20 de abril de 2.001
Hora de almoço e, assim que saio do consultório vou até a ótica da esquina buscar minhas fotos. A funcionária, que já conhece este excêntrico "fotógrafo dos pontinhos" já vai me avisando, antes mesmo que eu tenha podido abrir o envelope que continha as tão esperadas fotografias, que ainda não foi desta vez...
As fotografias da Lua saíram razoáveis. Mas o resto... Bom, para não dizer que não saiu nada, aí vai uma amostra: a primeira foto é Júpiter:
Júpiter
A foto a seguir é Saturno. Que decepção...
Saturno
Quanto às fotos da Lua, como eu disse, o resultado foi razoável. Seguem algumas delas:

Uma visão geral
Detalhe da fotografia acima, mostrando
o topo de uma cordilheira ou cratera
Que triste decepção... 3200 ASA...E não deu em nada. Pelo menos nada de novo. Afinal, como fotografar as estrelas? Fotografei a Nebulosa M-42 de Órion, com diversos tempos de exposição: o negativo está totalmente em branco... Nadinha... Nem um mísero pontinho sequer.
E eu que lutei contra o vento, os parafusos, a máquina... Cheguei a colocar uma mesa de jantar em pé, ao lado da luneta para servir como barreira contra o vento, e nada.
Que desânimo...
25 de abril de 2.001
Que semana... Quebrou tudo: o motor de alta-rotação do consultório, o telefone do consultório, um microcomputador cujo interior eu resolvi explorar (não sei porque cargas d'água ele resolveu, lá pelas tantas, começar a soltar fumaça da winchester), a luminária da mesa da minha secretária...
Ah, a luminária... Eu adoro aquela luminária: é um pequeno abatjour colocado sobre a escrivaninha da minha secretária. Todo mundo gosta. Ele tem um cone de vidro azul escuro, fosco, dentro do qual está alojada a lâmpada. Faz um efeito muito bonito.
Mas, quando a minha secretária chegou, na manhã de segunda-feira, ao ligá-lo, ele piscou uma vez e apagou. Eu retirei a lâmpada e verifiquei o filamento: estava inteiro. Só podia ser o transformador. Desmontei a minha tão querida luminária, que lá, jogada sobre a mesa, com todos os seus componentes internos e mais íntimos expostos, me lembrou de quando fui obrigado a assistir a uma necropsia no Instituto Médico Legal...
Então eu reservo a manhã da quarta-feira para ir até a Rua Santa Efigênia, para comprar um novo transformador.
A Rua Santa Efigênia simboliza, para mim, o que mais aprecio em São Paulo: se você precisa de um parafuso especial, em São Paulo tem. Se precisa de uma pizza às 4 da madrugada, tem. Se quer um livro raríssimo, tem. Aqui tem tudo. É só procurar. E, em se tratando de eletrônica, a Rua Santa Efigênia, é o endereço certo: tem de tudo que se possa imaginar de eletrônica.
Eu ando a Santa Efigênia de cabo a rabo, nas duas calçadas, e nada de encontrar o raio do transformador igual ao meu. Começo a sentir uma dorzinha no fim da minha coluna vertebral. Nada importante apenas a idade...
Pergunto. Me informo. Indago. A única solução: enrolar novamente o transformador, ou seja, trocar mais ou menos uns cem metros de fio que compõe a alma do bicho. E quem faz isso? Fácil: na primeira paralela, tem uma loja que enrola o transformador. Dirijo-me até lá e, realmente eles enrolam. Leva mais ou menos uma hora, e custará 18 reais. Ótimo.
Uma hora sem nada para fazer... o negócio é rodar a "Santa" e fuçar as novidades.
Nas vitrines mil componentes eletrônicos destinados às coisas mais incríveis... Lâmpadas, toda sorte de componentes para microcomputadores, bancas nas calçadas que vendem CD's de softwares pirateados (uma cópia do AutoCad 2000, que numa loja, em promoção, custa mais de R$ 7.000,00 é vendida por R$ 10,00 - Aliás, qualquer software custa R$ 10,00), equipamentos de som, fios, transistores, resistores, diodos, que brilham expostos nas vitrines, refletindo as infinitas cores do arco-íris (é: o arco-íris não tem apenas 7 cores, mas sim infinitas cores), câmaras de segurança, que são feitas com os tais CCD.... e são vendidas por R$ 78,00...
Penso em comprar uma. O modelo mais sensível à luz capta até 1 Lux, e é em branco e preto. As coloridas captam um mínimo de 5 lux. E elas têm o tamanho de uma caixa de fósforos.
Inevitável pensar que minha luneta suportará facilmente o peso de uma caixa de fósforos... Mas estas câmaras são feitas para serem ligadas num aparelho de televisão. Para ligar uma câmara a um micro-computador, é preciso uma web-cam. Mas neste caso eu teria de levar para o sítio um micro-computador. Isso me incomoda, pois não posso levar e trazer um micro cada vez que eu for para lá. Por outro lado, deixar um micro lá é pedir para que assaltem a casa no meio da semana. Lá já houve um caso de assalto, durante a semana, quando os proprietários não estavam e o caseiro estava sabe Deus aonde, em que um caminhão estacionou na propriedade e levou tudo. Mas tudo mesmo, até os lustres da casa. Até os vasos sanitários...
Já no caso da câmara de segurança, as imagens são transmitidas para um televisor comum, ou mesmo um vídeo-cassete. Se, por um lado isso parece mais fácil, por outro complica bastante, pois eu precisaria gravar as imagens em vídeo e depois mandar transformar partes do filme em fotografia. Sei que isso é possível. Anos atrás, quem me fez esse serviço foi o "Vídeo do Alemão", perto do Aeroporto de Congonhas. Mas a coisa me parece complicada...
Assim, o tempo vai passando e minha coluna doendo cada vez mais. Volto à loja onde deixei o transformador, e a proprietária me informa que o transformador não precisa ser enrolado novamente, pois está perfeito. O problema deve estar em algum outro componente da luminária. Mas qual? Simples: eu havia visto numa loja um multímetro digital por R$ 18,00. Comprei o multímetro e fui para casa. Uma hora depois minha luminária estava sobre a mesa da secretária, emitindo seus raios de luz azulada. O problema era a lâmpada: estava queimada, mas o filamento parecia inteiro.
Mas a idéia da câmara ficou que nem grilo na minha cabeça...