10 de agosto de 2.001

Finalmente criei coragem e comprei uma Web Cam. Na realidade a idéia foi tomando forma uns dias antes, quando os computadores de casa e do consultório foram infectados com um vírus.

Estranho como às vezes um vírus acaba sendo construtivo... Aconteceu que eu me deparei com o tal Sircam no micro do consultório e, não sei porque o antivírus não pegou. Então eu fiquei preocupado, pois lá havia uma série de arquivos que eu não podia perder de jeito nenhum. É claro que eu tinha cópias de segurança, mas... e se as cópias também estivessem infectadas?

Assim achei melhor chamar o Mário. O Mário é um vizinho meu que trabalha (e muito bem, por sinal) com microcomputadores. Assim ele levou embora a CPU do consultório para tentar salvar os arquivos.

Enquanto isso, eu tentava formatar o disco rígido do computador de casa. E lá fiquei eu até as altas horas. Mas faltavam drivers e aquela complicação toda de Windows e o tempo ia passando... 

Liguei para o Mário e disse que ele ia ter de consertar o micro de casa também.

Mas aí lembrei de um detalhe: havia, na casa da minha sogra, um micro, algum tempo atrás, cuja única e nobre função era a de rodar aquele programinha do jogo de paciência. Mas era uma máquina boa. Então eu "seqüestrei" o tal micro, com a intenção de retirar-lhe alguns componentes e trocar por outros da minha máquina, de modo que eu teria em casa um micro mais potente e meus sogros ainda teriam uma máquina suficientemente potente para jogar paciência.

O problama foi uma certa fumacinha que surgiu de um disco rígido durante a operação de troca. E aí o micro dos meus sogros não funcionava mais, e eu o deixei abandonado num canto. Meus sogros, não sei bem porquê, passaram a modificar suas atitudes: passaram a jogar paciência com um baralho antigo e desbotado, ao mesmo tempo em que eu podia notar uma certa expressão de ira profunda quando olhavam para mim. Acho que era só impressão minha...

Assim, quando o Mário veio em casa buscar meu micro, eu aproveitei e entreguei-lhe também o micro de minha sogra, pedindo-lhe que fizesse uma máquina mais possante (para meu uso) e uma mais simples, para que meus sogros voltassem a jogar paciência informatizada.

E assim foi. Toas as máquinas voltaram a funcionar do jeito que eu havia pedido ao Mário.

Mas então, quando eu ia entregar o micro aos meus sogros, surgiu aquela figurinha vermelha e preta com dois chifres e um tridente na mão e me disse: "que tal acoplar na máquina dos sogros uma Web Cam e ligá-la na luneta?"

A carne é fraca... Saí e comprei a tal web cam. É da Creative, modelo CTVBWCPL Web Cam Plus.

Instalei a câmera (novamente com a ajuda do Mário) e brinquei um pouco. Gracinha...

Aí lembrei que há alguns meses, eu havia encontrado na internet um artigo sobre como desmontar uma web cam e adaptá-la ao telescópio, e que este artigo fora impresso e guardado em algum lugar. Logo o encontrei (eu sou um sujeito meio organizado...). O artigo é de José Carlos Diniz http://www.geocities.com/dinizfam/quickcam.html .

José Carlos Diniz usou uma "Quick Cam"cujo chip media 320x240 pixels. E com esta câmara conseguiu fotografias bem razoáveis. Eu fiquei bastante animado ao constatar que a câmera que eu havia comprado possúia 640x480 pixels. Ou seja, o dobro de pontos. Portanto, calculei que as imagens que eu poderia obter seria duas vezes melhores que aquelas mencionadas no artigo do Diniz. Fiquei muito animado.

Esta câmera, como pode ser visto na foto acima, possúi uma articulação que permite dirigir o foco para a direção que se deseja. Além disto possúi um botão em sua parte superior que funciona exatamente como o disparador de uma máquina fotográfica. O ajuste do foco é conseguido rodando-se a objetiva.

Li duas vezes o artigo do Diniz antes de conseguir coragem para desmontar a bichinha. Primeiro problema: como começar a abrí-la? Resposta: em sua base existem quatro pequenos pés de borracha que impedem que ela escorregue. Basta removê-los, puxando-os para fora. Sob estes cilindros de borracha estão os quatro parafusos que devem ser desrosqueados. Assim se abre a base da câmera. Para minha surpresa, nesta parte havia apenas um peso metálico destinado apenas a dar estabilidade ao conjunto. A câmera propriamente dita encontra-se no outro bloco (o que possúi a lente).

Para abrir o outro bloco é necessário desrosquear um parafuso que prende uma peça plástica que forma a dobradiça. É fácil, pois é o único parafuso que se consegue achar lá dentro. Retira-se esta peça plástica, depois retira-se um pequeno cilindro plástico que estabiliza a dobradiça e o que sobra é apenas a parte frontal do cojunto.

A seguir é necessário se abrir esta parte, o que é conseguido enfiando-se delicadamente uma pequena chave de fenda na fenda que une as duas metades da capa da peça. Esta capa é formada por duas partes. Para separar uma da outra, há uns "dentes"internos que devem ser desnganchados com delicadeza, empurrando-os para dentro.

Com a câmara aberta, retira-se o conjunto de lentes (é uma peça única) e volta-se a fechar o conjunto anterior. Sobra então um buraco circular que, por muita sorte encaixa-se muito bem às oculares da minha luneta. Durante esta operação eu me senti exatamente como me sinto quando inicio uma cirurgia para a retirada de uma lesão cística ou um tumor de dentro de um maxilar: é preciso ir devagar, pois nunca se sabe o que vai se encontrar no minuto seguinte. É melhor não olhar muito para as peças que vão sendo retiradas, caso contrário a gente fica com medo de não conseguir reconstruir tudo. Na hora da sutura, a gente sempre dá um jeito...

Para fazer os testes iniciais, eu mirei  a luneta em uma janela do prédio em frente ao meu (distante uns 70 m.), ajustei o foco e prendi a web cam (ou melhor, o que sobrou dela) com um elástico de cabelos da minha esposa (um destes elásticos grossos e coloridos).

A câmera vem acompanhada de um CD-ROM com alguns programas que administram as operações de captura de imagens. Mas é preciso, antes de plugar a câmera, instalar os programas. Ativado o programa Web Cam Monitor, a imagem começa a aparcer. Ajustei melhor o foco, e consegui ver o interior do apartamento da minha vizinha (tudo pelo bem da ciência). Não resisti e fiz as primeiras fotografias:

Considerando-se a distância e a pouca iluminação, fiquei muito animado. Então parti para as estrelas. O mais óbvio: Marte. Pendurei a luneta na janela, apoiada apenas em dois de seus pés (para conseguir a direção correta) e vi Marte. Era apenas uma bolinha branca, mas dados os descontos da poluição luminosa e atmosférica de Sampa, o resultado foi muito bom. Pena que eu tenha fotografado em jpg e não em bmp, pois esquecí de configurar o programa para isso. Se fosse um bmp, eu teria uma imagem muito mais detalhada, que poderia ser trabalhada em editores de imagem com muito mais eficiência.

Claro que não é uma maravilha, mas acho que na chácara as coisas vão ser diferentes. Difícil vai ser enfiar além da luneta o microcomputador dentro do carro, mas a gente dá um jeito... Ah, e quanto aos meus sogros, vou sair hoje à tarde e comprar um baralho novinho em folha. Um não: dois. Um para cada. Tudo pelo bem da ciência...