemas e o local não estaria mais disponível. Assim, o evento estava ameaçado de cancelamento.

O Luiz e eu já estávamos programados, há muito tempo, para participar do encontro, e a expectativa era grande.

Alguns dias antes, um ex-membro do CASP - Fabio Kok Geribello - salvou a pátria, oferecendo a casa de sua família em Campos do Jordão para sediar o evento. Tudo certo, mas já na sexta feira o céu nublou.

O Luiz e eu havíamos combinado de sair de são Paulo às 17:00. Mas, até as 14:00, o céu permanecia nublado e o encontro parecia condenado. Então o Luiz, que havia tido um curso durante toda a manhã do sábado, desistiu definitivamente de ir. Mas eu não me conformava. 

Uma mensagem na lista eletrônica do CASP sugeria que mantivéssemos o encontro, nem que fosse para uma troca de idéias, e eu apoiei.

Convidei minha mulher para me acompanhar, mas temendo que ela se entediasse, pois sua ligação com a Astronomia não é das mais fortes. Mas ela logo aceitou. Aprendi que o companheirismo é uma as coisas mais importantes de um casamento. Assim, às 17:00, saímos nós dois em direção a Campos.

Durante o caminho eu prestava atenção à estrada e ela ia me reportando as condições do céu: "apareceu uma estrela!". "Agora duas". "Fechou tudo de novo"... Eu já estava conformado em resumir a coisa a um chocolate quente no "Baden-Baden". Seria um programa diferente, e eu bem que estava precisando fugir da rotina.

Mas, ao subirmos a serra, o céu foi abrindo totalmente. 

Ao chegarmos a Campos, fomos diretamente para o hotel onde estava hospedada a Carolina (de Campinas), outra amiga de CASP e, de lá fomos, os três, até o Horto Florestal, seguindo a estrada sinuosa e belíssima (de dia) que leva até o Horto (à noite, são só sombras e buracos no asfalto).

Passando a guarita do Horto, pegamos uma estrada de terra que subia a montanha, em meio a pinheiros e à floresta sabiamente preservada das mãos dos humanos. Após vários quilômetros, chegamos à casa do Fábio Geribello. O frio se fazia presente, e a completa escuridão (como convém a um encontro de Astronomia), também.

As apresentações e reencontros foram feitos em meio à imensa escuridão, de modo que eu nem fazia idéia de quem estava cumprimentando. Mas, aos poucos fui identificando alguns dos participantes: Bob Osborn  (dos EUA), Tony, Alberto, André, Guga, Oscar, Helga, Marcio, Plocos entre outros.

O pai do Fábio nos acolheu calorosamente. Trata-se de uma dessas raras pessoas que sabem aproveitar o que a vida tem de bom e de interessante. Seu hobby "sério", como nos explicou, não era a Astronomia, apesar de possuir equipamentos espetaculares e ter construído um observatório genial em seu terreno de Campos: era a Egiptologia.

Um engenheiro que mistura a Egiptologia com a Astronomia, aliado ao conhecimento de bons vinhos, amor aos animais e à natureza, além de saber cozinhar (ele havia preparado uma excelente sopa de legumes no seu fogão de lenha, que foi muito bem recebida por todos os presentes), só pode ser uma pessoa muito especial.

A casa, construída com muito bom gosto e sensibilidade, situa-se no alto de uma montanha, de onde pode-se ter uma excelente visão de todo o horizonte. Pode-se notar que todos os detalhes da construção foram acompanhados com paixão pelo pai do Fábio: desde o "ofurô" nascido de uma barrica de vinhos em amendoim, até o corrimão de cipós.

Os inúmeros telescópios dos participantes do encontro já estavam montados no gramado contíguo à casa, incluindo a estrela da noite, que era um Meade de 200mm dotado de GPS. Para quem não sabe, isto significa um telescópio bastante poderoso, aliao a um sistema informatizado que encontra automaticamente milhares de objetos no céu, com uma nitidez impressionante.

Pela primeira vez observei o céu com um binóculo. É interessantíssimo. Talvez seja um dos instrumentos mais importantes para o aprendizado da Astronomia. Foi uma fase que pulei, a do binóculo. Mas a recomendo veementemente àqueles que estão iniciando. Um binóculo de 7x50 ou, no máximo, de 10x50 é o ideal. O único inconveniente, é a dificuldade em não tremer. Mas, para isso, um suporte inventado pelo Diniz - www.geocities.com/dinizfam  , revela-se uma solução genial e simples de ser montada.

Um "tour" até o observatório que está sendo construído no terreno revelou a genialidade de seu construtor: a cúpula é feita de fibra de vidro (projeto executado por um construtor de barcos) e é girada manualmente e facilmente, pois pesa apenas 100Kg., apoiada totalmente sobre rodízios. O Suporte do telescópio é um cilindro de concreto, isolado do restante da construção, capaz de suportar o peso de qualquer telescópio que seu proprietário venha a adquirir. Os detalhes da construção, como circuitos independentes de luz branca e vermelha, fiação de comunicação entre o telescópio e a central de computadores (um andar abaixo do piso o telescópio)totalmente embutida no concreto, etc., impressionam.

As observações aconteciam no gramado, na mais completa escuridão. A única iluminação permitida era aquela provinda do interior de um forno de microondas no interior da cozinha onde, aliás, cada um se refugiava, de quando em quando, para se refazer um pouco do frio e da umidade e para comer um pedaço de pão russo (uma delícia) ou tomar um gole de vinho (mais delícia ainda).

Viu-se, com o auxilio do Meade e dos outros telescópios, uma infinidade de astros, como a Nebulosa do Cachimbo, a Via Láctea, cuja visão era sensacional, muito superior àquela que tenho do sítio em Itú,  galáxias,  Ômega Centauro (que eu havia perseguido alguns dias antes com o Mr. Magoo, na chácara) que ficava completamente imóvel no centro da ocular do Meade graças ao seu perfeito acompanhamento motorizado, a M 104( Galáxia do Sombreiro), a M 27( Nebulosa de Dumbbell) .

Pudemos observar (se bem que, minha honestidade me obriga a confessar que eu não consegui ver, mas os outros juravam que estava lá) o cometa Ikeya-Zhang. Dezenas de astros foram observados, mas minha memória não guardou seus nomes. Porém as imagens estão devidamente registradas na memória.

Chamou-nos à atenção o Plocos, astrônomo fantástico, capaz de encontrar, em questão de segundos, qualquer objeto do céu, sem nenhum auxílio de cartas ou softwares. Ele faz isso há uns 15 anos. Começou com um grupo de amigos, em sua cidade (creio ser São Carlos), todos adolescentes de uns 12 anos de idade, que se dedicavam a procurar OVNI's. Porém, como estes, segundo as palavras do próprio Plocos,  "não eram muito freqüentes", eles começaram a estudar as estrelas. E que resultado!

Minha mulher, refugiada do frio e do sereno no interior da casa, resistia heroicamente. Lá pela meia noite e meia, por um sentimento de compaixão e gratidão, convidei-a a voltarmos para São Paulo. O convite foi aceito imediatamente.

Soube, depois, que as observações duraram a noite toda, até o nascer o sol. Algumas imagens que me foram enviadas por e-mail, do final das observações estão aí. 

     

Foi uma noite inesquecível para todos, que só fez aguçar ainda mais a força da mordida desse bicho que não perdoa, chamado "Astronomia".