20 de julho de 2.001
Tenho ido algumas vezes à chácara. Mas não é que sobre muito tempo para escrever páginas para a internet.
Ultimamente o que tem dominado o céu, continua sendo Marte. As bordas azuis e avermelhadas que relatei na página anterior, revelaram ser apenas distorções provocadas pelas lentes da luneta: quando a imagem do planeta está bem no centro, estas cores somem, e sobra apenas um disco branco, pequeno, que lembra a Lua vista de longe (isto é, sem detalhes). Não é que tenha muita graça... Mas se forem levadas em conta as possibilidades de que já tenha havido alguma forma de vida em Marte, aí a coisa fica mais emocionante.
Comprei um novo livro: "O Livro de Ouro do Universo" de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. É genial. Fala sobre planetas, estrelas, cometas, Lua, e outros que tais, mas de uma forma muito interessante. Há nele muita história e gravuras antigas que me fascinaram. Existem também muitos poemas. Um deles, escrito por Olavo Bilac que, conforme me ensinou minha secretária, é um soneto, pois tem 2 quartetos e 2 tercetos, chama-se "Via-Láctea":
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do Sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo Céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
Alguns dias depois, encontro uma segunda versão deste soneto, escrita pelo "glorioso poeta ítalo-brasileiro Juó Bananére":
UVI STRELLA
Che scuitá strella, né meia strella!
Vucê stá maluco! E io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte accunversáno c'oella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o Sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru çeu: - Cadê strella?!
Direis intó: - Ó migno ilustre amigo!
O chi é chi as strella ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?
E io ti diró: - Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.
Juó Bananére
Morri de rir ao imaginar o italiano declamando seu poema. Achei genial.
O Juó Bananére, que na verdade se chamava Alexandre Marcondes Machado, foi um poeta do início do século XX que se "especializou" em escrachar os clássicos da literatura brasileira, que nem o coitado do Bilac. Na época ninguém levava ela muito a sério, mas hoje ele é considerado um dos precursores do Modernismo, justamente por ter sido o primeiro a romper com a literatura tradicional. E, mas horas vagas, era engenheiro.
Soube que no céu é possível se observar o cometa linear A-2. Tentei achar o danado, mas minha luneta não dá pra tanto... Então passei a tentar achar algo mais em Marte. Nada. Coloquei todas as "Barlow's" que eu tinha, mas apenas podia ver um disco branco. Isso quando a luneta parava de trepidar por causa do vento. Aliás, no inverno, em Itú, venta. Mas venta muito. Assim, para me defender do vento montei um anteparo que consistia em se colocar uma mesa de jantar em pé ao lado da luneta. Melhorou um pouco. E notei que os cachorros não saiam do meu lado... Acho que eles gostaram do meu observatório improvisado...
Uma das dificuldades que enfrento, é identificar as constelações. Quando olho para o céu, o que consigo ver com clareza é o Cruzeiro do Sul e (quando está presente), Órion. Quanto às outras constelações, não conseguia identificá-las. Isto até o dia em que fiquei observando um pôr-do-sol, e então surgiu Marte no céu. Mas logo depois começaram a aparecer as estrelas mais brilhantes. Justamente as que delimitam as principais constelações. Ou seja, como no sítio é muito escuro, aparecem tantas estrelas no céu, que eu não consigo delimitar as constelações. Mas ao anoitecer, as coisas ficam bem mais fáceis.
Eu tinha um mapa do céu impresso, então tratei de ver a qual constelação pertenciam duas estrelas que brilham muito (que podem facilmente ser observadas do céu de São Paulo) que se situam logo à esquerda do Cruzeiro do Sul. Olhando a carta celeste, ficou fácil: eram as estrelas Beta e Alfa da constelação do Centauro.
Bom, já que eu tinha identificado as duas primeiras, tentei localizar as demais. Comecei a traçar linhas imaginárias pelo céu e assim consegui definir toda a constelação do Centauro, que tem o formato de uma pipa daquelas que as crianças empinam no céu (eu empinei pipa pela primeira vez com uns 23 anos de idade, e fiquei fascinado).
Então notei no atlas que bem no meio da "pipa", havia duas coisas a serem observadas: a galáxia 5128 e o enxame globular 5139. Comecei a procurar, sempre olhando o atlas com uma lanterninha e traçando linhas imaginárias pelo céu. O que vi foi uma nuvenzinha circular, esbranquiçada. Tinha exatamente o aspecto de uma nuvem.
Não consegui saber se o que vi era o enxame ou a galáxia. O atlas do Guilherme de Almeida e Pedro Ré publica as fotografias destas duas formações:

Mas eu via apenas uma nuvem bem fraquinha. Provavelmente era o enxame globular. Mas que deu uma vontade de ter um telescópio mais potente, deu. Pelo menos os 114 mm.
Naquela mesma noite ( 7 de julho ), aproveitando a posição de Marte, que estava, segundo a carta que peguei no Sky Globe, exatamente entre as constelações de Escorpião e Sagitário, identifiquei cada uma das estrelas de Escorpião. Agora, quando olho para o céu só dá o rabo do escorpião... É como andar de bicicleta: aprendeu, não se esquece mais.
Devido ao frio e ao vento reinantes à beira da piscina, quase peguei uma sinusite. Então minha mulher comprou um daqueles gorros que os bandidos usam para fazer assaltos (aqueles em que apenas os olhos ficam de fora). Espero que os cachorros não estranhem quando eu colocar o tal gorro... Acho que vou enfileirá-los à minha volta e, muito lentamente, vou enfiar o gorro, sempre explicando a eles que não sou bandido... Será que eles vão entender?