5. Primeira observação (de verdade)
Eram os primeiros dias de janeiro de 2001 e fomos até a chácara de meu sogro em Itú (Estado de São Paulo, a uns 80 Km. da cidade de São Paulo e uns 10 da cidade de Itú). Ocupando a maior parte do espaço do porta-malas do carro, só dava ela: a luneta, devidamente embalada para que a poeira da estrada não penetrasse em seu interior (para se chegar à chácara, é preciso percorrer um trajeto de 8 a 10 km. por estradas de terra - depende do caminho escolhido).
Antes de sair de casa, imprimi diversas cartas celestes, obtidas em meu microcomputador no programa "Sky Globe". Este software pode ser encontrado e "baixado" da própria internet, em diversos sites de astronomia ( por exemplo http://www.stargazing.net/AstroTips/portugues/index.html que é um site onde se pode fazer o download de diversos programas de astronomia).
Chegando à chácara, o primeiro passo foi encontrar um local apropriado para a montagem da luneta. Escolhi o patamar à volta da piscina, pois era plano, sem plantas próximas e longe dos animais, afinal em áreas rurais deve-se estar atento a alguns animais que julgo extremamente antipáticos, como cobras, sapos, escorpiões, aranhas, etc.
Esta opção deu relativamente certo: de animais, só apareceram dois: um sapo enorme e muito mal-encarado que, como diria um advogado, foi chutado para longe sem dolo. Ou seja, estava escuro, e eu decidi ir tomar um copo de água na cozinha da casa. No percurso, meu pé topou com algo da consistência de uma bola de futebol de couro, mas meio murcha... era o sapo. êta bicho feio... e para se defender, o sacana faz xixi. Mas faz xixi com fé e vontade, espirrando para tudo que é lado...
O outro animal que apareceu chamava-se Bina. Bina é uma pastora alemã muito mais inofensiva do que podem sugerir os seus caninos amarelados. Bobinha a Bina... quando ela vê alguém, lá vem ela abanando aquele rabão, com um jeito meio carente... o problema é que o tal do rabão atingiu em cheio o tripé da luneta e ela quase mergulhou dentro da piscina. Foi por pouco... Então, aí vai uma lição: animais com rabo devem ficar longe da luneta.
Nesta primeira noite, o primeiro corpo celeste observado foi, novamente Júpiter. Mas, por incrível que pareça, em São Paulo, no meio da poluição, se via melhor. A seguir comecei a baixar a ponta da luneta para observar uma estrelinha que brilhava bastante, uns 3 graus abaixo de Júpiter.
Mirei bem, e quando vi pela ocular tive uma das visões mais empolgantes da minha carreira de astrônomo amador: outra bolinha branca, da cor da Lua, mas com um enorme anel à sua volta, da mesma cor. É uma emoção incrível ver Saturno ao vivo. Eu só havia visto imagens de Saturno pela televisão, na internet ou em fotos de livros e revistas. É claro que a qualidade da imagem que vi não se comparava àquelas feita por maravilhosos telescópios espaciais (como o Hubble): minha imagem era muito mais modesta. Era singela. Ela tinha uma humildade tocante... Mas era a MINHA imagem de Saturno. Não um Saturno de papel ou pior ainda um Saturno virtual. Era uma imagem de verdade, de um planeta de verdade, passeando pelo céu ao vivo e em cor (uma cor só - branco - mas não deixa de ser uma côr).
Toda a família veio ver. O caseiro, a mulher do caseiro, seus filhos, meu filho, minha mulher... Que festa! Senti-me quase que como o descobridor de Saturno... E aí, como não podia deixar de ser, as nuvens foram aparecendo, e só consegui ver, bem mais tarde, uma Lua cheia de crateras, que também produziu fortes emoções. Só parei de ver o céu quando a humidade do sereno embaçou por completo minhas lentes e fui obrigado a ir dormir. Mas sonhei com planetas incríveis e mundos maravilhosos e distantes.
Clique aqui para saber mais
sobre Saturno.

Adriano Caló - R. Maranhão, 598 cj. 11 - 01240-000 - S.Paulo SP