02 de junho de 2002

Andei meio sumido do meu diário. O motivo é o mais pobre possível: não tinha nada para contar. Entre o mau tempo, a falta de tempo, a preguiça, e o Mr. Magoo, que continuava meio cego, nada aconteceu.

Mas estando em pleno feriadão, preso em São Paulo pois minha mulher tinha de trabalhar, criei coragem e levei o Mr. Magoo para o Sebastião Santiago Filho dar um jeito nele. Acabo de receber um e-mail dele dizendo que o telescópio sofria apenas de falta de colimação. Diz ele que viu Vênus, inclusive notando suas fases e Júpiter, com suas formações de nuvens. É claro que não vejo a hora de ir lá buscar o bichinho, mas acho que só vou ter tempo daqui a uns dois dias.

Ontem fiz um programa diferente: participei do "ERA" - Encontro Regional de Astronomia, no Observatório "Jean Niclolini", também chamado de Observatório Capricórnio, em Campinas. Ou melhor, o observatório não está exatamente em Campinas: está num município vizinho, cujo nome minha memória se recusou a registrar.

A coisa começou cedo: às seis da manhã eu estava, em plena escuridão de outono, lutando com minhas pálpebras para que se mantivessem abertas, em frente à casa do Luis Renato, pois combinamos de ir juntos ao Encontro. Felizmente ele é um excelente co-piloto, pois as instruções que eu recebera via internet sobre como chegar ao observatório, situado na serra das Cabras, eram meio complicadas e assustadoras: incluíam passagens como "Passe o hospício...", "...em meio a fazendas...", "...até acabar o asfalto...", "...feche os vidros que lá vem pó...", "...suba até o topo do morro...", "...se possível faça o trajeto de dia..."...

Na verdade a viajem foi muito tranqüila. Não nos perdemos em momento algum e, ainda por cima descobrimos uma excelente padaria entre Campinas e Souzas, onde um chocolate quente nos deu uma injeção de ânimo.

O trecho final da viajem foi numa estrada de terra cuja beleza nos deixou maravilhados. A tal Serra das Cabras não tinha nenhuma cabra visível (provavelmente elas estavam dormindo àquela hora), mas sim milhares de pedras enormes e imponentes em meio às colinas de um verde perfeito. Aquela visão foi suficiente para mudar nossos ânimos e termos consciência de que estávamos chegando a um lugar especial: um lugar mágico. Místico.

Fazia muito frio quando chegamos ao observatório. Mas era um frio revigorante, que auxiliava meus pobres neurônios a estabelecerem umas poucas conexões sinápticas que me levavam a um estado próximo da lucidez. Logo foram chegando várias pessoas.

O Observatório Capricórnio é um local extremamente bem cuidado: grama aparada, paredes pintadas, banheiros limpos. Nota-se que é um local administrado com eficiência e com amor.

 

Tivemos várias palestras com alguns dos maiores astrônomos brasileiros: Walter Maluf (Teoria Solar), José Guilherme Aguiar (Cometa C2000/W1), Juan Hodar (Softwares Planetários e estudo de Variáveis), José Carlos Diniz (Astro-engenhocas), Tasso Napoleão (Busca de Super-Novas) e Victor Rodrigues Jr. ( Cooperação entre Astrônomos Amadores).

As palestras foram excelentes, e pude aprender muito. Não que eu tenha concordado com tudo que foi dito. Existem conceitos com os quais eu não concordo. Mas eu sempre fui meio assim... rebelde. Mas pensei no quão pouco sei sobre a Astronomia. Tive oportunidade de conversar com os palestrantes e com "aprendizes" como eu (ou "Amantes da Astronomia - que seria um degrau abaixo de "Astrônomo Amador", segundo uma das teses apresentadas no evento. Mas eu acho que isso é mera segregação. Vontade dos que sabem um pouco mais de aparecer. De se sentirem mais importantes...). Conversas entre uma aula e outra, nas quais fui ouvindo conselhos, dicas, tentando entender conversas entre as autoridades do assunto. Lembrei-me dos primeiros dias de faculdade quando ouvia professores falando de coisas complicadíssimas que eu achava que jamais chegaria a entender. Palavras que, naquele momento, para mim, não faziam sentido.

As pessoas da fotografia abaixo, são os membros do Clube de Astronomia de São Paulo (CASP) que estiveram presentes à reunião.

 

Da esquerda para a direita: Sombra, Fábio, Raquel Yumi, Adriano, Plocos, Carolina, Presto e Luiz.

E aqui fica o registro do meu primeiro curso oficial de Astronomia. Que os próximos sejam como este: inesquecíveis.