9 de março de 2002

 

Umas 9 e meia da noite conseguimos pegar a estrada, após uma grande chuva que caiu sobre São Paulo. Mas, como já aconteceu muitas vezes, apenas passado o pedágio da Castelo Branco, o céu abriu. Mas abriu mesmo. Lá pelas onze estávamos na estrada de terra que leva à chácara, e o céu estava tão perfeito, tão cheio de estrelas, que não resistimos à tentação de parar o carro e desligar as luzes. Que espetáculo! O céu, após a chuva é perfeito.

No sítio, estes dias, houve tempestades fortíssimas que derrubaram arvores enormes e fizeram muitos estragos. É... ter um sítio é assim mesmo... Isso me lembra o caso do Carlos:

No meio da madrugada o telefone toca . Nosso amigo levanta-se e atende:

- Alô, seu Carlos? Aqui é o Arnaldo, caseiro do seu sítio.

- Pois não seu Arnaldo. Que posso fazer pelo senhor? Houve algum problema?

- Ah, eu só tô ligando prá avisar pro sinhô que o seu papagaio morreu.

- Meu papagaio? Morreu? Aquele que ganhou o concurso?

- É, ele mesmo.

- Pôxa! Que desgraça! Gastei uma pequena fortuna com ele! Mas, morreu de que?

- De comer carne estragada.

- Carne estragada? Quem fez essa maldade? Quem deu carne para ele?

- Ninguém. Ele comeu a de um dos cavalos mortos.

- Cavalo morto??? Que cavalo morto, seu Arnaldo?

- Aqueles puro-sangue que o senhor tinha! Eles morreram de tanto puxar a carroça d, água!

- Tá louco? Que carroça d'água?

- Para apagar o incêndio!

- Mas que incêndio, meu Deus?

- Na sua casa! Uma vela caiu, ai pegou fogo na cortina!

- Caramba, mas ai tem luz elétrica!!!! Que vela era essa?

- Do velório!

- QUE VELÓRIO, PORRA????

- Da sua mãe! Ela apareceu aqui sem avisar e eu dei um tiro nela pensando que era ladrão!

 

É... sítio tem dessas coisas...

Então, chegando à chácara, montei toda a tralha. E lá fiquei até as 3 e meia da madrugada. O telescópio já estava encharcado de orvalho, bem como o pobre computador que mantinha na tela, em tempo real o "Sky Globe" que guiava meus caminhos pelo céu. O frio se fez presente, numa noite de pleno verão.

O telescópio mesmo tendo seu espelho secundário novamente metalizado, não apresenta uma imagem totalmente nítida. Parece que é impossível conseguir um foco perfeito. As estrelas não se apresentam como um ponto, mas sim como um ponto que contém em seu interior 4 minúsculos pontos. Mas eu não consigo entender a causa deste problema.

Nesta noite, passeei por muitos lugares do céu: invadi a Via Láctea, mergulhei na "caixa de Jóias" do Cruzeiro do Sul (e desta vez vi dez vezes mais estrelas do que pude ver em São Paulo), e então decidi que era hora de procurar por um objetivo determinado. E este objetivo seria uma nebulosa. Após pesquisar um pouco na tela do micro, optei pelas  nebulosas

Comecei pela M4 (globular), na constelação de Escorpião, próxima à estrela Antares. Não vi nada de especial. Então passei para a M6 e M& (ambas globulares), ainda na constelação de Escorpião, a meio caminho de Sagitário. Não vi nada. Simplesmente não as encontrei. Aí resolvi ser ambicioso: pus-me a procurar a M-8 (Nebulosa da Lagoa) e sua vizinha M-20 (Nebulosa Trifida). O que consegui encontrar resume-se a uma tênue manchinha de algodão. Não soube dizer nem se era a M-8 ou a M-20. Mas o que mostrava meu livro do Pedro Ré e do Guilherme de Almeida era bem animador:

Não vi nada disso, mas aprendi onde devo procurar. E um dia (ou melhor, uma noite), eu sei que as verei. Basta uma certa dose de teimosia e, quem sabe, um equipamento um pouco melhor.

 

10 de março de 2002

Esta noite não estava tão nítida como a anterior, por isso, resolvi me dedicar um pouco à Web Cam para depois colocar em ação o meu software "AStro Stack". Então comecei a caçar Júpiter. Com a web cam, caçar é a palavra certa. Mas, no meio da escuridão eis que chega minha salvação: Pamela, a filha do caseiro, que tem 11 anos e estava com uma surpreendente vontade de ver estrelas na tela do meu micro. 

Assim, resolvemos dividir as tarefas: enquanto ela se responsabilizava pelo mouse do micro, "batendo"as fotografias, eu guiava o telescópio. E ela foi ficando incrivelmente animada, apesar do frio e do sono contra os quais ela, encolhidinha na cadeira, lutava bravamente. Ela fez nada menos que 73 fotografias de júpiter.

Percebendo que o sono e o frio eram mais fortes que ela, obriguei-a a ir dormir, com a promessa que iria tratar as fotografias com o Astro Stack ainda naquela noite e lhe mostraria o resultado na manhã seguinte.

Toda a família do Mauro viu, com uma grande dose de orgulho, no dia seguinte, os resultados do nosso trabalho:

                 

                 

Estas foram as imagens criadas pelo Astro Stack, e tratadas pelo Photo Styler, obtidas a partir das melhores das 73 (setenta e três!!!!)  imagens captadas pela Pamela. Confesso que gostei dos resultados. Acho que eles já estão um pouquinho melhores que aqueles da página 24 deste diário...