11 de setembro de 2001
Este diário, no fundo, não é apenas relacionado à Astronomia: ele é também o diário de parte da vida de uma pessoa. Ele retrata um tempo, uma época, um estilo de vida. Assim, ele seria incompleto se eu deixasse passar certos acontecimentos que têm o poder de mudar o mundo.
Segundo o Anuário de Astronomia 2001 de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, no céu há Marte, Mercúrio, Júpiter e Saturno. Além destes planetas, Os cometas P/Gehrels 3, Borrelly e 1987 Q3 (P/Helin) também estão dando o ar de sua graça.
Mais especificamente no dia de hoje, terça-feira, Tem inicio o ano 1717 da era de Diocleciano (calendário copta - que teve inicio no ano juliano de 284 e compreende 12 meses e 30 dias, aos quais se adicionou, em geral, 5 dias "epagomenos" todos os anos, e 6 dias "epagomenos" a cada quatro anos). A Lua está em seu quarto minguante.
O que Ronaldo Mourão não colocou em seu anuário, pois não tinha como sabê-lo, é que um grupo de fanáticos covardes (dado que não tiveram a coragem de se identificar), cometeram um atentado terrorista contra os Estados Unidos, seqüestrando quatro aviões de passageiros e arremessando-os contra alvos civis da cidade de Nova York e Washington.
O mundo todo viu, às 8:45 da manhã (horário de NY), estarrecido, um dos dois prédios mais altos de NY, o World Trade Center, com 110 andares, envolto em chamas, ao ser atingido por um avião.

Neste momento, eu estava em meu consultório, quando o marido de minha auxiliar, Graciete, ligou e contou que estava vendo estas imagens quando, minutos depois, ao vivo, ele via um segundo avião colidir contra a segunda torre do WTC. Eram as 9:03 da manhã em Nova York.
Eu fiquei imaginando as causas. Em minha inocência, inicialmente, imaginei uma pane no ILS (equipamento de aproximação por instrumentos) do aeroporto mais próximo, de modo que os aviões teriam sido colocados numa altitude ou numa rota erradas, vindo a colidir com os edifícios. Mas para que isso acontecesse, seria necessário que houvesse uma neblina fortíssima, ou chuva muito intensa, de modo a reduzir a visibilidade a zero. Só assim os pilotos não teriam percebido que estariam indo de encontro às torres.
No momento seguinte, deixei minha inocência de lado e imaginei que não poderia ser descartada a possibilidade de o suposto defeito no ILS ter uma origem proposital, ou seja: sabotagem.
Mas, 40 minutos depois, o Pentágono também foi atingido por um outro avião. Às 11:29 um quarto avião caiu perto de Pittsburgh (Pensilvânia).
Passamos o rádio do consultório para a freqüência AM. Coisa rara. Mas queríamos ouvir as notícias. A "Jovem Pan" não falava de outra coisa. E eu estava errado: era, realmente, um ataque terrorista, mas nada tinha a ver com o ILS. Eram ataques suicidas.
O que senti, naquele momento foi apreensão: qual seria o próximo ataque? Onde seria? Como seria? Felizmente, este outro ataque não veio.
Tentei a Internet, mas quase nenhum site funcionava. Principalmente aqueles que davam notícias, como o "estadão" e a CNN.
Na hora do almoço, liguei a televisão, em casa. Imagens da CNN copiadas por outras emissoras bombardeavam meu cérebro. Todos estavam chocados. Atônitos. Impotentes.
À tarde levei um minúsculo televisor para o consultório. Entre um paciente e outro, eu tentava ouvir notícias. Mas todos os pacientes vieram pontualmente, de modo que eu fiquei sem saber de muita coisa.
Havia um inimigo, mas ele não se identificava. Deste modo, nada podia ser feito pois, sem saber quem era o responsável, impossível tomar qualquer atitude.
As bolsas de todo o mundo suspenderam suas operações. A segurança em todas as embaixadas e edifícios públicos de todo o mundo foi reforçada. O espaço aéreo americano foi fechado. As fronteiras também. Havia medo por toda parte.
O numero de vítimas fatais deve girar entre 10 e 20.000 pessoas.
Poucas informações. Muitas perguntas. Falava-se que o suspeito n. 1 seria Osama bin Laden, terrorista saudita sediado no Afeganistão. Mas não havia provas.
Os principais líderes do planeta logo fizeram suas declarações de repúdio.
Eu, particularmente, senti raiva. Como se pode destruir tantas vidas por um ideal religioso? Certamente, Deus, seja lá ele quem for, não deseja ver seus filhos se matando, em seu nome. Eu tenho o direito de acreditar no Deus que eu quiser acreditar. E tenho a obrigação de respeitar as crenças de todas as outras pessoas. Devo respeitar seus solidéus, seus crucifixos, suas imagens, seus turbantes, seus véus, seus rituais e mesmo o seu agnosticismo ou seu ateísmo. E os outros tem a obrigação de respeitar as minhas convicções. Este é um direito de qualquer ser humano.
Mas o que incomodava eram três palavras que foram timidamente pronunciadas por alguns poucos entrevistados pela imprensa: terceira guerra mundial.
Fiquei pensando como é frágil nosso planetazinho azul: basta que um fanático qualquer decida dar um passo e a Terra será imediatamente colocada em risco. Se as pessoas que detêm o poder deixarem-se dominar pela raiva e apertarem "o botão" estaremos todos liquidados em poucos instantes.
Mas, neste caso, como ficam os sonhos das pessoas? Como fica o futuro dos nossos filhos? Para que trabalhamos tanto? Para que abrimos mão de tantas coisas pensando num futuro que pode não chegar? A que será reduzida a natureza, a Terra, os mares, a vida, enfim?
A vida... Este "detalhe" parece não ter muito valor para alguns... Certamente nenhum deles jamais pensou que a vida é, praticamente, um milagre. Para que uma única célula possa viver, são necessários tantos requisitos... é preciso que haja uma ordem tão grande, um sincronismo tão perfeito, são postos a funcionar tantos mecanismos de um nível de complexidade tão intenso, que pode-se afirmar com toda a certeza tratar-se de um milagre.
Então o que todos nos perguntamos, no fundo, é: quem tem o direito de colocar em risco este milagre chamado "vida"?
Mas, este é o diário de um astrônomo amador. Então falemos das estrelas.
As estrelas continuarão seu curso, independentemente das loucuras que nós humanos possamos vir a cometer. Nosso pobre planeta pode ser reduzido a pó, e elas continuarão a brilhar, indiferentes ao nosso destino.
Mas, neste caso, quem é que vai olhar para elas e admirar a beleza desta fantástica dança cósmica?
Certamente não seremos nós, egocentricamente autodenominados "seres humanos".
