16 de janeiro de 2002

Este foi um daqueles dias em que parece que alguém lá em cima resolveu que eu merecia uma trégua. Então, misteriosamente, em pleno verão amanheceu um dia muito frio e com o céu que,em certos momentos chegou a ficar completamente azul (após muitos dias com chuvas torrenciais e nuvens que cobriam praticamente todo o Brasil). 

Então, chegando ao consultório, decidi tirar o som da "Alpha FM", que toca sempre as mesmas músicas, e coloquei o "Estro Harmônico"de Vivaldi. E parece que a musica fez milagres - tudo deu certo, inclusive com aqueles pacientes mais difíceis.

Depois do almoço, saí com meu filho para comprarmos equipamentos para uma pescaria a ser realizada na sexta-feira (é: vou tirar a sexta-feira de folga!!!!) e foi muito gostoso fazer os planos para a nossa aventura: um pai, um filho, um barco e a linha na água...

A noite, também transcorreu tranqüila e alegre, com a visita de minha cunhada e seus sobrinhos. Dia raro: alegre, sem problemas, sem aporrinhações.

Lá pelas 11:30, hora de dormir, dou uma olhada no céu: estonteante! Coisa raríssima nesta São Paulo poluída e cinzenta. Parecia até um presente especial para mim: terminar este dia perfeito com chave de ouro. Era como uma mensagem: olhe para o céu - ele é a ultima dádiva do dia.

Então eu penduro meu telescópio na beira da janela e, das muitas estrelas visíveis (isso em São Paulo é milagre), as que me chamam à atenção são as do Cruzeiro do Sul. Observo a Dupla que forma Alfa do Cruzeiro. Depois, olhando pela "mira", percebo uma "nuvenzinha ao lado de BCru.

Então vejo pela ocular aquela nuvenzinha. A imagem que pude observar me fez pensar que, após dezenas de tentativas, finalmente eu havia localizado a "Caixa de Jóias". A descrição da Caixa de Jóias que eu tinha na memória, vinha do livro "Rumo às Estrelas"de Alberto Delerue:

" Apesar de pequena, a constelação do Cruzeiro do Sul nos reserva ainda outra surpresa. Lá se encontra um dos mais belos e famosos aglomerados do céu, denominado Caixa de Jóias. Se você apontar uma luneta naquela direção, ou um binóculo de médio alcance, certamente vai ficar maravilhado. Vão surgir dezenas de estrelas de variadas colorações, em especial azuladas e avermelhadas, e outras ainda levemente esverdeadas. Todas cintilam como verdadeiras pedras preciosas. Não se sabe ao certo a distância destas jóias celestes, mas calcula-se que não se encontram a menos de 7 mil anos-luz."

Ou seja: a imagem que se vê, foi gerada há nada menos que 7 mil anos....

Assim, como não tinha montado o microcomputador para poder fotografar o que via, resolvi fazer um desenho:

Eu não conseguia observar tantas estrelas como Delerue descreveu. Nem tantas cores: apenas uma das estrelas me parecia mais amarela que as outras. Mas, podia perfeitamente ser a Caixa de Jóias, mas com seu esplendor ofuscado pela minha localização geográfica: centro de São Paulo, com milhões de luzes acesas.

Já era hora de dormir, mas não resisti: liguei o micro e entrei no programa "Cartes du Ciel", e programei o bicho para me mostrar o céu "on line", ou seja, o céu que se via da minha janela. Aumentei a região do Cruzeiro do Sul, e obtive a seguinte carta:

Então tive certeza: era realmente a Caixa de Jóias. O software fornecia a seguinte descrição:

Enxame Aberto

NGC 4755           OCL 892

Constelação: Crux

Dimensão: 10.0'x10.0'

Magnitude 4.20

Brilho de Superfície: 8.94

Descrição: !!Cl,vL,Ri,st vB (Kappa Cru)

Jewel Box Cluster;50  * mags 6..10; many tinted*

Agora sei localizar a Caixa de Jóias: ela não está dentro da "Cruz", que era onde eu vinha procurando por meses a fio, mas sim logo ao lado externo da estrela Beta.

Este decididamente foi um bom dia: nada de especial: apenas música, serenidade, alegria, paz e a visão de sete mil anos atrás de um punhado de estrelinhas .