DIÁRIO DE UM ASTRÔNOMO AMADOR

 

Afinal, o que um dentista, como eu,  tem a ver com Astronomia?

Acontece que qualquer profissional, inclusive nós dentistas, somos seres humanos, e é importante que tenhamos alguns interesses além de fazer buraquinhos nos dentes dos outros, caso contrário acabaremos nos tornando extremamente "bitolados" e aí, nossa criatividade vai diminuindo, nosso interesse pelas pessoas e pela própria vida vai decrescendo e acabaremos chegando a um ponto em que já não saberemos mais colocar arte, ousadia e amor em nosso trabalho. E aí, o resultado será um mero "fazedor de buraquinhos" que trabalha de forma mecânica, sem arte, sem paixão, sem alegria. E no final, até mesmo os "buraquinhos" que faremos nos dentes dos outros acabarão saindo meio "pobres".

Um profissional, para que exerça sua profissão de forma satisfatória ( ou até mesmo mais que isso) precisa, antes de mais nada, ser uma pessoa realizada. Seja no âmbito familiar, seja em seus sonhos e ideais, seja na sua própria saúde, nos aspectos financeiros, etc.

Assim, eu tenho meus "hobbies". Aliás, já tive um monte. E cada um deles acaba por influir em meu trabalho. Além da fotografia, que foi um dos primeiros, já fiz aeromodelismo, pintura, toquei violão (a pedidos parei...), pilotei aviões, pesquei, acampei, velejei e ando me interessando por astronomia.

Assim, resolvi escrever esta espécie de diário. Porém, ATENÇÃO: este diário relata as minhas experiências, que foram conduzidas de forma totalmente amadorística, com o apoio de uns poucos textos profissionais. Não existe aqui nenhum compromisso com a exatidão das informações técnicas. É apenas uma estória verídica que, talvez, possa interessar a quem, como eu, teve um dia vontade de olhar para o céu e tentar entender algo e descobrir algumas pequenas coisas interessantes. Assim, desaconselho este texto aos Astrônomos profissionais que nele, certamente, encontrarão centenas de erros técnicos e ficarão de cabelos arrepiados. É apenas um passatempo para amadores.

 

DIÁRIO DE UM ASTRÔNOMO AMADOR

1. O Início

Quem de nós já não parou para pensar no Universo? Acho que, pelo menos uma vez na vida todos nós nos perguntamos algo sobre o Universo. Há vida em outros lugares além da Terra? Como são as estrelas e planetas? Do que surgiram? 

Eu me faço estas perguntas desde criança. Afinal, sou do tempo em que assisti na televisão à descida do primeiro homem na Lua - num televisor em branco e preto e com um pedaço de "Bombril" pendurado na antena...

Mas, minhas primeiras observações astronômicas "sérias" nasceram no Planetário do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, há muitos anos, levado pela mão de meu pai, em companhia de meus irmãos. Lá pude ver este enorme aparelho que projetava na cúpula abobadada do edifício imagens maravilhosas de um céu cheio de pontinhos luminosos que nos transportavam a mundos cheios de encantos misteriosos. Passei recentemente pelo Planetário e, para minha grande decepção, lá havia uma placa com os dizeres: "Estaremos fechados para reforma a partir de julho de 1.999" (acho que a data era esta). Reabriremos brevemente. Isto foi em maio de 2.000, e prédio estava fechado e não se viam sinais de trabalhos em andamento...

Depois, veio um acampamento em Monte Verde (MG). Éramos adolescentes acampando nos arredores da vila (naquele tempo não era cidade - Será que já é?) e uma certa noite vimos um ponto verde passando no céu a uma velocidade espantosa. Ficamos intrigados. Discutimos muito todas as possibilidades do que poderia ser aquele pequeno pontinho verde. Mas no dia seguinte, fomos informados por um habitante da vila que aquele era apenas um satélite de comunicações que passava regularmente pelo céu de Monte Verde.

Aí vieram meus filhos. E num aniversário de meu filho, não perdi a oportunidade de presenteá-lo com uma pequena luneta, que media uns 20 cm. de comprimento. Vimos juntos a Lua. Foi emocionante. Pudemos observar as crateras da Lua. Meu filho foi dormir, mas eu permaneci por horas estudando aquele "Queijo Suíço".

Depois descobri na Internet um site onde ao se informar a cidade da qual se observava o céu, um programa fornecia, para as próximas 24 horas,  os horários em que passariam satélites artificiais visíveis a olho nu, por aquele local (http://www.heavens-above.com/). Peguei a listagem numa sexta-feira, antes de irmos para a chácara de meu sogro em Itú, com a programação da noite seguinte, o sábado. 

O primeiro satélite que deveria passar era nada menos que a MIR. Para quem não sabe, a MIR é uma estação espacial Soviética, que até há poucos meses atrás, vivia recebendo a visita de cosmonautas que lá efetuavam seus experimentos. Alguns deles viveram lá por muitos meses. Mas parece que as condições por lá não eram das melhores: vira e mexe algum componente quebrava e acabava levando a tripulação à beira de um ataque de nervos, pois ou o Oxigênio ameaçava acabar ou a estação corria o risco de despressurizar ou a energia elétrica estava por acabar... Parece que a tal da MIR era mais ou menos como a jabiraca do Mauro.

Mauro é o caseiro da chácara, e ele tinha uma Brasília mil novecentos e nada (carinhosamente chamada de jabiraca), toda remendada com arames, com uma boa dose de Durepóxi e Super Bonder. Pára-lamas e pára-choques eram acessórios dispensáveis. Mas ela era de grande utilidade para levar o Mauro e toda sua família até a cidade, quando a bateria, o alternador e o carburador ajudavam.

Assim, premido pela crônica falta de verbas, o governo soviético planeja fazer com que a MIR caia no mar nos próximos meses. Dizem eles que a reentrada da estação será controlada, de modo a que os restos da estação não caiam sobre áreas povoadas mas sim no meio do oceano. Mas tem gente dizendo que isto não é totalmente garantido... Espero que os soviéticos sejam bons de cálculo.

Bom, mas lá estava eu no dia e hora previstos para a passagem da MIR. Os horários são sempre ao entardecer ou ao amanhecer. Nunca vi nada ao amanhecer - estava sempre dormindo - Mas ao entardecer pude ver dezenas de satélites artificiais. Então, chegada a hora, e eu tendo previamente calculado a posição no céu onde deveria surgir a MIR, com o auxílio da bússola de meu avô, derrepente vejo uma clarão riscar o céu com uma velocidade espantosa. Durou apenas uns cinco ou sei segundos, mas a emoção de ver, ao vivo, a famosa MIR, foi indescritível.

O fato de só se poderem observar estes satélites quando o Sol está próximo do horizonte é que eles não possuem luz própria, mas suas antenas e sua própria estrutura refletem para a Terra a luz do Sol poente (ou nascente). Foi genial. Depois da MIR, vi muitos outros satélites. Houve noites em que se podiam ver satélites a cada dois ou três minutos.

Desta forma, adquiri o hábito de subir o morro situado nos confins da chácara de meu sogro ao entardecer, munido de um banquinho dobrável (onde me sento), mapas recebidos pela internet, uma bússola (já não é mais a do vovô), uma lanterna e um binóculo da segunda guerra mundial para observar a passagem destes satélites.

Com o tempo, os habitantes da região ficaram curiosos de me ver sentado só no alto do morro, ao entardecer. Não demorou para que eles viessem perguntar o que eu fazia lá. Então foram horas de explicações para esta gente sobre o que são satélites e porque eles não caem sobre nossas cabeças. Interessante notar que a população rural não tem o hábito de observar o céu. Só depois de nossa chegada à chácara é que alguns deles passaram a observar com maior atenção o céu que está sobre as suas respectivas cabeças. Mas uma vaca ou um pé de alface conseguem sempre um "Ibope" maior que qualquer corpo celeste.

2. Presente de Natal

 Ano de 2000, e o Natal se aproxima. Último Natal do milênio. E, em baixo da árvore de Natal, surge uma caixa longa, mais ou menos um metro. Confesso que tentei obter algumas pistas: por exemplo, o peso. Bem pesada. Alta. Embrulhada de uma forma lindíssima. Era o presente de minha esposa para mim.

Noite de 24 de dezembro. Finalmente sou autorizado a abrir meu pacote. Que alegria. Que emoção. Queria montar minha luneta na hora. Mas não dava: íamos ceiar na casa de parentes que nos aguardavam. Ficou para o dia seguinte.

No dia seguinte, a maravilha: uma luneta. Ou melhor: na embalagem estava escrito um TELESCÓPIO:

Telescópio TASCO Refrator Modelo 302675 675x60mm. BMA S/A

Este seria, então, o instrumento que me permitiria ver, do jeito que eu queria ver o céu.

Abro o manual (eu sou do tipo que lê manuais antes de concluir que eles são uma estupidez) e começo a montar o telescópio.

Realmente, o manual é uma pobreza de espírito. As figuras são tão pequenas que é impossível se montar o telescópio corretamente. E, de fato, algumas peças ficaram ao contrário. Mas nada que o bom senso não pudesse consertar.

Se você pretende comprar um destes telescópios, darei, a seguir algumas dicas de sua montagem que irão facilitar um pouco a sua vida:

marcador

O chamado "visor", com o respectivo suporte do visor, que para mim ficou sendo batizado de "mira" (pois serve para mirar o telescópio para uma determinada direção) , em relação ao botão de foco, deve ter a sua base (aquela que é parafusada no corpo principal do telescópio) mais distante do botão de foco que a parte onde se encaixa a mira.

marcador

Os pés do tripé devem possuir as aletas que suportarão a bandeja de acessórios voltadas para o centro do tripé (para dentro).

marcador

A figura do manual mostra um tripé que se desdobra. Na realidade ele não desdobra, mas sim sua parte interna desliza entre as duas partes externas.

marcador

Monte todo o tripé, bem como o suporte do telescópio sem apertar as porcas e borboletas. Deixe-as levemente soltas, para só apertar quando tudo já estiver colocado em seu devido lugar.

marcador

Ver o Sol, ao contrário do que parece é uma tarefa bem difícil. Nunca olhe diretamente para o Sol, nem pela mira nem pela ocular. A observação do Sol deve ser indireta, ou seja, projetando-se a imagem contra um anteparo. Mas é interessante se ver o Sol: podem-se observar as manchas solares.

 

Montagem terminada! 'E hora de ver os astros! Primeiro passo... Esquece. Só dá para ver estrelas à noite... Com uma nobre exceção: O SOL. Então, é bom lembrar: Nunca olhe diretamente para o Sol, nem pela mira nem pela ocular. A observação do Sol deve ser indireta, ou seja, projetando-se a imagem contra um anteparo. Mas, dezembro, verão... é claro: céu nublado. Mas depois do almoço dei sorte: as nuvens abriram uma pequena janela no céu e o Sol surgiu. 

Moramos num apartamento sem sacada, mas na área de serviço, após algumas operações estratégicas, pude colocar meu telescópio entre a máquina de lavar roupas e a janela, próximo à cozinha que ainda conservava os perfumes maravilhosos de peru e tender. Então coloquei a vareta que suporta o anteparo destinado à observação do sol em posição e comecei a tentar focar a imagem do Astro Rei. E lá estava ela. Demorou bastante até conseguir, mas valeu: via-se até uma manchinha que eu logo adivinhei ser uma daquelas manchas solares que, na realidade são enormes explosões ocorridas na superfície do Sol e que emanam ondas eletromagnéticas que acabam afetando os satélites de comunicações da Terra.

Algumas semanas depois, ao levar a luneta para a chácara pude observar novamente o Sol e cheguei até mesmo a fotografar a imagem sobre o anteparo. (Clique aqui para ver as fotografias) .

Chega a tão esperada noite: céu nublado. NUBLADÍSSIMO. E é um tal de ficar olhando os prédios vizinhos... No prédio da esquerda estão comendo comida chinesa com o ventilador e a televisão ligadas. No alto do prédio posso ver uma daquelas luzes vermelhas que sinalizam as antenas... Vou trocando as oculares e chego a ver o filamento de uma lâmpada na cozinha de um prédio situado a uns 30 m. de minha janela.

Num desses dias pude ver as horas no relógio de pulso de um vizinho que olhava o movimento pela sua janela. Vi as horas a uma distância de 30 metros!!!!

Nunca ouvi tantos palavrões em minha vida.... Os vizinhos se rebelaram! Eles não entenderam que eu queria apenas ver as estrelas, mas o céu estava nublado e então o que sobrou foi ver a vista das janelas dos prédios em frente. Que mentes maldosas... Por via das dúvidas, não voltei mais a colocar meu telescópio na janela...com a luz acesa.

Mas estas horas passadas junto à janela foram muito úteis para que eu aprendesse a ajustar a mira. Não sei como os astrônomos de verdade chamam isso, mas a mira deve ser ajustada, isto é, deve-se ver no centro da mira exatamente o que se vê no centro da ocular do telescópio. E isso é uma operação bastante difícil.

Descobri que é mais fácil se ajustar a mira à noite: localiza-se uma luz proveniente de uma lâmpada distante (o mais distante possível) com o telescópio (não com a mira). Coloca-se esta imagem bem no centro da ocular. E aí se ajusta a mira de modo que aquela fonte de luz fique no centro da mira.

Mas a mira é o ponto fraco deste telescópio. Qualquer esbarrãozinho e a mira sai do lugar. E aí leva um tempão para regular tudo de novo. Essa é uma humilde sugestão para o pessoal da Tasco: melhorem o suporte da mira. Ele é de enlouquecer.

3. Minha Primeira Observação astronômica

Lá pelo dia 27 de dezembro, já cansado de ver antenas, pára-raios e janelas, recebemos a visita de uma amiga e seu filho de 12 anos. Era tudo o que eu precisava para subir no terraço no alto do nosso prédio: afinal, o garoto queria ver estrelas...  coisa de adolescente... e eu não ia deixar o pobre garoto sozinho naquele terraço tão alto.

Montamos o telescópio e começamos a olhar para as estrelas. Escolhemos logo aquela que brilhava mais. E, para meu encanto, vimos uma bolinha esbranquiçada, com duas linhas diagonais mais escuras. Sem dúvida era um planeta! Eu havia, recentemente visto esta imagem em algum lugar. Mas, qual planeta?

Outra coisa espantosa: o tal planeta se movia muito rapidamente pelo campo de visão do telescópio, de modo que era preciso, a cada 8 ou 10 segundos reajustar a direção do telescópio, para não perder o planeta de vista.

Depois, resolvemos virar o telescópio para um outro pontinho brilhante do espaço. O que vimos foi uma bolinha cortada, como se fosse uma lua crescente. Mas que será isso? Um planeta? Provavelmente um planeta onde a luz do Sol só conseguia atingi-lo parcialmente, como se entre ele e o Sol se houvesse interposto um outro objeto celeste (quem sabe a própria Terra?).

Como se fazia tarde, voltamos ao apartamento e, assim que as visitas foram embora (o menino exigindo da mãe que lhe comprasse um telescópio igual ao meu e a mãe me amaldiçoando...) comecei a procurar imagens de planetas em todas as enciclopédias da casa. Uma das respostas fui encontrar na internet: encontrei um site, todo escrito em português que tinha fotografias e descrições detalhadas dos nove planetas. Logo tratei de imprimir tudo. Infelizmente não anotei o endereço eletrônico do site e, nas páginas impressas, não aparece o endereço.

Meio pacote de papel para impressora depois, eu finalmente tinha meu primeiro "livro" de astronomia e, baseado nas imagens estampadas na minha memória, cheguei à conclusão de que o primeiro planeta que havíamos visto era Júpiter.

É claro que as fotografias mostradas na internet possuíam detalhes incríveis que o meu telescópio não mostrava. Mas era Júpiter, sem dúvida. Quanto ao outro planeta, fiquei sem saber qual era.

Júpiter, visto pela ocular do meu Tasco, era uma bolinha branca (da cor da Lua), com duas linhas mais escuras diagonais. Fiquei sabendo, depois, outros detalhes bem interessantes, que podem ser vistos no link abaixo.

Clique na figura para saber mais sobre Júpiter

 

4. Tentando entender um pouco mais

Para tentar entender um pouco mais do assunto, saí a procura de livros que me ensinassem o básico da astronomia. Pensei que seria fácil encontrar, por exemplo, um livro que me ensinasse a montar a luneta. Grande decepção: na primeira livraria só tinha um livrinho cheio de imagens montadas sobre os planetas, feito para crianças de uns 10 anos de idade. Continuei procurando: só fui encontrar uns poucos livros na Fenac, no bairro de Pinheiros. Acabei por comprar dois livros:

O primeiro, escrito por Alberto Delerue, intitulado "Rumo às Estrelas - Guia Prático para observação do Céu", um livro que se propõe a ensinar como identificar as estrelas sem o auxílio de instrumentos, editado por Jorge Zahar Editor Ltda. (Brasil), em 1.999. É um livro bastante simpático, onde além de aprender a localizar as estrelas, o leitor entra em contato com alguns mistérios como as cartas celestes, eclíptica, cor das estrelas, etc. Possui, ainda, um pequeno glossário, além de um capítulo muito interessante sobre as lendas e mitos do céu.

O segundo livro, intitula-se "Observar o céu profundo", de Guilherme de Almeida e Pedro Ré,  editado por Plátano - Edições Técnicas Ltda.(Portugal) em julho de 2.000. É um livro que, para um aspirante a iniciante, como eu, é bastante aprofundado. Repleto de equações matemáticas e explicações bastante complexas, possui ilustrações muito bonitas (a maior parte em branco e preto), e é escrito em Português de Portugal que, apesar de ser praticamente idêntico ao Português do Brasil, possui algumas diferenças. Mas o que incomoda um pouco é que é um livro criado para ser usado em território Português. Por exemplo, pouquíssimo se fala nele do Cruzeiro do Sul. Afinal, como soube através deste belíssimo exemplar, o Cruzeiro do Sul não é visível no hemisfério Norte. Os valores dos equipamentos são expressos em Escudos, além de outras pequenas particularidades que não chegam propriamente a incomodar. Porém, este não deve ser encarado como o primeiro livro a ser lido por quem se interessa por astronomia. Mas ele possui um Atlas muito bem elaborado do "céu profundo", ricamente ilustrado.

Além destes dois títulos, havia alguns outros, em inglês. Mas achei por bem iniciar meus estudos em português, afinal o "astronomês" já é difícil. Imagine o "astronomês" escrito em inglês...

=>Clique aqui para ver a próxima página =>

 

 Adriano Caló - R. Maranhão, 598 cj. 11 - 01240-000 - S.Paulo SP

  a.calo@globo.com