6.. Além dos Planetas
Carnaval de 2001. Mais uns dias na chácara. E adivinha quem no porta-malas?
Carta celeste impressa, mas desta vez de um programa mais sofisticado: o AlphaCentaure v.1.23, devidamente baixado da Internet do site http://www.astrosurf.com/alphacentaure/ . Desta página, devem ser baixados os arquivos:
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d1.zip |
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d2.zip |
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sky2000min.zip |
e, para quem não estudou francês (pois o programa é francês), o arquivo
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english.zip |
que dá uma mãozinha, traduzindo a maior parte para o inglês.
O programa já é original na apresentação dos créditos: vale à pena, ainda mais se o usuário entende um pouco de francês. É muito engraçado.
Mas devo dizer que a carta celeste do SkyGlobe é bem mais simples e compreensível. Entretanto o AlphaCentaure é bem mais sofisticado, com detalhes muito interessantes. Na home-page do Alpha Centaure há outros arquivos que podem ser baixados que complementam o programa, tornando-o muito mais complexo.
Carnaval... Na televisão, cuja imagem é corajosamente captada por uma parabólica mirada para o céu por um técnico altissimamente qualificado de nome Gilson - ele também sabe levantar paredes, ligar canos de água, cuidar de gado e de porcos, para não mencionar as galinhas - entre faixas horizontais e um chuvisco na tela da TV (mas é um chuvisco levezinho, como uma garoa paulistana...), podemos admirar os desfiles das escolas-de-samba do País do Carnaval. E que surpresa quando a "Grande Rio" sai com um projeto de astronauta voando por cima do sambódromo... Quantas possibilidades para aqueles foguetinhos colocados às costas de um dublê de astronauta... Ok, o desfile foi bem original, mas que eu poderia relacionar umas cem utilidades mais importantes para aquele foguetinho além de desfiles de escolas-de-samba, eu bem que poderia. Imagine-se, por exemplo, um prédio de trinta andares pegando fogo, e um garoto pendurado do lado de fora da janela. Aí chega o tal "astronauta de escola-de-samba" em seu "foguetinho" (isso deve ter um nome melhor) e entrega ao garoto a ponta de uma corda que irá salvar sua vida...
Bom, mas São Pedro, neste Carnaval, deu uma trégua: Sol de manhã, chuva à tarde e um céu maravilhoso todas as noites. Cinco noites de um céu perfeito. Então lá vamos nós: em primeiro lugar Júpiter. Em segundo lugar Saturno. E depois um milhão de pontinhos perdidos no espaço. Todos iguais... às vezes algum deles brilhava um pouquinho mais que os outros, mas era só.
E então a tal da astronomia era isso: Júpiter, Saturno e um montão de pontinhos...
Não pode ser! Coloco a "Barlow" que aumenta duas vezes. Mas escurece duas vezes, também. Não vejo nada de mais... Não pode ser! Continuo virando a luneta para todos os lados e só pontinhos...
Desolado, recolho a luneta com as lentes que já começavam a ficar embaçadas pelo orvalho e as cartas celestes totalmente umedecidas e entro em casa. Vou dormir com a sensação de que cheguei no ponto final da Astronomia para quem tem um Tasco de 60 mm. Com certeza, para ver mais eu precisaria comprar uma luneta do tamanho de um dos canhões de Navarone...
Na noite seguinte, inconformado com minha limitações sentei-me à mesa e fiquei olhando para as cartas celestes. A única coisa que me restava era identificar as constelações, pois a única constelação que eu identifiquei com toda a certeza foi o Cruzeiro do Sul. Olhei bem para a folha de papel já enrugada pelo orvalho da noite anterior e decidi que nesta noite eu iria me dedicar a achar Órion. Procurei no livro do Pedro Ré, olhei a bússola, encontrei o Norte.
Mas aí lembrei das minhas aulas de pilotagem.
Muitos anos antes, eu fiz um curso de Piloto Privado no Aeroclube de São Paulo. Eu era (e ainda sou) fascinado por aviões. O curso era interessantíssimo. Fiz algumas horas de vôo, a primeira das quais num Cherokee de prefixo PT-DFD. Me lembro de suas cores: branco com detalhes amarelos.
Como manda o figurino, procedi a todas as verificações possíveis antes de decolar: chequei os níveis dos fluidos, a liberdade de movimento das superfícies móveis, as condições das pás das hélices, etc., etc. Lembro-me que fiquei cismado com a pressão dos pneus: disfarçadamente, tendo-me previamente certificado que ninguém estava olhando, dei um chute num pneu. E meu pé voltou como se tivesse encostado numa mola. Para mim isto queria dizer que a pressão dos pneus estava baixa. Que carnaval para calibrar um pneu de avião... Mas eu, piloto zeloso, exigi que os mecânicos conferissem a calibragem dos pneus.
Taxiei pela pista lateral, seguindo as ordens do meu instrutor. Meu coração devia estar batendo mais ou menos numa freqüência próxima à de uma metralhadora...
Neste primeiro vôo, o instrutor decolou o avião do Campo de Marte e, quando estávamos a uns 50 metros de altitude, ele soltou o manche e disse "agora é com você.".
Me pareceu que a coisa mais sensata seria subir. Subir o mais possível, pois isto me daria espaço para errar e, com a ajuda de Deus e do meu instrutor, ter tempo de corrigir meus erros. Subir: basta puxar o manche. E eu puxei. Mas puxei mesmo. Até encostar no peito.
Quem entende de avião sabe o que aconteceu: o avião levantou o nariz em direção ao céu e estolou.
Estolar significa que o avião perde a velocidade e, conseqüentemente a sua sustentação. E quando isto acontece, quem entende aviação sabe que o movimento seguinte é cair. E o avião começou a cair. O nariz abaixando rapidamente em direção àquelas lindas casinhas do bairro da Casa Verde...
E o instrutor só ficou me olhando com uma cara de ira profunda. Ele estava branco como um morto de olhos abertos. Mas, em seu olhar havia um quê de indignação..."Filho da Puta!". Foi tudo o que ele conseguiu dizer enquanto tentava recuperar a sustentação do avião ao som de um alarme de estol que buzinava insistentemente o tempo todo.
Por milagre, ele conseguiu nivelar o bicho e, uns quinze minutos depois, já bem longe da pista e do chão, ele me explicou um detalhe que eu não havia aprendido nas aulas teóricas: no avião, os movimentos devem ser LENTOS.
Voei diversas outras vezes em alguns aviões, e adorei. Pena que seja um esporte tão caro...
Mas mencionei a aviação porque numa das aulas teóricas, aprendi que há o Norte magnético, que é aquele para onde a bússola aponta, mas há também o Norte geográfico, que é o norte de verdade, ou seja, a direção do Pólo Norte. À diferença em graus entre estes dois pontos dá-se o nome de Declinação Magnética. E esta diferença varia conforme o lugar do planeta em que nos encontramos, além de variar com o tempo. Assim, por exemplo, naquele ano, para a cidade de São Paulo, a declinação magnética era de uns 23 graus, se estou bem lembrado. Hoje deve ser de uns 30.
Portanto, enquanto olhava para a bússola apoiada sobre o livro do Pedro Ré, tive o cuidado de descontar (aproximadamente) uns 30 graus referentes à declinação magnética. Assim, pude chegar à conclusão que lá pelas 10:00 horas da noite, para que eu encontrasse a constelação de Órion, eu deveria me colocar com a luneta virada para o norte, depois virá-la um pouco para a esquerda (oeste) e, por fim subir (acho que isso deva ser melhor expresso com "apontá-la para o zênite").
Fiz tudo isso e só vi um monte de pontinhos. Mas é claro! Eu estava usando a ocular de maior amplificação (2,5mm.), portanto a área do céu que eu via era muito pequena (e ampliada). Assim, coloquei a ocular de menor amplificação. E aí a coisa toda mudou: Logo achei Órion, localizando inicialmente as Três Marias. Assim foi fácil pude localizar as outras estrelas principais que compõe Órion.
Mas o mais fascinante, foi achar a M-42, que é uma Nebulosa maravilhosa situada na constelação de Órion. Aí, sim, coloquei a ocular de 2,5 mm. e pude observar a Nebulosa em detalhes.
Então era isso: antes se coloca uma ocular que dê uma visão geral. Aí, quando se encontra algo que se queira ver com mais detalhes, muda-se a ocular para uma de maior amplificação.
E então, nesta noite, voltei a sentir que podia ir em frente. Lá estava a receita para desvendar as maravilhas do céu. Dito e feito: vi um enxame estrelar (que não soube identificar), com centenas e centenas de pequenas estrelinhas piscando todas juntas.
Aí é inevitável de se deixar de imaginar que, em meio a tantas estrelas, luas e planetas, é impossível que haja vida apenas em nosso planeta. É claro que existe vida em outros lugares. É muito egocentrismo acharmos que somos os únicos no universo, pois aquilo a que chamamos de Universo, é constituído de milhões ou bilhões de corpos celestes. E é IMPOSSÍVEL que não haja vida em muitos deles.
É claro que as formas de vida vão variar conforme as condições de cada corpo celeste: por exemplo, num planeta onde a gravidade seja menor que a da Terra, é de se esperar que os seres que lá habitem sejam altos. Em lugares onde a incidência de raios ultra-violeta seja muito grande os seres da região deverão possuir alguma proteção contra este tipo de radiação.
Isto, naturalmente produzirá seres com formas totalmente diferentes dos da nossa espécie. Certamente em lugar de pele, em alguns casos, haverá uma casca dura como o aço. Em outros casos, uma finíssima película transparente fará o papel de pele.
Os tamanhos variarão muito: com certeza há lugares onde seus habitantes são maiores que dinossauros e outros do tamanho de um vírus.
As formas também serão muito variadas: em alguns lugares serão bípedes, em outros se assemelharão a insetos, e quem sabe o que mais...
E quanto à inteligência destes seres? É claro que deve haver de tudo um pouco: alguns serão muito mais inteligentes que os seres humanos enquanto outros terão, no máximo um par de neurônios: um que vai, um que volta e um mata-burros no meio...
Mas se existem seres muito mais inteligentes que os seres humanos, porquê eles não chegam até nós e fazem contato?
Sabe porquê?
Não sabe?
Eu também não.
Ou será que eles já chegaram e eu não fui informado?
Mas naquela noite, já mais relaxado e intimo da minha luneta, não me importei muito com o orvalho: apenas fui mais esperto que ele. Puxei uma extensão elétrica até a mesa onde estava apoiada a luneta e liguei o secador de cabelos de minha mulher. Grande solução...
Só depois é que, lendo mais um capítulo do livro do Pedro Ré, vi que ele propõe exatamente esta solução para o problema, tendo-se o cuidado de manter o secador a uns 25 cm. de distância da luneta, para que seus componentes não esquentem muito e possam sofrer algum tipo de dano.
Mas, ver a M-42 é emocionante. Como descrever?
Descrever? Eu não deveria descrever. Eu deveria fotografar ou filmar.
Na noite seguinte, minha extensão elétrica, além de suportar um secador de cabelos, já tinha ligada também o carregador de baterias da minha filmadora. Minha mesa de trabalho começava a ficar apertada: livros, cartas celestes, lanterna, secador, filmadora...
Direcionei a luneta para Júpiter, por ser mais luminoso, e tentei filmar o que via. E, para meu delírio vi, além de Júpiter, quatro de suas luas. E, apenas segurando a filmadora encostada à ocular da luneta foi possível registrar algumas imagens do planeta.
Mas existe um detalhe: minha filmadora (Sony HandyCam) foi comprada numa viagem que fiz com minha mulher à Itália. E o vendedor me garantiu que ela funcionaria num televisor brasileiro sem o menor problema.
Dancei... o sistema da minha filmadora é PAL. Não é PAL-M. Assim, para ver no televisor as imagens filmadas há dois caminhos: o primeiro é colocar um decodificador entre a filmadora e o televisor e reproduzir o filme diretamente da filmadora. O segundo é levar a fita de 8mm original até o "Vídeo do Alemão" e mandar fazer sua transcrição para uma fita normal de videocassete, que poderá ser vista em qualquer aparelho de videocassete.
Portanto, ao voltar para São Paulo, montei todo o aparato para ver as imagens de Júpiter. Mas, ao apertar o botão de "eject" da filmadora, ela travou.
Minha esposa tem um jogo de chaves-de-fenda muito pequenas...
Incrível como são complicadas estas filmadoras por dentro...
Agora ela não abre, não fecha, não liga, não roda... Parece greve de metalúrgico no ABC...
E eu não vi as imagens que gravei.
Mas então, a teimosia venceu: Internet > Astronomia> CCD
Que sonho este tal de CCD. É uma camerazinha que fotografa pela luneta. Mas o preço...
Continuei na Internet. E encontrei a solução para meu problema e para o meu bolso:
http://www.geocities.com/dinizfam/quickcam.html
Diniz é um astrônomo. Mas um astrônomo de verdade. E ele ajudou a todos os astrônomos, de forma brilhante, publicando o meio de se confeccionar uma máquina fotográfica baseada no CCD que equipa qualquer QuickCam (câmara de vídeo para microcomputadores).
É claro que eu já havia pensado no assunto. Passei várias horas, ajudado por minha esposa, com uma paciência e dedicação infinitas, tentando projetar um suporte para a filmadora que se adaptasse à minha luneta. Fizemos peças- piloto em papelão, madeira e fita-crepe que, caso achássemos que fosse viável, seriam transformadas em um suporte de alumínio para a filmadora. Mas não há espaço na minha Tasco para segurar um suporte destes.
Assim, graças ao Diniz, tenho uma esperança de poder fotografar a M-42. Mas isto fica para outra página...

Adriano Caló - R. Maranhão, 598 cj. 11 - 01240-000 - S.Paulo SP