04 de maio de 2002

Há semanas meu lado de Astrônomo esperava por este dia pois, segundo relatos da imprensa e de e-mails trocados pela internet, esta seria uma rara oportunidade de observar um acontecimento raro: um alinhamento que envolveria 5 planetas. Na realidade não seria um alinhamento perfeito: os cinco planetas seriam visíveis, no mesmo horário, uns bem próximos aos outros.

Havia quem afirmasse que isso era um erro, e que esta observação só seria possível no hemisfério norte. Outros diziam que a data adequada à observação já teria ocorrido há várias semanas. Assim, eu resolvi que para dirimir a dúvida, o melhor seria consultar o software "Chartes du Ciel". Realizei diversas simulações, trocando datas e horários e cheguei à conclusão que eu deveria levar em conta alguns critérios científicos fundamentais:

1. Os planetas deveriam estar o mais próximo possível uns  dos outros.

2. O horário em que isto ocorresse deveria ser após o pôr-do-Sol.

3. A data deveria ser um sábado, pois nas outras noites eu deveria dormir cedo para trabalhar na manhã seguinte.

4. A data deveria prever um final de semana em que minha esposa não trabalhasse em suas lojas.

Meu bom e velho micro(não tão micro quanto eu desejaria que ele fosse)computador realizou os cálculos e chegamos à conclusão que 4 de maio, lá pelas 18:30 seriam a data e horários mais adequados.

Comecei a me imaginar observando o fenômeno com toda a parafernália, com um certo friozinho outonal, na companhia de vacas e cachorros. Esta solidão astronômica, às vezes é boa. Quando se está sozinho observando as estrelas, não existem pressões. Não há pressa. As coisas andam no ritmo que nossa própria calma ou determinação mandarem. Tudo é paz, serenidade, tranqüilidade. Os detalhes do céu podem ser apreciados bem devagar. Fica-se refletindo sobre o que se vê e, principalmente, sobre o que não se vê.

E assim fomos para a chácara, na sexta-feira à noite, minha mulher, meus dois telescópios (afinal o acontecimento merecia dois telescópios), o micro computador, a web-cam, a máquina fotográfica, as cartas celestes, os livros, a bússola, eu e, bem dobradinho num canto do carro, meu querido sogro que, numa atitude heróica e resignada não se lamentou em momento algum da falta de espaço no interior do carro. Sim, seu silêncio era um pouco suspeito, mas eu atribuí o fato à emoção de retornar à chácara que ele tanto aprecia.

Só desconfiei que seu silêncio não se devia à nostalgia rural quando paramos num posto de gasolina na beira da estrada para tomar o cafezinho de praxe e ele, ao sair do carro, permaneceu curvo. Seu corpo parecia uma vírgula. Mas logo ele conseguiu se endireitar com poucos gemidos e olhares estranhos em minha direção. Mas ele não disse nada.

Nada grave... eu sou assim mesmo: sempre achando que estou abusando da paciência alheia... Mas isso deve ser apenas um complexo meu. É claro que ele não se importou de carregar o monitor do computador no colo e ficar meio espremido entre um Casegrain e um refletor. Tenho certeza de que ele também não se importou quando comuniquei-lhe que sua mala não poderia superar as dimensões de um saquinho de supermercado... Grande sogro eu arrumei! Gente finíssima.

Chegamos à chácara lá pelas 11:30 da noite, e o céu repleto de nuvens. Comecei a pensar que minhas observações do alinhamento estariam definitivamente condenadas.

Amanheceu um dia estranho, embaçado. A visão do Sol lembrava um entardecer Londrino.

Na hora do almoço chegaram meu irmão, sua esposa e seus filhos. Eu logo refiz meus planos mentalmente, para incluir naquela que ia ser uma observação solitária, um sobrinho e, no máximo, um irmão. Minha esposa e minha cunhada certamente se dedicariam a jogar "tranca". Meu sogro e meu outro sobrinho estaria dormindo.

Mas, lá pelas 16:30, o céu continuava nublado e eu comentei com minha esposa que achava que meus planos tinham ido por água abaixo. Mas ela, com seu otimismo inabalável, me convenceu a montar os equipamentos, pois o céu de Itú costuma pregar peças na gente. É claro que isto foi apenas uma tática feminina e maquiavélica para me manter ocupado e para que eu não começasse a reclamar da vida. Mas, segui seu conselho assim mesmo.

Enquanto montava o equipamento, fiquei sabendo que teríamos mais alguns convidados, naquela noite: uma parte da família de minha cunhada,  que também tem um sítio nas proximidades, viria nos visitar.

Assim, deixei de lado qualquer previsão de como ocorreria minha observação do alinhamento: certamente não iriam me deixar sozinho, como eu previra anteriormente. Afinal, o mais provável era que o céu continuasse cheio de nuvens. E além disso,  todas as pessoas presentes (pelo menos as que eu já conhecia) eram pessoas muito simpáticas e interessantes.

Lá pelas 17:45, meu sobrinho e eu, com todos os equipamentos a postos, observávamos pelo Tasco de 60 mmm um pequeno avião, perto do horizonte, que fazia manobras acrobáticas incríveis. E as nuvens, como que por encanto, sumiram todas.

Lá pelas 18:15 surgiu no céu Júpiter. E eu comecei a me animar. A web-cam pronta para registrar tudo o que aparecesse. Logo depois apareceu Vênus. Enorme, brilhante. E a seguir, Saturno com seus anéis. No momento seguinte, surgem o Fábio e a Renata. Eu não os conhecia e fomos apresentados em condições um tanto quanto estranhas: no escuro, eu bastante ocupado, meu sobrinho desalinhando a buscadora do telescópio, as pessoas falando, perguntando, exigindo explicações...

O Fabio, na verdade, vinha de uma caminhada de 16 Km., pois ele estava se preparando para enfrentar, em uma semana, o caminho de Santiago de Compostella. Um sujeito que, à primeira vista me fez pensar num administrador de empresas que iria dar uma olhadinha pela ocular e no momento seguinte iria se dirigir para o interior da casa junto com os outros. 

Engano meu: ele entendia profundamente de Astronomia, apesar de restringir suas observações aos binóculos. Mas foi ele quem me apresentou a Mercúrio. Foi ele quem me ensinou que aquela estrelinha avermelhada, próxima ao horizonte era Mercúrio. Assim, logo percebi que ele era mais uma pessoa especial da família de minha cunhada, que tem a característica de ser composta apenas de pessoas realmente simpáticas, cultas, interessantes mas que souberam manter sua humildade e simplicidade.

Logo depois, chegaram o pai dela com sua esposa. E cada um que chegava, fazia sua passagem pelos telescópios. E cada um queria ver um planeta diferente. Assim, meu sobrinho e eu nos transformamos em verdadeiros guias turísticos do céu, mostrando os cinco planetas a cada um que queria vê-los. As fotografias foram esquecidas por falta de tempo: estávamos ocupados demais.

E foi uma delícia observar a reação destas pessoas ao verem o céu através dos telescópios. Naturalmente quem fez mais sucesso foi Saturno com seu anéis, que arrancava exclamações de admiração de todos os presentes.

Quando Mercúrio baixou no horizonte, ficamos todos sentados na varanda, numa conversa muito agradável, com a perspectiva de uma "pizzalhada" no forno a lenha que fora programada para a noite.

Muito mais tarde, quando todos já haviam se retirado, fiquei só com o velho Tasco viajando pelo céu que acabou se revelando uma maravilha. Um pouco mais tarde, meu irmão apareceu e ficou por um tempo olhando para as estrelas, até que, num dado momento me chamou para ver algo que achou estranho: duas estrelas bem próximas. Expliquei-lhe que o que ele estava vendo era Alpha Centauri  que, na realidade eram três estrelas que giravam em torno de um centro de gravidade comum, mas que o Tasco só conseguia separar duas das estrelas.

Depois ele encontrou um aglomerado fechado e ficou surpreso com o que viu.

É muito gratificante ver as pessoas se interessarem pelo céu. Eu me sinto mais normal.

A carta celeste do que observamos do alinhamento é a que se segue.

 

Moral da estória: meus planos, normalmente falham. O destino faz o que quer, e não se importa nem um pouquinho com aquilo que planejo ou penso: o que inicialmente parecia ser uma noitada solitária, se transformou num acontecimento cheio de gente, muito divertido e agitado.

Eu adorei. Esta noite, com certeza vai ser mais uma daquelas que não esquecerei. Ouvi dizer que este alinhamento só voltaria a acontecer em 600 anos. O Fabio me falou em 40 anos. Seja lá como for, eu certamente não estarei mais por aqui para ver. Assim, senti-me privilegiado e agradecido por ter podido observar um evento tão raro, e ter podido dividir minhas emoções com pessoas tão especiais.