27 de abril de 2.001

Não resisti! A carne é fraca... Não teve jeito. Fui até a Santa Efigênia e comprei uma mini câmara para televisão. É fabricada na China. Mas não tem manual.  A marca é Sunspo. Na caixa estão impressos os dizeres:

marcador CCIR
marcador 420 Lines
marcador 0.01 LUX
marcador Power 12 VDC
marcador Focal 3.6 mm

O modelo é SP-984CA B/W Audio Video Camera.

Seu tamanho é mais ou menos o de meio maço de cigarros. Comprei a câmera em branco e preto pois as coloridas têm uma sensibilidade 5 vezes menor. E, além disso, este modelo capta os raios infra-vermelhos (não sei se isso serve para alguma coisa, mas quanto mais ela captar melhor. Eu acho...).

Aqueles 6 pequenos leds que aparecem na parte frontal da câmera, produzem raios infra-vermelhos que são captados pela câmera em distâncias de até 1 metro, aproximadamente. Os outros furinhos são os orifícios de entrada do som (é, a câmara capta sons). A objetiva possui um jogo de lentes e regula-se o foco girando-a para um lado ou para o outro. Na realidade, com a câmera montada em seu suporte, os 3,6 mm. de distância focal são reduzidos a zero, de modo que pode-se chegar a menos de 1 mm. de um objeto e ver a imagem na televisão.

Mas, há um probleminha que provavelmente pela lógica chinesa é totalmente coerente. Mas pela minha lógica macarônica-brasileira, é um absurdo: da parte traseira da câmera saem, separados por uma distância de mais ou menos 1 mm., um par de fios, que um pouco mais adiante se unem num cabo único, desembocando em dois plugs: um amarelo (fêmea) e outro preto (macho). Distante uns 4 cm. deste par, sai outro cabo que desemboca num plug vermelho (fêmea).

Usando meus mais profundos recursos neuronais, concluí que o par preto-amarelo, por estar unido num único cabo, destinava-se ao som e à imagem. O outro cabo, por estar isolado e possuir apenas uma entrada, obviamente destinava-se à alimentação de 12 V requerida pelo aparelho. Impossível errar.

Ligo o transformador que comprei junto com a câmera no plugue vermelho e o par preto-amarelo no televisor. Nada.

Mas como eu sou um sujeito precavido, levei para o sítio meu multímetro. Desmonto a câmera. Interessante. Conheci ao vivo um CCD. Pecinha quadrada, brilhante. Meio sem charme. Testo a fonte. Tudo bem: ela produz seus inexoráveis 11, 5 Volts (seria pedir muito 12 Volts no meio do mato...).

Então chego à conclusão que só pode haver um erro: troquei o cabo destinado ao som pelo cabo destinado à imagem. Troco: nada!

Conclusão: ao trocar o cabo do som pelo da imagem, queimei o raio do CCD. Fico deprimido. Mas há mais uma chance... vai ver que pela lógica dos engenheiros chineses, no cabo duplo deverá entrar, de um lado, a eletricidade. Do outro, sairá o som. A imagem, parte mais nobre, deverá seguir solitária pelo outro cabo. Nada!

Volto a montar a câmera. Aperto os parafusos e a recoloco na caixa. Dou tudo por perdido.

Mas nesse momento, chega minha mulher e sugere que eu tente mais uma vez. E eu respondo:

"Olha: não adianta nada: eu ligo aqui a eletricidade. Depois ligo o cabo na televisão e..." E então, por puro mistério, a imagem aparece no televisor. Ajusto o foco. É perfeita. Não entendi nada... mistérios da eletrônica oriental...

Então começamos a testar a bichinha: se você aproxima a câmera a 1 mm da pele, enxerga os pelos super ampliados, a pele, por pouco não mostra seus mistérios microscópicos.

Então aproximo a câmera de meu olho. É incrível. Notam-se detalhes inimagináveis. Detalhes que eu só vi em esquemas no quadro-negro da faculdade.

Impossível resistir: abro a boca e vou examinando dente por dente. A úvula aparece enorme, cheia de detalhes. A imagem da faringe, com a úvula lembra aquelas imagens de endoscopia digestiva. É incrível. E como a própria câmera emite sua luz (infra-vermelha), não há problemas de iluminação. É genial.

Nisso, o Sol já foi embora, e começam a aparecer as primeiras estrelas no céu.

Monto a luneta na velocidade da luz. Problema: como adaptar a câmera à luneta? Mais uma vez minha mulher me dá a resposta: elásticos. E, realmente, dois elásticos desses feitos para segurar qualquer coisa são suficientes para prender firmemente a câmera à luneta.

A Lua, quase no quarto crescente, foi meu primeiro alvo. Tive de retirar tanto a ocular da luneta como a objetiva da câmera, tomando o cuidado de deixar os 6 leds infra-vermelhos fora do encaixe da ocular, ou seja, não devem penetrar no interior da luneta os raios infra-vermelhos produzidos pelos 6 leds da câmera, que produzem reflexos que só servem para atrapalhar.

E assim, vejo no televisor a Lua, com todos os seus detalhes: crateras, vales, etc. É como assistir a um show de camarote, com todo o conforto. Olha-se para o televisor e vai-se ajustando a direção da luneta. Alto nível.

Então decido que é hora de ver outros astros. Miro numa estrela brilhante e... nada. Miro para outras estrelas e nada. Conclusão: a câmara não possui sensibilidade suficiente para captar o brilho de uma estrela.

Acabou a brincadeira. A câmara dá para a Lua e mais nada.

No dia seguinte, um Sol de rachar coco. Mas apesar do Sol e da seca, a água da piscina está gelada. Sento-me à sombra do barracão onde estão situados o forno a lenha, a churrasqueira e o fogão de lenha. Lá tem uma imensa mesa (que foi construída pelo meu sogro e por minha mulher numa madrugada em que ambos foram acometidos por uma insônia profunda), onde me sento e tento ler meu atual livro de cabeceira: "O Universo Elegante", de Brian Greene.

O livro fala da teoria da relatividade geral, de mecânica quântica. Fala de super cordas. Fala de um tempo que vai para frente e para trás. Fala de um espaço que encolhe. Fala de buracos negros (e, pelo que pude entender, de buracos não têm nada, na realidade são pontos no espaço onde se concentra uma quantidade infinita de energia). Fala de E=Mc2 . Fala coisas meio difíceis de engolir, como por exemplo que, se uma pessoa ficar se atirando a vida inteira contra uma parede, em algum momento seu corpo a atravessará (sem quebrá-la).

Confesso que não entendi muita coisa. Mas isso não importa, pois a equação que define o numero de pessoas que entendem a tal teoria das super cordas é algo que gira em torno de:

y=x-20

Onde y representa o numero de pessoas que entenderam a teoria,  x representa o numero de seres humanos existentes na terra, e 20 é o numero de pessoas que entenderam pelo menos uma parte da teoria, aí incluídas a mãe e a esposa do autor...

Meus pobres neurônios lutavam para entender a razão de o Sr. Brian Greene insistir em afirmar que o perímetro de uma circunferência é igual a 2p . Mas então porquê me ensinaram na escola que o perímetro de uma circunferência era igual a 2 pR ?

Nisso vão chegando a Luciene (esposa do caseiro), minha mulher, meu sogro e o Gustavo (filho do caseiro que tem 4 anos de idade) e se sentam à mesa. Impossível para um neurônio refletir sobre física quântica e ouvir a conversa de outras pessoas.

O assunto era "escola". Até que a uma certa altura da conversa, a mãe do Gustavo diz, cheia de orgulho: "Ano que vem ôce vai prá escola, né, Gú?"

Indignado, o sábio menino responde "eu não!".

E todos pararam, bastante surpresos e preocupados. Mas porque o menino não vai querer ir à escola?

"Piolho! Todo mundo que vai na escola volta com piolho. E eu não quero ter piolho porque tem de passar veneno no cabelo. Na escola eu não vou!".

É... talvez o nosso ministro da Educação devesse passar uns tempinhos nas zonas rurais de nosso pobre País. Ele teria muitas respostas. Quem sabe os índices de analfabetismo chegariam até mesmo a cair significativamente.... 

Na noite seguinte, resolvo olhar mais uma vez a Lua pelo televisor. E lá está ela. Linda. Igual à noite anterior. Noto que Júpiter ainda está no céu. Sei que mais uma hora ele estará abaixo do horizonte. Por via das dúvidas, viro a luneta para Júpiter. E não é que aparece uma bola branca bem no meio da tela do televisor? Mas que raio! Como explicar que ontem não aparecia nada?

Óbvio: Júpiter é o planeta mais brilhante. É claro que se eu mirar para uma estrela não vai aparecer nada. Errado! Aparece tudo. Pode-se ver até mesmo um par de estrelas duplas. Mas a nitidez deixa a desejar. Júpiter não passa de uma esfera branca. As estrelas mais brilhantes são pontos brancos. Aquelas menos brilhantes são tênues manchas. E as menos brilhantes ainda, não aparecem.

Nebulosas e enxames, nem pensar. Mas foi um começo.

Agora só falta um jeito de registrar tudo isso: é claro: a filmadora. Mas a filmadora está quebrada. Ah, mas hoje estou com sorte neste mundo da eletrônica. Quem sabe...

E não é que a filmadora funcionou? Depois descobri (sempre com a ajuda do multímetro) que o problema estava na bateria: ela simplesmente não carrega mais.

Então filmei a imagem que aparecia na tela do televisor. E deu certo. A qualidade das imagens é pobre. Não se compara àquela de uma fotografia, mas dá para ter esperanças...

Na noite seguinte pude ver Marte. Pela minha luneta, Marte se apresentava como uma esfera branca, menor que Júpiter, mas com um dos pólos azulado, e o outro, avermelhado.

Clique aquí para saber mais sobre Marte