07de junho de 2002

Este é um texto meio que "on line", pois foi escrito na beira da piscina da chácara, em Itú, às 21:00. Porém o teclado deste microcomputador tem alguns maus hábitos, como imprimir umas seis ou sete vezes cada letra. Assim, ele será revisado, posteriormente.

 Chegamos aqui na hora do por do Sol, que não estava tão excepcional como o que tivemos ontem em São Paulo, quando sai do consultório bem cansado e desanimado após um dia daqueles em que é preciso se matar um leão. Peguei o carro, sai do prédio e, 10 metros depois, parei. A Rua Maranhão, como sempre, neste horário estava paradinha. Mas nesse dia estava mais parada que o normal. Então descobri que a Rua Maranhão o vai para o Oeste, pois o Sol se punha bem à minha frente, atrás de uma infinidade de prédios cinzentos. Mas, para me acalmar, com certeza, o céu apresentava cores fantásticas: havia toda a escala do arco-íris naquele céu, passando pelo laranja, lilás, azul escuríssimo, azul claro, violeta, roxo e quem sabe quantas outras cores maravilhosas. Tudo emoldurado pelos contornos escuros dos prédios e pelas luzes vermelha, amarela e verde do semáforo da rua  Aracajú, que se alternavam sem que os carros, para minha satisfação se movessem um único metro. Nos e-mails que peguei à noite em casa, fiquei sabendo que o fenômeno fora visto em todo o País, por "colegas" astrônomos que insistiam em tentar decifrar o enigma das cores do céu daquela tarde maravilhosa.

O caminho até a chácara foi uma poeira só. Aqueles quilômetros de estrada de terra foram impressionantes. Conforme eu olhava pelo retrovisor, numa prece silenciosa eu implorava para que não aparecesse nenhum carro à nossa frente, pois a estiagem, característica dos meses de maio a setembro, naquela região é muito intensa. E a poeira das estradas é absurda. É comum os poços de água que abastecem as chácaras e sítios secarem e as plantações desaparecerem. O gado emagrece. As cores, que no verão são muito vivas e intensas, dão lugar a uma tonalidade marrom desbotada. Mas, apesar da seca há flores maravilhosas, como as das primaveras, que são de uma exuberância estrondosa.

Não sei se eu já mencionei o fato anteriormente, mas eu sempre tive uma compulsão: os postos de gasolina de beira de estrada. Estes postos, antigamente, eram indecentes. Entrar num de seus banheiros era um ato de coragem. Ou de desespero.

Mas, hoje em dia, não. Hoje existem postos espetaculares. Cheios de guloseimas irresistíveis, de objetos divertidíssimos expostos sobre as prateleiras, esperando por pessoas que não resistirão. Há um, no qual paramos (mesmo a custa de encompridar nosso trajeto de uns 10 Km), que é um verdadeiro shopping. Mas não um shopping comum: é um shopping rural. Eles vendem animais, mudas de plantas, chapéus de couro, selas, máquinas incríveis para os aficionados de hortas e pomares, sementes, e uma infinidade de objetos interessantíssimos. 

Eu sou daqueles que curte a viajem desde o momento de encher o tanque de gasolina, ao sair de casa (porque será que ele está sempre vazio?). De modo que nossa viajem levou umas duas horas a mais que o habitual. Chegamos à chácara na hora do pôr-do-sol e, com a ajuda da minha mulher, montei toda a tralha rapidamente e comecei a fotografar Vênus e Júpiter que davam um show no oeste.

As imagens, mesmo submetidas ao AstroStack, ficaram pobres. Mas, quando vistas diretamente do telescópio eram excelentes. O alinhamento feito pelo Sebastião está realmente ótimo: 

                  Júpiter

             Vênus

          Vênus

Agora já são 22:00. Meu texto meio que "on line" foi interrompido pelo Lucas - Sobrinho do Mauro (caseiro), que tem 17 anos e toca violino na sua igreja. Ele ficou aqui comigo contando seus planos: está no primeiro colegial e vai entrar no exército . Mas, na realidade ele queria era entrar na aeronáutica. Mas a base aérea mais próxima fica em Pirassununga, o que o obrigaria a abandonar a escola - ele estuda à noite. É um garoto inteligente e dedicado. Tem futuro esse garoto. E além de tudo tem bom coração e generosidade: deu-me de presente, após uma longa conversa sobre astros e aviões, uma pequena lupa (creio que sirva para ver selos) que ganhou de um amigo. Depois perguntou-me se eu queria comprar um scanner. Contou-me a história  do pai de um amigo que "trabalhava" com roubo de cargas. Exercia o ofício  há mais de 30 anos.  Foi preso esses dias.  A família passa por dificuldades. Por isso está vendendo seu scanner por R$ 40,00. Será que eu me interesso? Amanhã cedo ele vai ver a marca. Mas é novinho em folha, ele garante...

Depois apareceu a Pâmela, filha de 11 anos do Mauro, com uma amiguinha, e ficaram olhando pela ocular do telescópio enquanto eu conversava com o Lucas, que me contava a história de uma cobra (Jararaca) que caiu na piscina na semana passada. Mas antes veio a história da prova de biologia para a qual ele havia estudado muito: aranhas como a viúva negra, não são antropófagas. Tem outro nome. Mas a coisa funciona mais ou menos assim: enquanto a fêmea e o macho tem relações, a fêmea pica o macho e o mata. Então envolve o  macho num casulo e deposita seus ovos lá. Quando nascerem os filhotes, eles e alimentarão do corpo do próprio pai.

Isso é canibalismo. Quando um ser humano se alimenta de outro, não é canibalismo. Tem outro nome (o Lucas não lembra qual - nem eu). Conversas rurais...

O céu está maravilhoso, e a garotada foi dormir. Minha esposa e seu pai que estavam numa conversa animadíssima, agora assistem à TV.  Eu tenho um plano secreto e maldoso de atear fogo nessa praga. Lembro-me de um outdor na marginal que dizia, com letras brancas sobre um fundo negro: "a televisão é a besta do inferno". Mas eles, pai e filha,  se gostam muito. É bonito de se ver.

Eu já havia ligado o micro no Sky Globe e, com sua ajuda, encontrado no céu o Cruzeiro do Sul, depois localizei o Escorpião. Dai achei Antares, depois Spica. No meio do Centauro o que parecia ser uma nebulosa enorme, que ocupava toda a área da ocular de 25 mm. O Sky Globe me informava tratar-se da NGC 5139. O livro do Pedro Ré me informou que ela se encontra a 16.000 anos-luz. É também conhecida como Enxame Globular Ômega Centauri. É o enxame globular de maior dimensão aparente. Chega a ser detectável a olho nu. Portanto não é uma nebulosa. A imagem que eu via era como um círculo de um tecido muito fino, como um linho finíssimo, correspondendo as elevações e depressões do tecido às estrelas. São milhares. A imagem do livro do Pedro Ré é a que se segue. Mas ao vivo é mil vezes mais bonita e complexa.

A Carta do Pedro Ré me dizia, ainda, que se eu virasse mais um pouquinho o Mr. Magoo, eu deveria encontrar a NGC5128, que é uma galáxia a 20 milhões de anos-luz da Terra. Eu procurei durante horas, mas não encontrei. Fica a Imagem do Livro:

    

A Carta da Região, para quem se dispuser a procurar estas maravilhas está aí:

Boa sorte. Vale à pena tentar.